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    ⌽ A CASA DA FOME

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    Filip
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    ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jun 04 2017, 01:15

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jun 04 2017, 01:20

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jun 04 2017, 21:08

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    É um homem. Não há dúvidas. Os tomates marcados no fato de látex, entalados até ao pescoço, davam a certeza absoluta de que se tratava de um macho bem dotado, com testículos de búfalo prontos a dar leite gordo para fazer deliciosas mozzarellas. Estava coberto até aos olhos, que escondiam a sua cor através de duas lentes de contacto negras. Estatura média. Nem gordo nem magro. Assim assim.

    Era impossível descobrir quem era.

    O tal concorrente mistério sentou-se no sofá da casa mais vigiada de Aporue, procurando o conforto entre as dezenas de almofadas. Cruzou as pernas com dificuldade, pois era difícil arredar o colhanito para qualquer sítio, e ficou quieto, à espera da entrada dos outros moradores.

    Quem era afinal esta enigmática pessoa? E qual o seu papel na casa?

    - Chegueeeeeeeeeeeeei! - gritou Zé Miguel, ao abrir a porta que dava acesso ao jardim.

    Zé vinha chique. Parecia a noite de fim de ano. Calça justa rosa choque, blazer vermelho, camisa branca com laço mil cores. Cabelo penteado para trás, qual Elvis, bota brilhante de cuspo e uma capeline beje na mão direita. Deu para perceber logo que ia ser o fashionista da casa. Aquele que critica a moda dos outros mas depois sai à rua com uma camisa padrão vomitado e paez cor da pele.

    - Que cores horríveis! Que mesas tão demodé! E a piscina? Rectangular como sempre? Quando é que inovam e fazem uma em forma de trompas de falópio? Ou de uma pilinha? Com um repuxo na ponta para os momentos de maior clímax!

    O seu riso estremeceu as câmaras e provocou um terramoto no Japão.

    - Vou já ver os quartos! – gritou Zé, enquanto caminhava à la Heidi até ao interior da casa – Vou escolher a cama mais chique! Espero que os lençóis sejam de seda dourada.

    Os dois quartos estavam devidamente identificados: Azul para as machas, lilás para as bichas. Impossível enganar.

    Zé correu para o quarto lilás e escolheu logo uma cama de solteiro. Queria manter o nível de gabarito, tão característico das bichas finas.

    - Não quero cá mariquices! Vou dormir sozinha até sair! – disse para as câmaras – Ondulações da minha parte só em hotéis de luxo no Dubai!

    O primeiro concorrente a entrar na casa continuava sem reparar no homem vestido de látex. Era como se fosse invisível para si. Mas a misteriosa pessoa não se mexeu sequer perante a presença de Zé. Manteve-se na mesmo posição, como se de um manequim se tratasse. E Zé lá continuava, dominado pelo entusiasmo, a percorrer cada canto do seu novo quarto em busca de qualquer coisa para criticar.

    - Odeio este quadro. E aquele ali do fundo também. Estes móveis são da estação passada, migas! E o papel de parede parece a estampa das cuecas do meu primeiro namorado. Um russo horrível que conheci nos armazéns do Chiado – fez uma cara de repulsa – Que nojo! Só de lembrar! Só se aproveitava a Vodka grátis! Valha-me Deus!

    Enquanto Zé criticava todos os pormenores da sua nova habitação, um novo concorrente entrava pela porta do jardim. A primeira perna a entrar na casa revelou um salto alto bordeaux com a sola vermelha.

    Prontos, era Loubotin. Zé Miguel ia falecer de excitação.

    A tal mulher lindíssima percorria agora o caminho até à sala. Longos cabelos negros, os lábios agressivamente pintados de vermelho, olhos suavemente pincelados com lápis preto, um blush discreto e nada de acessórios. O brutal decote era suficiente. As mamas enormes e formosas. Pareciam um desenho. As pernas longas, a pele porcelana, o sorriso perfeito. Puta que a pariu, era mesmo boa.

    Entrou na casa e saltou logo de pânico ao dar conta do concorrente mistério imóvel no sofá.

    - Louvado seja o Senhor! – gritou a mulher – Quem foi o infeliz que se enrolou no saco do lixo e se sentou feito necrófilo para me assustar?

    Zé Miguel apareceu de rompante com um abajur amarelo na mão.

    - Olááááá! – disse, entusiasmado – Sou o José Miguel, mas as migas tratam-me por Zé Miguel. É uma maneira de aligeirar o meu nome tão azeitola! Sou de Sintra, e sou chique!

    - E aquele quem é? – perguntou a mulher, apontando para o homem de látex.

    Zé olhou para trás e pouca importância deu ao concorrente mistério, que nem depois do grito da segunda concorrente mostrou qualquer sinal de vida.

    - Sei lá! Deve ser a VOZ ou o caraças! – respondeu prontamente – Ai melher, tu és tão linda! Olha-me para esse par de mamas!

    Agarrou o peito da concorrente, massajando-lhe os mamilos.

    - O espermatozóide do teu pai fez uma equação para entrar no óvulo! É que tu nem sequer tens um milímetro de celulite nesse rabo!

    Agarrou-lhe o traseiro com convicção, apertando-o.

    - O meu já não é o que era. De tanto saco bater, ficou a parecer uma gelatina de pêssego da Royal.

    Mas de repente, após tantos estímulos, o inesperado aconteceu: A concorrente teve uma erecção. De entre as suas pernas nasceu um gigante vulto, impossível de esconder. Parecia que tinha o jornal A Bola escondido dentro do saiote.

    Zé Miguel reparou logo e afastou-se, entre gritinhos estridentes e palavras religiosas que aprendeu na missa.

    - Disseram-me que era proibido trazer o vibrador para dentro da casa! – gritou, indignado.

    - Não era minha intenção… - disse a concorrente – Chamo-me Miguel e sou transformista. Estou aqui para ganhar dinheiro para fazer a operação de mudança de sexo. Faço noitadas no Trumps e no snack-bar Gayvota. Canto remixes da Kylie Minogue. Todos me conhecem como a Suzette Putette.

    Não houve qualquer reacção da parte de Zé Miguel. Apenas cara de nojo. De repulsa. Os braços encolhidos junto ao corpo, os dedos das mãos separados e uma perna flectida junto ao abdómen. Parecia uma gata assanhada.

    Nem deu tempo ao maricas de digerir tão bizarra situação. Uma concorrente tão ou mais formosa que a Miguela entrou pela porta do jardim, caminhando pelas pedras húmidas até à sala nos seus saltos agulha. Abriu a porta. Mas não conseguiu passar.

    - Uma ajudinha, não?! – gritou, em desespero.

    As suas enormes mamas não a deixavam entrar na casa. Ficaram entaladas na porta. Um mamilo à la grávida todo castanho brotou pelo decote de tanta força que fazia. Redondinho, bem carnudo. As mamas espalmadas contra o vidro. Parecia uma batata deformada a tentar passar pelo ralo do lavatório da cozinha.

    Zé correu para a ajudar, ainda de boca aberta, enquanto o transformista se foi lavar por baixo com água gelada, não fosse a erecção continuar firme e hirta.

    Na porta da sala, a situação não melhorava. Zé empurrava por um lado, a mamalhuda fazia força por outro. O vidro até rachou. Mas uma ideia genial surgiu: barrar as mamas da concorrente com meio quilo de planta para ela finalmente conseguir entrar na casa. E resultou. Ouviu-se um “pop” e a nova concorrente punha finalmente os pés dentro da casa mais vigiada de Aporue, com um suave perfume a margarina.

    - Sou a Ana! – disse, cansada – Aviso já que sou stripper e por isso sou uma mulher brava! Já passei por muito na vida. Mas não sou nenhuma coitadinha!

    - Uuuoo! – gritou Zé – És cá das minhas! Eu também tenho muito jeito com o varão.

    - Pois eu não faço shows de varão há mais de dois anos. Desde que pus dois litros em cada mama que me limito a fazer lapdances. Mas não tem sido fácil. Já mandei dois direitinhos pró Hospital.

    - És assim tão boa que os homens têm ataques de coração? – lançou Zé, todo entusiasmado.

    - Não. Sufoquei-os com as mamas – respondeu Ana prontamente.

    A correria de concorrentes não terminou ali. Ainda a conversa sobre tetas ia a meio e já um concorrente todo musculado entrava pelo jardim. Tinha tantos músculos que o vento pedia licença para passar entre ele. A roupa justa ao corpo rasgava-se a cada inspiração.

    Colocou a mão no puxador da porta e partiu-a em dois.

    Apertou a mão de Zé, que lançou um gritinho estridente tal não tinha sido a dor. Cumprimentou a Ana. Mas quando olhou para o Miguel, algo despertou em si. Uma inspiração mais forte que todas as outras rasgou-lhe a blusa decotada ao meio. Os seus olhos brilharam. O seu queixo caiu.

    - O.. lá… - disse, atrapalhado – Sou o João Diogo.

    Um fio de baba escorregava agora pelo seu lábio. Quando a saliva bateu no chão, fez um buraquinho. Raios partam o homem, era mesmo um bisonte.

    Miguel também partilhava da mesma sensação. Estava abismado com tamanha figura. Uma erecção formava-se agora. Mas desta vez, estava prevenido: Tinha a pila tesa colada com fita cola tesa junto às bordas do cú. Era impossível dar conta de qualquer excitação da sua parte.

    - Olá… - balbuciou – Sou…

    Cruzou imediatamente o olhar com Zé Miguel. Ali na casa, era o único que sabia que na verdade, ele era um homem. Zé piscou-lhe o olho. O segredo iria continuar guardado.

    - Sou a Suzette.

    Um novo concorrente quebrou o clima de romantismo entre Miguel e João. Entrou na sala e não cumprimentou ninguém. Escolheu uma cama no quarto dos machos e foi directo à cozinha, buscar qualquer coisa para comer. Voltou com uma banana na mão, e sentou-se junto ao concorrente mistério.

    - Olá? – disse Ana – Tás aqui tas a levar com uma mama no meio dos olhos. Detesto gente malcriada, fodasse. Caralho!

    - Sou o Rafael – disse o tal concorrente.

    Ficaram todos calados. Ninguém entendeu a atitude de Rafael. Porque razão se tinha sentado mesmo ao lado do concorrente mistério, mostrando uma grande familiaridade com ele? Nem sequer questionando quem ele era e qual o seu propósito dentro da casa?

    - Este já me enervou – disse Ana – Matava-o já.

    - Não podes – avisou Zé – Nas primeiras vinte e quatro horas ninguém pode matar ninguém. Mas após isso, miga…

    Agarrou Susana na cintura e fez uma pose à la Vogue.

    - Vamos matá-la juntas! – guinchou – Cegá-la com os nossos saltos Prada. Memu na retina.

    A excitação de Zé foi interrompida por mais um novo concorrente. A primeira loira da casa entrava agora pela tão famosa porta do jardim. Espalhafatosa. Acoçou a suvaqueira enquanto caminhava de pernas abertas até à sala. O cabelo oleoso, a maquilhagem exagerada e esborratada. As roupas a tresandar a tabaco. Parecia uma esfregona velha.

    - Haja saúde! – disse – Sou o Rui.

    Ninguém reagiu. A figura estranha daquele novo concorrente deixou todos de boca escancarada, à espera de uma explicação para tão triste figura.

    - Sou prostituta – revelou – Vivo disso. Lamber as papadas aos velhos nojentos que me encontram no meio da auto-estrada. Chupar prepúcios até me doerem os lábios. Saltar de cócoras em cima de cobras cuspideiras, fazer posições do tipo eu a fazer o pino e ele a afogar-me com o saco, dar o cú a camionistas machões. E por aí em diante.

    Passou a mão pelo cabelo emaranhado. Saltaram duas baratas e voou um morcego de lá.

    - Desculpem o meu estado. Acabei de dar uma cambalhota com um empresário japonês. Ele pediu que eu cantasse grandes êxitos da Dina enquanto lhe depilava as nádegas com Jonhsons Baby. Às vezes é difícil satisfazer certos fetiches.

    Aquela figura colossal voltou a não provocar qualquer reacção nos restantes concorrentes, a não ser um rosto estupefacto.

    - Um dia, um preto tresandando a catinga pediu-me para fazer o amor enquanto abocanhava uma lata de feijão frade. Ele disse que queria sentir na pele o que era dar uma pinada com uma mulher da tribo Surma. Fiquei um mês a besuntar-me com Dove.

    Foi impossível continuar a dar atenção à prostituta. Uma música poderosa começou a tocar na casa. Da porta do jardim apareceram duas raparigas. Gémeas. Verdadeiras! De microfone na mão prontas a cantar.

    Alexi e Alexa acabavam de entrar na casa mais famosa de Aporue.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jun 04 2017, 21:09

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    Glamour
    . Brilho. Glitter. Parecia o céu de reveillon.
    As gémeas Alexi e Alexa vinham vestidas da mesma forma. Um vestido prateado de lantejoulas decotado até ao umbigo. Saltos altos patinha de chocolate, o cabelo esticado, brilhante, maquilhagem à la drag queen, acessórios por tudo o que era lado, meias de renda, tatuagem provocadora no meio das mamas e microfone leopardo na mão, prenda da amiga Malhoa.

    Uma intro remixada de “I Will Survive” tocava aos altos berros pela Venda do Pessegueiro em Sunnyland.

    Choviam purpurinas. Confettis. Focos de luz de tudo o que era lado. Luz amarela, luz vermelha, luz azul, luz verde. Luz de burro quando foge.

    O instrumental acalmou. O piano começou a tocar. As vozes em uníssono soltaram-se.

    Era o fim do mundo.

    - Parece que o Tino de Rans acasalou com a Maria Leal e deu nisto – disse João Diogo – As paredes do meu buraco do cú conseguem produzir um som mais interessante quando me bufo.

    - Enfiar um cagalhão numa gaiola e esperar que ele cante é mais fácil do que ensinar estas duas a afinar – lançou Ana.

    - Tenho sangue a sair dos ouvidos? – perguntou Miguel.

    Os espelhos do jardim racharam. Viam-se carreirinhos de formigas a fugir, com pânico, com as patinhas a tapar os ouvidos. Os pássaros explodiram no ar. Uma barata no canto do jardim chorava, suplicando que parassem.

    - Migas, tenham calma! – disse Zé Miguel – Trouxe um par de tampax para cada uma. Ponham nos ouvidos e borrifem-se com água!

    Mas não foi preciso. A música nem sequer chegou a meio. A produção desligou os microfones e parou a melodia.

    - Então mas o que é isto? Ainda nem tinha cantado a minha parte a solo e já me desligaram o microfone? Mas tão a brincar comigo? Eu sou uma profissional! – gritou Alexi.

    O fim da música deu a entrada a um novo concorrente. Tão ou mais inchado de esteróides que João Diogo, com um corte de cabelo duvidoso e um estilo à lá maricona machona que deixava qualquer um com uma dor aguda atrás do globo ocular. Vinha cheio de tatuagens. Parecia a porcelana de uma retrete manchada após um esguicho de diarreia.

    - Olá pessoal! – disse, bem disposto – Sou o Sandro.

    Cumprimentou todos os concorrentes. Não se notou nenhuma característica diferente da sua parte. Era absolutamente normal, comum, ordinário. Um rapaz às direitas que vinha provavelmente fazer contraste com o bando de gente desiquilibrada que a produção tinha escolhido pôr na casa.

    - Então e o que fazes da vida? – perguntou a Ana – É que até agora é só prostitutas e strippers. Eleva o nível, p’lo amor de Deus.

    - Sou tatuador profissional. Faço-o desde adolescente – respondeu Sandro – E vocês?

    Ninguém se atreveu a responder.

    Mas Zé Miguel pôs imediatamente a sua estratégia a funcionar. Puxou Sandro pelo braço e encaminhou-o até ao Miguel, colocando-os frente a frente.

    - Esta é a Suzette! – disse Zé, apontando para a traveca Migelona – Ela é lindíssima, não achas? Olha-me praquele par de mamas! Parece que é Natal outra vez.. hm hm!

    Tal como o João Diogo, Sandro também adorou conhecer a traveca. Era incrível como dois homens tão machos se sentiam apaixonados por uma shemale, que debaixo das saias escondia um órgão enrolado tal qual farinheira e preso com fita cola às bordas do cú.

    Entre risinhos e conversas da treta, os três, João, Sandro e a Suzette Puttette, iam-se apaixonado cada vez mais. Mas aos poucos nascia uma rivalidade. A rivalidade que Zé pretendia provocar. João versus Sandro.

    A estratégia da bicha era simples: Fazer com que todos os homens da casa se apaixonassem por aquela mulher lindíssima e escultural, que até ao momento, só ele sabia se tratar de um homem. A partir dali, bastava deixar as coisas rolar por si próprias. Todos os apaixonados iriam disputar o coração da traveca, criando ódios entre si, e consequentemente, matando-se uns aos outros. O toque final também já estava pensado: Revelar ao amado sobrevivente que na realidade, a sua princesa, tem um chourição de colorau no lugar de uma bigorna de moldar pau. O macho machão não aguenta a desilusão, e mata a amostra de mulher, enojado. Com sorte, enrola uma corda ao pescoço e pendura-se na ventoinha da sala, envergonhado com a paixão proibida.

    Zé sentia-se um escritor de novelas. O novo Tozé Martinho. Mas era impossível manter um pensamento até ao fim dentro daquela casa.

    Uma música voltou a tocar. Mas desta vez era em espanhol.

    “El pintalabios, toque de rímel…”

    Uma bichona nível 20 entra pelo alçapão perto da piscina, com um vestido de sevilhanas e um leque em cada mão, a dançar freneticamente a sua música de entrada.

    "Moldeador como una artista de cine..."

    Vinha toda excitada na direcção dos concorrentes. Mas sempre a dançar.

    “Peluqueria, crema hidratante, y maquillaje que es belleza al instante…”

    Tentava fazer o playback da música mas não conseguia. A bicha suava de cansaço por todos os poros. Mas a cara de felicidade continuava lá estampada. E fazia movimentos com o leque. E toca de levantar a saia pra mostrar a liga.

    “Abre la puerta que nos vamos pa’ la calle…”

    Fez uma espargata. O pino. Uma roda. A bicha tava-se a cagar pra cantar a música e muito menos para dançar sevilhanas. Queria era dar show. Mas vinha agora o refrão. Parou por instantes. Fez uma pose. Parecia tar pronta a fotografar prá capa da Maria.

    “Que a quién le importa lo que digan por ahí.”

    Arrancou a saia e ficou só de tanga. Isto era pior do que ver a Linda Reis no HermanSic.

    “Antes muerta que sencilla”, cantava a bicha. “…ai que sencilla, ai que sencilla…”

    Tudo de boca aberta. A Ana até tapou os mamilos para não os sujeitar a tamanha visão do capeta.

    “Ai que sencilla, ai que sencilla…” - gritava a bichona latina. - Antes muerta que sencilla, ai que… ai que mierda! Que ya estoy aburrida! Estoy harto de bailar con tacones altos! Y no me gusta Maria Isabel. Me gustan más lás cucarachas!

    Parou de dançar e sentou-se no chão, deixando um colhão escorregar pela tanguinha vermelha. Parecia uma noz. Zé Miguel ficou deliciado.

    - Estoy mui cansadita! – disse - Me llamo Luís e soy de España! Olé!

    Zé correu para ajudar o novo concorrente a levantar-se no chão. Nem a poça enorme de suor à sua volta o enojou.

    - Vamos cariño. Te voy a dar banhito e esfreguiari com sabón. Con suerte yo voy deixiari cair ló sabón. A partir dê aí estás à lá bontádé!

    Pegou na bicha espanhola e levou-a pró duche. Apanhou em três sabões de glicerina e começou a fazer malabarismo com eles, tipo Cardinalli. Tava desejosa de ter que se agachar para os apanhar.

    Mas no jardim a acção continuou. Uma rapariga arruivada entrou pela porta do jardim ao queima roupa, e começou a caminhar apressada até à sala, a acenar com a mão empunhada no ar. Tinha os maiores olhos do universo. A cada piscadela, ventos de 200 km/h. Parecia um peixe espada gigante.

    - Olá!!! Olá a todoooos!! - gritou, efusiva.

    Mas nem deu tempo de chegar à sala. Mandou uma queda ao escorregar na poça de suor do Luís. Deu três mortais encarpados no ar e acabou estendida junto à piscina, toda desengonçada.

    Mesmo assim manteve o sorriso. Levantou-se entre “ais” e “uis” e “ai meu deus tá-me a doer os rins”, e voltou a caminhar, claro está, coxeando, até junto dos outros concorrentes.

    Mas bateu com a focinheira no telefone da voz. Puta que a pariu que era burra.

    Até tava a dar pena. As gémeas foram tentar ajudar a pobre coitada, que já estava toda rasgada e cheia de hematomas, com um dente a menos na boca e o nariz virado ao contrário.

    Mas foi merda atrás de merda. Escorregaram as três no orvalho e caíram em cima umas das outras.

    - Alguém que as vá ajudar, não? – disse a Ana.

    - E perder este espectáculo? – respondeu o Rui.

    A nova concorrente tava feita num oito. Mesmo assim, manteve a postura e lá se conseguiu levantar.

    - Olá amiguinhos, sou a Soraia! – disse, enquanto cumprimentava todos os concorrentes – Paz e amor. Paz e amor.

    - Então e o que fazes Soraia? – perguntou João Diogo.

    - Sou desempregada.

    - És desempregada ou estás desempregada? – lançou Rui – Eu posso não ser doutorado em letras mas sei dar à língua como ninguém! Erros de português são comigo.

    - Não, eu sou mesmo desempregada de profissão. Tenho horários e responsabilidades.

    - Horários e responsabilidades? – perguntou Ana – Mas tu estás desempregada, querida.

    - Não não. Eu sou desempregada de profissão. Costumo sair às 9 da manhã de casa, excepto aos sábados em que entro logo às 8. Depois tenho a minha hora de almoço das 13 às 14. Depois só volto a casa às 18h.

    - Mas afinal o que é que tu fazes? – perguntou Rui, enervado.

    - Então eu vou pela rua, toda triste, a chorar, porque estou desempregada. Às vezes costumo gritar “Ai meu Deus, que vai ser de mim! Não tenho dinheiro nem para mandar cantar um cego! Alguém que me dê um emprego! Ai ai que flagelo!” – contou Soraia. – Ou na maior parte das vezes não faço nada. Fico sentada num jardim à espera que a minha hora de expediente termine. Pior é quando chove. Mas trabalho é trabalho!

    Ninguém tinha nada para dizer. A profundeza da estupidez fez uma cratera no chão.
    Soraia caminhou para dentro da casa para se recompor dos vinte espalhanços que tinha dado.

    - Estou tão feliz por finalmente conseguir entrar nos Ídolos! – disse, entusiasmada.

    - Mas isto é a Casa dos Segredos, ó miúda – corrigiu Sandro.

    - Ah pois é! – disse Soraia, a rir – Desculpem, mas eu sou tão distraída!

    Já todos estavam dentro da casa. O Zé no banho com o Luís, as gémeas a ajudar a Soraia, o João a babar-se para a Suzette e o Sandro a fazer o mesmo, o Rafael a confraternizar silenciosamente com o concorrente mistério, a Ana a medir as mamas com uma fita métrica e o Rui a limpar o sarro das virilhas com papel de cozinha e Cif.

    Dois dos últimos três concorrentes entravam agora pela tão famosa porta do jardim. Vinham furiosos um com o outro.

    - Se tu pensas que chegas aqui e começas a fazer aquilo que fizeste em Casablanca com aqueles marroquinos, tas muito enganado! Tem cuidadinho meu menino! Olha que desta vez não me pegas chatos! – dizia um.

    - Aviso-te já que se encontrar aqui uma bicha com mais classe que tu, nem penso duas vezes. Ficas a trabalhar até às tantas, e eu em casa colada à tv a ver os gordos do Peso Pesado e a empaturrar-me de rissóis de leitão. Eu quero um homem que esteja sempre comigo e não me abandone! - dizia o outro.

    - Querias o quê, seu carapau de corrida? Recebemos um doente que tinha enfiado uma caixa de lápis de cera pelo rabo adentro! Tínhamos de agir rápido! – gritava o concorrente – Eu não conseguiria viver com o peso na consciência de deixar um pobre coitado cagar arco-íris para o resto da vida! Ao contrário de ti, cara de cu à paisana, eu sou uma pessoa com sentimentos.

    - Olha, sabes onde é que vais enfiar esses teus sentimentos??

    Chegaram à porta da sala.

    - No cu! – gritou o concorrente.

    Ficou tudo a olhar. Até o Zé e o Luís, que naquela altura já tinham gasto o stock de sabão.

    - O senhor está com uma dor no cu? – respondeu o outro concorrente, tentando remediar a situação. – Isso foi alguma bem dada, de certeza. É aplicar fenistil duas vezes ao dia. E não esquecer que a higiene diária é imprescindível! Eles aqui na casa não têm bidé mas pode de vez em quando fazer um “chap-chapzinho” ali nas escadas da piscina.

    - Olá a todos! – disse o outro concorrente – Sou o Nuno. Peço desculpa pela conversa tão embaraçosa.

    - E eu sou o João. Aqui dizem que tenho que ser o João Pê! Sou médico e estava simplesmente a dar um conselho íntimo ao concorrente que acabei agora mesmo de conhecer e com o qual não tenho qualquer tipo de conecção lá fora! Ehehehe!

    Riram em conjunto, atrapalhados.

    Na verdade, João P. e Nuno eram um casal verdadeiro. E era esse o segredo que tinham de esconder dos seus colegas.

    - Onze, Doze, treze.… faltam dois! – gritou Rui. – Onde andam os dois últimos concorrentes?

    Da porta do confessionário surgiu mais um habitante da Venda do Pessegueiro. Era alto, musculado, mas, até agora, o único homem sem nada a apontar a nível de consumo de esteróides ou de tendências travestis.

    - Olá! Sou o Diogo! – gritou, entusiasmado. – Só gente bonita! Ai que mamas tão lindas! Adoro essa saia! E esse conjunto faz pandam com os Loubotin!

    Começou a elogiar todos os concorrentes. Falando de todos os pormenores. Até os mais ridículos.

    - Pareces ser uma pessoa extremamente simpática! – disse Diogo, apontando para Rafael, que não se mexeu do seu lugar – Aposto que vamos ser as melhores amigas! E tu? Meu Deus, és lindíssima! Pareces pintada pelo Picasso! – dizia ele, enquanto se dirigia à Suzette Puttette.

    - O Picasso foi um cubista, miga. Dizeres que ele me pintou é a mesma coisa que dizeres que eu pareço um caderno quadriculado às cores.

    - Mas não interessa! És linda! Vamos ser amigas! Mas tem que ser forévér!

    Ninguém o dava aturado. A sua excessiva simpatia deixava todos com vontade de o matar. Mas a VOZ, pela primeira vez, fez-se ouvir, dando a indicação de que tal não seria possível nas primeiras 24 horas.

    - Esta é a VOZ. Bem-Vindos à Casa dos Segredos. É importante voltar a informar que ninguém pode matar ninguém durante as primeiras 24 horas na casa. Também já devem ter reparado que um dos concorrentes desta Casa está coberto da cabeça aos pés para esconder a sua identidade.

    - Não! Nem por isso! – gritou Zé.

    - Este concorrente não pode ser morto até ordem em contrário - acrescentou a VOZ.

    - Pronto, já temos favoritos! – gritou Ana.

    - Para primeira missão, terão todos que mergulhar na piscina com as roupas que têm no corpo, caso contrário passam a lavar-se apenas com sabão azul e branco e toalhitas de limpar rabo de bebé. Em três, dois, um…

    Correram todos para a piscina. Principalmente Zé Miguel, que não imaginava sequer a ideia de ter que banhar a sua pele de deusa em sabão azul e branco.

    Após cerca de um minuto na água, começaram todos a sair, recolhendo-se dentro da casa para se secarem e continuar a confraternizar. A missão estava cumprida.

    Mas foi Soraia a única que reparou no que estava a acontecer.

    - Migas! Está alguém a boiar dentro da nossa piscina! – gritou.

    João Diogo correu para o jardim.

    - Sua desclassificada, são as gémeas Alexi!

    Correu para as salvar, mas foi tarde demais.

    Alexi e Alexa saíram da água inconscientes, já com membros da produção dentro da casa a tentar reanimá-las. Foram transportadas para dentro dos bastidores.

    E o resto da noite passou sem notícias sobre o seu estado de saúde.
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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jun 04 2017, 21:12

    .

    Apesar de terem voltado à casa sã e salvas, as manas Alexi foram o assunto do dia.

    Foi difícil esquecer o momento em que as duas gémeas saíram da água inconscientes, como duas lulas congeladas, brancas como a cal e a um passo da morte. A terrível situação afetou todos. No entanto, as gémeas já estavam bem de saúde e prontas para o jogo, apesar de terem engolido litro e meio de água cada uma.

    Quem falou mais do assunto foi João Diogo. Como seria de esperar, vangloriou-se o tempo todo junto da Suzette Puttette aka Miguel aka Mulher com Pila, lembrando-a a cada cinco minutos do acto tão heróico que tinha feito. Ainda por cima, num jogo onde a morte dos outros é tão importante, a acção de Jota Dê, merecia, de facto, uma menção honrosa.

    E depois eu peguei na Alexa com o meu braço todo quitado de bíceps e pumba, fora d’água! – relatava João D. pela 3482 vez – A Alexi já foi mais complicado porque se cagou toda. Mas mesmo assim, eu consegui salvar a segunda gémea. Não é um cagalhão de 30 centímetros que me pára! Muito menos uma lombriga king size que mais parecia uma píton!

    Miguel revirava os olhos enquanto limava as unhas na poltrona junto à cozinha. Era difícil ser cortejado por duas machonas tão viris. Apesar de gostar da fruta, estava saturado de ter que enrolar a gaita em papel celofane a toda a hora, para proteger o seu segredo. Até já tinha uma micose no escroto que era obra.

    Quem também estava a encher os concorrentes com micose era Diogo. O lamber de cú continuava. Dia e noite. Até já tinha o céu da boca com uma plantação de pêlos púbicos.

    Na primeira noite na casa, andou por todas as camas a dar beijinhos de “boa noite” e a ajeitar as mantas de todos os concorrentes. Leu uma história a pedido da Soraia, que teve dificuldades em adormecer pois não conseguia entender o que era aquela coisa esquisita que tinha em cima da cama. “É um microfone, meu amor. Está tudo bem. Agora concentra-te que está quase a chegar a parte em que a Branca de Neve vai pinar com os sete anões”, dizia o Diogo. Preparou leitinho com bolachas para a Ana, pôs um saco de água quente nos pés do Sandro, arranjou um pequeno-almoço personalizado para cada um dos concorrentes, fez as camas e até os ajudou a esfregar as partes mais difíceis de alcançar durante o duche matinal, incluindo o calcário da suvaqueira do Nuno com Sonasol Verde. Depois, massajou os pés do Rui com óleo de amêndoas doces e arrancou-lhe os calos, ajudou as meninas a vestirem-se, abotoou a braguilha dos meninos, sacudiu a poeira dos ombros de todos, ajeitou as roupas, fez uma vénia e passou à fase dos elogios. “És uma pessoa maravilhosa”, dizia a um. “Gosto de ti infinitos mil!”, dizia a outro. “Se eu fosse homossexual, já te tinha saltado prá espinha!”, lançava a um dos meninos. “És, tipo, espectacular. A melhor pessoa que alguma vez conheci, sério!”, contava à maioria.

    - Deslarga-me! - gritava Rafael - Deves pensar que me enganas com esses elogios falsos. Queres é fazer amigos para que não te façam a folha! Deves pensar que ando a comer gelados com a testa!

    - Vamos ser amigas! - insistia o Diogo.

    - Amigas merda! Sai-me já da frente! Tás aqui tás a levar uma galheta!

    Junto à porta do jardim, Rui e Ana trocavam experiências. Nada ortodoxas.

    - Ainda hoje tenho um hematoma na zona do cóccix - dizia Rui - Tal não foi a força que aquele gajo aplicou na gaita. Ainda lhe perguntei se ele pensava que tava a jogar snooker na tasca do TiZé.

    - Então e com pretos? - lançava Ana.

    - Traumatizada! - gritou Rui - É assim que estou em relação aos pretos. Um dia, um preto das obras quis-me comer o rabo. Acreditas que senti o dito cujo a sair-me pela goela acima? O prepúcio a arranhar-me os molares! Coisa horrível!

    - Mas era assim tão grande? - perguntou Ana, surpreendida.

    - Parecia uma enguia atómica! O meu intestino ficou tão aberto que hoje em dia até canta o fado quando me bufo. Melhor que a Mariza! - contava Rui - Fiquei toda rasgada, melher. Parecia um figo podre. Jurei pra nunca mais.

    Já no quarto, o ambiente era romântico. Zé e Luís deitados na cama, a partilhar juras de amor numa língua esquisita. Uma fusão entre português, espanhol e bichês. Os lençóis cobertos de revistas Men’s Health com as páginas coladas, preservativos abertos e restinhos de sabão de glicerina vermelho. No ar, um cheiro a bacalhau que fazia lembrar a peixaria do Feira Nova.

    - Nos vamos para lo Caribe hacer el amor debajo de una palmerá e quando te estibieres a bir me gritas “ai zézito que estoy casi casi”, y yo pego en tu pilón e hago mobimientos circulares para me banhar en tus natillas. Después voy dicir: “soy una chica muy mala, lo mereci”.

    Luís estava pasmado a olhar a cara de excitação de Zé Miguel. Não entendia absolutamente nada do que ele dizia.

    - Yo no te entiendo – disse – Me recuerdas a mi abuela con Parkinson.

    - Quiero hacer bida en California. Posar en las rochas de las playas de tanguita amarilla, toda bronceada, casi casi pareciendo una cenoura. Quiero ir a Paris vecitar las putas de Moulin Rouge, hacer orgias com árabés musculados en los andaimes de las obras, experimientar vibradores topo de gama, e ver la Eurovision en la Dinamarca con mis migas de ló nesqué.

    Rui entrou no quarto naquele preciso momento. Tornava-se óbvio que Luís não entendia nada. Então a prostituta preparou-se logo para traduzir, dando finalmente uso à sua língua dotada de muitos conhecimentos.

    - Epá, resumidamente ele quer que tu lhe papes a peida com faca e garfo. Este gajo é fino – lançou prontamente. – Ou ao contrário. Não sei. Estas bichas esquisitas são difíceis de topar, mas a avaliar pela maneira como ele comeu o éclair hoje ao pequeno almoço, parece-me a mim que é das que gosta de umas boas cutucadas no colo do útero.

    Luís percebia melhor português do que a língua que Zé Miguel tinha inventado para falar com ele. Falou com Rui em espanhol e ele preparou-se logo para traduzir para Zé.

    - Ouve lá ó maricas, o espanhol quer sexo à bruta sim senhores.

    Zé Miguel bateu palminhas. Três ou quatro “iupi’s” e gritinhos estridentes de felicidade.

    - Mas ele diz que para a próxima tens que enfiar a mangueira do jardim pelo rabo adentro e meter meia dúzia de pastilhas de cloro no dito cujo. Parece que ontem, quando acabou o serviço, o pénis dele parecia a Whoopi Gooldberg.

    - Ai que horror! Mas porquê? – perguntou Zé, escandalizado.

    - Murcho, rugoso e castanho.

    Ficou tudo calado.

    - És uma porca tu. Eu lavo-me sempre por baixo quando entro ao serviço. Faço um enema com Calgonit e sais de banho e fico toda desinfectada.

    Já na divisão principal, o casal Nuno e João P. inundavam o ar com tensão.

    - Quando soltaste a franga também eras assim. Ninguém te segurava. Parecias uma cadela com o cio – murmurava Nuno para João P. – Agora nem com caixa e meia de viagra vais lá. Impotente de merda.

    O casal já nem sequer fazia esforço para esconder o seu segredo. Estavam os dois na sala, sentados de sofá, cada um no seu canto, a trocar insultos. A sua relação estava por um fio.

    - Fiz-te um bule de chá de Cabinda na noite de São Valentim e umas bolachinhas de manteiga com toque de piri-piri e o empurra bosta nem deu sinal. Tenho impressão que se vier uma baforada de vento mais forte, isso cai-te pelas pernas abaixo. Até o meu avô à Segunda-Feira tem mais pujança que tu.

    - Olha tu tá calada. Tás-me a dar nerves – disse João P. – Tou aqui a fazer uma força pra…

    - Uma força para quê? Para te cagares? – interrompeu Nuno - Nem isso fazes. Quando quero acção dizes sempre que tás cheia. Que comeste picanha ao jantar e que é melhor não arriscar. Eu não nasci ontem, mister pila murcha.

    - É só nisso que pensas? Todos os dias, a toda a hora? E carinho? E amor? E cumplicidade? – contra-atacou João – E momentos de partilha extrema de sentimentos profundos e tocantes?

    - Epá, és mesmo maricas! Uma pessoa aqui a falar das suas necessidades e tu lanças logo a temática do amor e do carinho. Arranja um par de colhões e faz-te homem!

    No jardim, estava Soraia, sozinha e chorosa.

    - Quase perdi a minha fonte de inspiração. Estou traumatizada - dizia - As manas Alexi são tudo para mim. A maneira como me ajudaram a levantar quando me espalhei ao comprido na minha entrada. As suas vozes cristalinas que me deixam tonta de tão boas que são.

    Fungava, dorida, toda afectada.

    - Pelo menos perdi a concorrência mais forte aqui nos Ídolos. As pobres ficaram constipadas. Assim creio que tenho hipóteses de ganhar! – dizia, num momento de felicidade repentina – Vou começar a espalhar paz e amor para angariar votos!

    Mas como é a VOZ que mais ordena, Soraia e os restantes concorrentes tiveram que se reunir de imediato na sala.

    “A primeira cadeira quente da Casa da Fome está prestes a começar”, ouviu-se em alto e bom som dentro da mansão da Venda do Pessegueiro.

    Não foi difícil juntar todos na sala, à excepção de Zé Miguel, que ainda estava no chuveiro a fazer o vigésimo terceiro clister de água destilada.

    - Eu prometo que vai sobrar para pôr no ferro de engomar! – gritava para a sala – Vou já migas, vou já!

    Quando todos se reuniram na sala, a VOZ fez-se ouvir novamente, imponente, poderosa, assustadora. Ninguém a ousava desrespeitar.

    “Já passaram quase vinte e quatro horas desde que entraram na casa mais famosa de Aporue. Está então, prestes a começar o jogo. Quando a sirene dos segredos tocar, qualquer um pode matar e ser morto. Após isso, os vossos actos ganham consequências inimagináveis.”

    Apesar das regras do jogo estarem bem claras, nenhum dos concorrentes parecia estar pronto a atirar a primeira pedra. Pareciam querer conhecer-se melhor, para depois decidir a quem dar a facada nas costas.

    “Mas antes disso, vou-vos dar uma oportunidade de dizerem o que pensam uns dos outros. Uma oportunidade para serem sinceros. Comecemos pela Ana” - finalizou a VOZ.

    Este momento era fulcral. Uma palavra mais torta poderia ditar a morte de um concorrente. Estaria alguém disposto a falar mal de outro, sabendo que dali a minutos poderia acabar com o pescoço torcido? Teria alguém a coragem de ser sincero ao ponto de arriscar a sua própria vida?

    Parece que sim.

    - Rafael, és um merdas – lançou Ana – João D, acho que se eu assoprar na tua orelha, tu és capaz de explodir. Comes esteróides à colher e isso mete-me nojo. Suzette Puttette, tenho inveja de ti, portanto tem cuidado comigo. Nuno, tem mais respeito pelos outros e passa a usar dois pares de meias todas as noites. Ninguém aguenta o fedor a chulé. Zé, se eu oiço mais essa língua esquisita que insistes em falar, enfio-te com um mamilo memu no meio dos olhos. João P, nota-se a léguas que és uma PAM.

    - Uma PAM? – perguntou João P.

    - Passiva Até à Morte – respondeu Ana – Soraia, pareces um camaleão. Rui, adoro-te, és fantástico. Sandro, não me lembro de ti, desculpa. Diogo, já paravas de dar graxa, se faz favor.

    Ficou tudo de boca aberta. Era evidente que Ana não tinha medo de dizer aquilo que pensava. Sentou-se, decidida. Era agora a vez de Rui.

    - Realmente, bicharada é pouco para adjectivar esta gente pobre de espírito – começou por dizer – A começar pelo Luís, que no banho pediu-me para lhe desempessar os caracóis da pentelheira. Eu tenho aspecto de quem sabe alisar pêlos púbicos? E o Sandro? Gajo esquisito!

    Apontou para ele.

    - Ainda nem tinham passado duas horas de estares na casa e já estavas a afiar as facas. Vais morrer é de pneumobichice. A doença das bichas constipadas. Fecha as janelas, não vá vir uma corrente de ar, querida.

    Sentou-se, todo enervado. Nem quis falar de mais ninguém. Tornava-se óbvio que naquela casa ninguém tinha medo de criar ódios de estimação.

    Era agora a vez do Diogo.

    - Eu gosto de todos! – gritou, entusiasmado – Ana, adoro as tuas mamas. Apetece deitar nelas. És uma querida. Rui, também te acho uma brasa. Ai migas, vocês são lindas!

    Rafael voltou a não achar piada aos constantes elogios de Diogo. Apesar de discreto, este concorrente parecia ferver em pouca água. Contorcia-se no sofá. Suava de raiva.

    - Nuno, acho que tens uma personalidade bestial! João P., és uma pessoa super inteligente! João D., acho que os esteróides não te fazem mal nenhum, és fantástico! Suzette, és a pessoa mais linda que alguma vez vi em toda a minha vida! Zé, tipo, adoro-te! És um amigo para a vida.

    Ninguém estava a gostar. Era notório que o discurso de Diogo era forçado. Mas era Rafael quem mais se estava a enervar.

    - Soraia, querida, adorei contar-te a história da Branca de Neve, és absolutamente magnífica! – dizia, sorridente - Então e quando pensaste que a bruxa má era a Fafá de Belém disfarçada de velha? Ri-me imenso contigo!

    E a sirene tocou. Pára tudo.

    Todos estremeceram. Diogo calou-se. Ficou petrificado, com receio de não ter elogiado o suficiente para escapar à morte. Ana continuou na mesma posição. Estava-se simplesmente a cagar. Rui igualmente. Os restantes concorrentes petrificaram no lugar, à espera da primeira investida. Mas ninguém se mexeu. Nem mesmo o concorrente mistério. Ninguém se atreveu a ser o primeiro a matar.

    Com a voz a tremer, Diogo continuou a falar.

    - Rafael, ainda não tive oportunidade de te dizer a pessoa estupenda que és!

    Mas Rafael não esteve com meias medidas. Apanhou o cinzeiro que tinha ao seu lado e atirou-o à testa de Diogo, que caiu no chão, a chorar. Um fio de sangue escorria pela sua cara, e o concorrente, a gemer de dores, fugiu para o quarto azul.

    A partir daí foi a revolução. Todos os concorrentes fugiram, cada um para o seu lado.

    - Epá, tava farto. Não aguentava nem mais um minuto com aquele gajo aqui em casa. Ele que vá sangrar até à morte. Mas que fique calado! – gritou Rafael - E que se mantenha longe da minha colecção de capelines que me custou muito a fazer. Não as quero manchadas com plasma.

    Soraia foi a correr ajudar Diogo.

    - Tem calma miga, meia dúzia de pontos e isso fica bom – disse-lhe – Nunca imaginei que aqui na Operação Triunfo as pessoas fossem tão cruéis. Tudo bem que é óptimo ganhar dez mil euros, a edição de um cd e um dueto com a Ti Maria da Peida, mas não é preciso mandar cinzeiros à cabeça das pessoas. Paz e amor acima de tudo!

    Diogo cambaleava dentro do quarto. Perdia a pouco e pouco as suas forças.

    João D. também o foi ajudar, pedindo socorro à produção.

    - Epá, já andei a vasculhar na casa de banho e nem uma embalagem de betadine temos! Cockrings há com fartura! - gritou, revoltado - Este gajo precisa de um médico! Nunca vi tanto sangue! Nem quando rompi o ímen a uma sueca no Verão passado!

    Mas não havia piedade. Diogo estava cada vez mais fraco. O sangue não parava de escorrer pelo seu rosto. A pele a ficar branca, o corpo a esfriar.

    - Querem que eu vá buscar o meu kit de costura? – perguntou Zé Miguel – Eu trouxe-o porque às vezes dá jeito cozer um botão ou fazer uma bainha, sei lá!

    Todos os concorrentes perderam o medo uns dos outros e reuniram-se no quarto. Todos menos Rafael e o Concorrente Mistério, que continuaram sentados na sala, como se nada tivesse acontecido.

    - Aperta-lhe a ferida! - gritava um.

    - Manda-lhe uma pantufada na nuca! – gritava outro – Assim ele desmaia e podemos cozê-lo!

    - Posso fazer respiração boca a boca? – perguntava Zé.

    - Ele tá a falecer! Façam alguma coisa! – gritava Ana.

    Mas não havia mais nada a fazer. Diogo perdeu os sentidos, caindo nos braços de Soraia. Estava morto. E o obituário da Casa da Fome estreava com o seu nome.

    O jogo tinha começado.


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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Ter Jun 06 2017, 23:07

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    - Parece um cruzamento entre um boneco da Michellin depressivo e um caramelo de pinhão de Badajoz. Coisa horrorosa – dizia Zé Miguel.

    - E o pedaço de unhas dos pés? Era pô-lo a acasalar com a águia Vitória – disse Rui – Ele que se trate. Nem eu nas semanas em que fico sem tomar banho tenho um aspecto tão nojento. Já reparaste no tufo de pêlo a brotar da tanga? Parece o Marco Paulo dos anos oitenta!

    - Aposto a minha pochette da Louis Vuitton que não depila o buraco do cú. Eu tudo o que toco tem que estar a máquina zero. Apanhei um trauma com um ex-namorado meu, um gajo de Ermesinde, tás’a’ver? Fui-lhe fazer um botão de rosa com a velocidade máxima da minha língua, parecia eu uma escova de dentes eléctrica! – disse Zé, a rir – Gastei o stock de palitos naquela noite para tirar os cabelos enrolados nos dentes. E as bolas de pêlo que vomitei? Parecia a gata da minha tia Alice.

    - O que é que custa passar uma gillette de vez em quando? – perguntou Rui, indignado – E se uma pessoa não tem flexibilidade para isso, é besuntar com meia dúzia de pastilhas de Soda Cáustica e tudo o que é pêlo cai no instante a seguir. Também é capaz de te cair um bife pelas pernas abaixo, mas não é nada que umas compressas com água oxigenada não curem.

    Zé Miguel, Rui e Luís estavam deitados na cama do quarto das bichas, a olhar para o duche da casa de banho, criticando todos os concorrentes que por ali passavam para a sua higiene diária.

    - Olha, é a vez da Ana! – gritou Rui.

    Ana entrou no duche. Metade dos mamilos de fora, o rabo com o triplo do silicone das mamas, as costuras do bikini a ceder.

    - Olha-me praquilo Zé – disse Rui – Parece que enfiou as mamas numa colmeia. E aquele rabo?

    - Às vezes fico com o meu assim inchadinho, mas é só quando faço gangbangs com actores pornográficos afro-americanos – contou Zé.

    Luís olhou Zé Miguel com cara de repulsa.

    - Coisa que só aconteceu uma vez! – acrescentou Zé, atrapalhado – Juro!

    - Aposto que ela é adepta do slogan “Viva com mais alegria, beba leite todo o dia” – disse Rui - Aquela boca inflamada nos cantos não engana ninguém, muito menos a mim que tenho que me esfregar com baton de cieiro todas as noites tal não é a brutidade dos meus clientes.

    - Olhem migas, o João está a tomar banho só de sunga! – gritou Zé – Parece que estou a ter um fléshi béqui!

    Ajeitaram-se os três na cama para ver o corpo todo quitado de João Diogo.

    - Aquele rapaz tem tanto esteróide na veia que os macacos do nariz se transformaram em gorilas musculados. Os espirros dele são prejudiciais à camada do ozono! Ele caga merda viva! – gritava Rui, escandalizado - Ainda no outro dia cruzei-me com um cagalhão dele à entrada da cozinha. Parecia uma broa castelar com pernas.

    - Mulher, pára tudo! – disse Zé – As manas Alexi vão tomar banho.

    - Mas aquilo são mamas ou um pedaço de fiambre de peru estragado?

    - Alguém me explica porque é que a Alexa não tem umbigo? – perguntou Zé.

    - Que és brujeria!! – disse Luís – El diablo!

    Zé agarrou Luís pelo pescoço e lambuzou-o de cima abaixo com um linguadão, upa upa, puxadote.

    - Yo pensiava que ya estabas muerto, my amor! – disse Zé – Estas tan caladito! Ya te há passado lá dor dé garganta despues de la noche de lo outro dia?

    Luís falou com Rui. Rui preparou-se para traduzir.

    - A bicha espanhola manda dizer que o teu sémen é mais irritante que lixívia da NeoBlanc, e que tem passado as últimas horas a gargarejar Listerine para ver se lhe sai o sabor a alho que tem na boca desde o outro dia.

    - Perdón my amor, yo apenas queria experimientiari una nueva sensacion, nunca tive intencíon de te magoaré.

    Luís voltou a falar com Rui num espanhol fluente. Rui voltou a traduzir para Zé.

    - Ele disse para ires buscar um spray com cheiro a pinho porque tá um smelzinho a borracha queimada no ar, querida, vou-te contar.

    - Tal não foi a força da nossa pinada ontem à noite! Uoooouu!! – gritou Zé.

    Luís revirou os olhos. Na verdade, estava cansado de Zé e do amor platónico que tinha por ele. Sentia-se saturado de tanta bichice, de tanto espanhol falsificado, de tanta conversa fútil. Mas apesar da overdose de mariquice, Zé era um aliado que não queria perder.

    A primeira semana na Casa não trouxe nada de novo ao jogo. Após a morte de Diogo, continuou tudo na mesma. Nem mesmo após a acção de Rafael, que, cansado de tanto elogio falso, atirou um cinzeiro da colecção Rita Maria Amaral à testa do cronista, os outros concorrentes ficaram receosos de ser mortos. Para eles, o jogo da Casa da Fome ainda não tinha começado, e ninguém estava interessado em matar ou ser morto.

    O triângulo amoroso continuava a ser isso mesmo: Um verdadeiro triângulo. João D. e Sandro a disputar a atenção de Suzzette Puttette, que ainda julgavam ser uma mulher bonita e escultural. Para Miguel, era cada vez mais difícil esconder o pénis. Mas Zé Miguel ensinou-lhe uma táctica quase infalível, que havia aprendido nos seus shows.

    - Quando eu fazia playbacks da Whitney Houston nas noites loucas do Trumps, agrafava a pele dos tomates às bordas do cú, e colava a ponta da gaita com dois rolos de fita cola. Era tiro e queda. Nunca ninguém descobriu que Zazá Postranova era na verdade Zé Miguel.

    Soraia e as gémeas Alexi e Alexa continuavam muito próximas, e até já tinham em mente a gravação de um cd em conjunto, todo ele constituído por hits do Nésque e grandes êxitos de Ana Malhoa.

    - A capa do cd podia ser uma garrafa de azeite Galo – sugeriu Alexa – Qéq acham?

    Mas Soraia não tirava os olhos gigantes de Alexi e Alexa. Até conseguia virá-los em direcções opostas e olhá-las ao mesmo tempo, tal qual Camaleão.

    - Tou pasmada! – exclamou – É a primeira vez que reparo que vocês são incrivelmente parecidas! De certeza que não são primas afastadas ou qualquer coisa assim?

    Zé, Luís, Rui e Ana começavam a formar um grupo, quase inconscientemente. Os dotes de tradutor de Rui acabaram por o aproximar do casal maravilha da Casa da Fome, Ana foi de rojo atrás da puta amiga.

    João P. e Nuno continuavam na mesma. Já todos sabiam que eram um casal, mas nem assim decidiram aproximar-se. Passavam o dia todo sentados no sofá, cada um na sua ponta, a trocar insultos do género: “Fingi mais orgasmos contigo do que uma preta da Somália a quem lhe cortaram o clítoris!”, ou “Vou contar a todos que tens o fetiche de ser comida de quatro pelo elenco dos Power Rangers!”

    Rafael e o Concorrente Mistério sempre isolados do grupo, todo o dia a olhar as paredes, juntos no sofá, sem falar com quem quer que seja.

    E a Casa com as mesmas condições e sem qualquer alteração. O jogo, afinal, estava longe de começar.

    - Esta é a VOZ.

    Depois de uma tarde pacata, eis que a VOZ se faz ouvir.

    - Para comemorar a vossa primeira semana na Casa da Fome, a VOZ decidiu presentear-vos com uma festa. Dirijam-se à antecâmara do Confessionário, onde estará à vossa espera um carrinho com várias bebidas para prepararem os vossos cocktails. Divirtam-se. É tudo, por agora.

    Todos gritaram, entusiasmados. João saltou para cima do sofá e fez uma dança esquisita. Ana seguiu o exemplo. O trio amoroso sorriu em conjunto. As manas Alexi foram a correr preparar os microfones. Queriam cantar durante a festa. Luís foi enrolar-se em plumas e polvilhar-se com brilhantes. Queria dançar durante a festa. Rafael e o Concorrente Mistério não saíram do lugar.

    - Não me tou a sentir lá muito bem – disse Zé – Uma dor aqui esquisita na barriga. Será que foi do Cozido à Portuguesa do almoço?

    Jogou a mão à barriga e apertou-a.

    - Ai! – gritou – Tive uma contracção. Vou parir, tá visto.

    Sentou-se para tentar acalmar a cólica intestinal que o atacava naquele momento. Contorceu-se no sofá. As dores iam e vinham. Nunca antes tinha sentido uma coisa tão esquisita.

    Outra contracção. Desta vez mais forte. Zé até sentiu a pontinha do cagalhão a fazer-lhe cócegas no cólon. Estava certo de que a sua gravidez fecal estava a chegar ao fim e que não tardava muito para se borrar todo na Casa da Fome.

    Mas a casa de banho estava ocupada por Soraia, que gritava lá dentro à procura do puxador da porta.

    Tentou acalmar-se. Afinal de contas, bicha que é bicha aguenta qualquer desconforto intestinal, nem que para isso tenha que pôr o cocó para dentro com a ponta molhada de um cotonete.

    Mas as coisas pioraram. Desta vez, sentiu o cagalhão a beliscar-lhe as cuecas.

    - Ai Meu Deus que me cago todo! – exclamou.

    Correu para a casa de banho e tentou ajudar Soraia a sair de lá de dentro. A porta só podia ser destrancada do lado onde Soraia estava. Mas sem sucesso. A ruiva continuava em pânico à procura de uma solução para escapar cá para fora, feita parva a puxar a maçaneta da porta sem antes rodar a chave para a destrancar.

    Zé Miguel fez um esforço hérculeo para tentar manter o cocó preso às paredes do seu intestino, mas sem sucesso. Só se sentia o dito cujo a bater à porta do recto. Parecia até que tinha ganho vida e que estava agora com um berbequim empunhado na mão para tentar ver a luz do sol a todo o custo.

    E lá andava ele pela casa de banho, rezando a todos os santos, suplicando para não se cagar pernas abaixo. Mas qual quê… a merda não desistia. Decidiu então dar um peidinho. Que mal tinha? Uma singela bufa só para aliviar um pouco a cólica e o deixar mais descansado por alguns minutos.

    Mas foi a pior decisão de sempre.

    A bufa trouxe consigo uma merda líquida que lhe queimou a abertura do cú e o deixou ainda mais aflito.

    - Ai Meu Deus ajudem-me! – gritava em pânico.

    Do outro lado da porta, a situação também era terrível.

    - Tirem-me daqui! – gritava Soraia – Opá! É a primeira vez que fico presa num elevador!

    Zé puxava a porta com cinquenta por cento da sua força. Os outros cinquenta por cento eram utilizados para batalhar contra o bloco de merda que continuava a fazer beicinho para sair. Não tardava muito, desfazia-se em porcaria.

    Até que Rui chega. Pasmado com a situação, questiona Zé Miguel sobre a sua cara encarnada. Ao dar conta do que está a acontecer, segura a mão do seu amigo para o ajudar a ultrapassar as dores do parto que naquele momento sentia.

    - Respira, respira… - dizia Rui – Vá, agora faz força pra dentro.

    Mas o cagalhão não hasteava a bandeira branca. E trouxe companhia consigo: Um líquido efervescente e abrasador que fez Zé saltar de dor e de pânico. Parecia que o saco amniótico tinha cedido.

    - Ai! Rebentaram-me as águas! – gritou.

    Rui continuava a ajudá-lo. Mas a situação só parecia piorar: Soraia desistiu de abrir a porta e sentou-se na retrete a chorar, fazendo inveja a Zé que naquele momento dava a vida pra sentar o rabo na porcelana.

    Zé já tinha a cara preta da luta de titãs que travava naquele momento com o cocó atómico. Cruzava as pernas. Contorcia-se todo. Segurava a mão na cabeça a fazia rezas. Mas nada lhe acalmava o regabofe que se fazia sentir na sua barriga. E a merda musculada sem dar tréguas.

    E outra cólica. E mais dez contracções. Até que…

    - Olha, caguei-me – disse Zé.

    Sentiu uma almofadinha de merda entre a tanga e o traseiro. E a pasta de bosta a pingar pelas pernas abaixo. Encolheu-se todo para evitar mais estragos, até que finalmente a porta da casa de banho abriu, e finalmente o estilista conseguiu dar à luz o feto mal cheiroso com o qual se tinha debatido nos últimos minutos.

    - Espero que não estejas assim por causa do sal que pus no teu prato hoje ao almoço! – gritou Soraia para dentro da casa de banho.

    - Sal? – gritou Zé – Não há sal cá em casa! O João D. acabou ontem com o stock! Teve a fazer uns batidos nojentos cheios de esteróides e embutiu-os de sal até acima!

    - Ai não me digas! – exclamou Soraia, inocente. – Então que caixinha era aquela no armário da cozinha, assim em tons de azul e com um nome muito esquisito.

    - Era laxante sua mosca varejeira! – gritou Zé – Tou aqui a cagar-me todo por tua causa! Nem uma cisterna vai conseguir limpar isto! Já vou na décima descarga de autoclismo!

    - Opah! Oh Zé! – gritava Soraia – Desculpa, tá! Eu também pus no meu prato, não sabia! Por isso é que há bocado me borrei toda aí dentro! Pensei que finalmente ia ter a minha primeira menstruação mas afinal não! Sou mesmo tonta!

    Lá fora, no jardim, a festa já tinha começado. A produção disponibilizou vários tipos de bebida para os concorrentes se enfrascarem e protagonizarem momentos ridículos. João correu para o Vodka. Ana agarrou-se ao Whisky. Os restantes contentavam-se com um par de Sagres em cada mão e uns shots de Tequila de vez em quando.

    Bastou meia hora para ficarem todos podres de bêbedos.

    João Diogo foi o primeiro a chegar ao estado de extrema bebedeira: Destapou o rabo e começou a mostrá-lo para as câmaras.

    - Olha-me só para a categoria destas brebas! – dizia – Lá em casa nem é preciso descascador de nozes! Isto faz tudo! Tudo!

    E mais um gole de Vodka.

    Ana perdeu-se com o Whisky. Estava neste momento a falar com as mamas.

    - Vocês vejam lá se param de engordar que qualquer dia tenho que ser operada às costas – dizia para as mamas, zangada – Suas putas! Gordas! Ai que triste que estou. Ai.

    E começou a chorar perdida da vida, sem qualquer razão aparente para tal.

    Alexi e Alexa ainda tentaram cantar, mas passaram o resto da noite a vomitar o jantar no jacuzzi. Nuno e João P. é que sucumbiram às saudades que o álcool desmascarou e começaram a pinar num canto do jardim, numa espreguiçadeira.

    Sandro aproveitou a loucura de João D. e declarou-se centenas de vezes a Miguel, que naquela altura já nem tinha a pila segurada e mostrava a maior erecção de todos os tempos. Mas com a bebedeira que todos tinham, ninguém reparou.

    Até Rafa se embebedou sozinho junto às poltronas do Alpendre, cantando músicas do António Variações aleatoriamente e grandes sucessos dos anos 60 da Eurovisão.

    Só Soraia é que não bebeu.

    - Uma vez, em casa, enganei-me e fiz um shot de Fairy a pensar que era absinto. Fiquei no hospital durante duas semanas – disse, antes da festa – Vou ficar aqui num canto a espalhar paz e amor, divirtam-se sem mim!

    Só quando a meia-noite bateu, é que Zé Miguel saiu da casa de banho, vinte quilos mais magro. Vinha branco como a cal, fraco, cansado. Tinha acabado de cagar tudo o que tinha dentro de si, e parecia que nem assim estava satisfeito.

    Precisava urgentemente de alguma coisa para comer, ou ia acabar falecendo ali mesmo. Bêbados como os outros todos estavam, ninguém o iria socorrer.

    Quando chegou à cozinha, deparou-se com uma pequena mesa com rodinhas, onde estavam vários cocktails de todas as cores. Amarelo, azul, verde, vermelho, preto, branco. Como Zé Miguel adorava arco-íris, correu para ver do que se tratava.

    Em cima dos cocktails, um envelope. Dentro do envelope, um papel com uma mensagem bem simples e directa: “O cocktail vermelho está envenenado. Não desperdices a oportunidade”.

    Melhor impossível.

    Zé Miguel tinha ali a grande chance de se poder ver livre de um dos seus concorrentes directos, de uma forma limpa e eficaz, matando-o sem deixar qualquer rasto. Bastava esconder a mensagem, servir os cocktails e esperar pelo resultado. Alguém, escolhido a dedo, iria acabar estendido no jardim, deixando-o mais perto de vencer o jogo.

    Começou imediatamente a escolher quem seria a sua vítima.

    O Luís estava fora de questão. Assim como Rui e Ana, que faziam agora parte do seu grupo e que lhe poderiam ser bastante úteis no futuro. João D., Sandro e Miguel já tinham um plano preparado e por agora não era necessário aniquilá-los. O Concorrente Mistério não poderia ser tocado, as gémeas não iam aceitar qualquer outra bebida por estarem maldispostas, João P. e Nuno estavam ocupados com o coito. Sobrava Rafael e Soraia.

    - Vou-me vingar – murmurou Zé – Ninguém me faz passar por uma caganeira destas e sai impune. A Soraia vai morrer hoje. Aqui e agora.

    E seguiu decidido para o jardim, segurando na mão direita o cocktail vermelho envenenado. Estava pronto a matar Soraia. Nem sequer piscava os olhos. A sede de vingança era mais importante que qualquer outra coisa naquele momento.

    Aproximou-se da ruiva e ofereceu-lhe imediatamente o cocktail.

    - Toma amiga! – disse, num tom falso – Bebe! Faz bem à saúde!

    - Eu não posso beber álcool! – disse Soraia – Mas obrigada!

    Zé ficou atrapalhado. Mas reverteu a situação.

    - Esta bebida não tem álcool! – disse, seguro – Juro!

    - Hum, então tá bom.

    Soraia agarrou no copo e cheirou-o. Preparou-se para o beber. Aproximou o copo dos lábios.

    - Ai! – gritou – Sou alérgica a frutos vermelhos! Não posso beber isto!

    Entregou o copo a Zé. Ele começou a ficar irritado.

    - Miga, isto é de framboesa! – insistiu – Juro!

    - Ah, então pode ser! – disse Soraia, a sorrir – Frutos vermelhos é que não!

    Voltou a apanhar o copo. E a chegá-lo perto dos seus lábios. E prontíssima a bebê-lo.

    - Isto tem gás? – perguntou – É que bebidas com gás deixam-me com soltura!

    Zé Miguel suava em bicas, a raiva a explodir-lhe nos olhos.

    - Não tem gás não miga! – insistiu novamente – Juro!

    Ela sorriu e voltou a colocar o copo junto aos lábios. Estava quase a bebê-lo. A milésimos de segundo de colocar todo aquele líquido dentro da sua boca.

    - Ai estou um bocadinho enjoada – disse – Deve ser do laxante. Se calhar se beber isto é capaz de me fazer mal. Não achas?

    Zé Miguel tinha novamente a cara encarnada. Desta vez de ódio.

    - Vou oferecê-lo a alguém – disse Soraia.

    Soraia deu o copo a Rafael que continuava perdido entre “Muda de Vida” e “Maria Albertina”. Ele passou o copo a João D. que quase o deixou cair. Pousou-o junto a todos os outros copos e voltou a fazer a dança do culito culito, que tinha aprendido a ver Shin Shan.

    A partir daí, Zé perdeu o rasto da bebida envenenada. Mais de metade dos outros cocktails eram vermelhos. Era agora impossível saber qual deles era o mortífero.

    João P. e Nuno voltaram da experiência anal e pegaram cada um uma bebida. As duas vermelhas. Brindaram em conjunto e beberam.

    Passaram segundos. Minutos. Mas nada aconteceu. Não tinham bebido o cocktail envenenado.

    Seguiu-se Rui, que já quase nu, apanhou dois copos com bebida encarnada e foi oferecer às gémeas, que entretanto já estavam prontas para mais uma.

    E as duas beberam o shot sem hesitar.

    Mas nada aconteceu.

    Até que Luís sugere um brinde. Um brinde a qualquer coisa espanhola que ninguém entendeu o que era mas que provavelmente tinha a ver com castanholas e paella. Mas o que interessa? Brinde é brinde. Foram todos pegar uma bebida. Bebida vermelha para todos. Zé foi chamado para o brinde mas escolheu o único shot azul que estava na pedra junto à piscina. Esperta.

    Brindaram em conjunto. Gritaram e festejaram em conjunto.

    Não sobrava nenhum cocktail. Nenhuma bebida. O cocktail envenenado estava nas mãos de alguém. Alguém que estava prestes a morrer.

    E depois dos festejos, levaram todos o copo à boca.

    Aqueles foram os segundos mais aterrorizantes que Zé Miguel alguma vez viveu. Os momentos de maior suspense de toda a sua vida. Quem iria ser alvo da sua acção tão macabra? Quem iria ser a segunda pessoa a sucumbir ao jogo sangrento da Casa da Fome?

    Até que aconteceu.

    A Venda do Pessegueiro estremeceu. Ana começou a gritar. A gritar de dor. A agarrar a garganta arranhada pelo veneno que a estava a corroer por dentro. Ajoelhou-se. Perdeu as forças, os sentidos...

    O bater do coração.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Qua Jun 07 2017, 21:55

    .

    Os corpos dos dois primeiros a morrer continuavam na casa mais famosa de Aporue.

    Acabaram por arranjar uma utilidade para cada um deles. Começaram por usar o cadáver de Diogo para plantar feijão verde, já que os vegetais começavam a escassear dentro da casa e a plantação de cenouras no jardim tinha sido misteriosamente atacada por Zé Miguel.

    - Isto é fácil, migas - dizia Zé. - É só metê-lo de cú pra cima, enfiar uma cana d’açucar pelo recto abaixo, meter dois quilos de terra e regar. Aposto as minhas socas Prada que daqui a meia dúzia de dias já brota aí qualquer coisa. Nem que seja por causa do estrume, que sempre ouvi dizer que é um fertilizante espetacular.

    Já Ana, toda roxa do veneno, com os olhos saídos das órbitas e com cara de “Ai, parece que faleci mesmo, fodasse”, foi usada como instrumento de aprendizagem para Soraia, que decidiu aprender a nadar na piscina da Casa. Rafa cortou as mamas de Ana com o x-acto e enrolou-as aos braços da ruiva, que as usava como braçadeiras.

    - Se calhar é melhor assoprar um bocadinho mais aqui no pipo! - gritava Soraia, quase a afogar-se - É que a braçadeira do meu braço direito tá a ficar vazia!

    E lá assoprava ela no mamilo de Ana, desesperada.

    Numa das espreguiçadeiras junto à piscina, estavam João e Suzette Putette.

    - Eu prometo levar-te ao céu – dizia João Diogo para Miguel – É só dar uma bufinha e descolamos tal qual foguetão. Já sabes que tudo em mim é exagerado. Eu levanto elefantes com o dedo mindinho e puxo comboios com a ponta da gaita. Eu faço coisas que só pessoal com umas snifadas de Paulo Otávio é que fazem.

    Abraçou-o delicadamente. Mas bastou encostar os seus braços aos frágeis ossos do transformista para se ouvir um “crack”.

    - Valha-me Deus! – gritou Suzette Putette – Se com uma pantufada ligeirinha me dás cabo da clavícula, nem quero imaginar quando fizeres o amor. Deve ser como enfiar um rabanete numa picadora Moulinex.

    - Queres mesmo fazer o amor comigo? – perguntou João, emocionado. – Mesmo??

    - Filho, só com um strapon bem lubrificado. Nem quero imaginar a quantidade de veias salientes no teu atrasabosta. Deve parecer a perna de uma velhota cheia de varizes.

    A relação entre João Diogo e Suzette Puttette estava muito diferente do que há quinze dias atrás. A traveca acabou por escolher o mister esteroide como seu predileto, em detrimento de Sandro, que a partir do momento em que se apercebeu de que tinha sido recusado pela mulher que gostava, passou a vaguear pela casa com um faqueiro dentro das calças.

    “Qualquer dia saco da faca do peixe e enfio-ta na barriga”, era uma das frases ditas para João Diogo, “Vou arrebentar-te todo com um garfo de três dentes da Vista Alegre”, murmurava, “Vais ser operado à apendicite com a colher da sopa. A sangue frio, com’ós porcos”.

    Apesar do ódio entre os dois, ainda nenhum dos pretendentes de Miguelona tinha decidido atirar a primeira pedra. Continuavam vivos, entre acesas discussões e ameaças de morte. Mas durante duas semanas, nenhum sucumbiu.

    Nem o trio, nem os outros todos. A morte de Ana na Casa da Fome causou pura e simplesmente a formação de três grupos distintos: “As Estrelícias”, “O Triângulo” e “As Puras de Chernobyl”.

    Ninguém esperava que Ana morresse intoxicada, e muito menos sem saberem o que tinha causado tal envenenamento. Então, apavorados com o rumo que a Casa da Fome estava a tomar, decidiram refugiar-se cada um no seu grupo, transformando a casa numa verdadeira batalha de equipas.

    Zé puxou logo Luís para perto de si, assim como Rui, que sem a sua mais fiel amiga, se viu sozinho na Venda do Pessegueiro. Nuno e João P., reconciliados, decidiram unir forças às três bicharocas e formaram as Estrelícias, clube esse liderado por Zé Miguel, que se auto-intitulou Alpha 4.

    - Alpha 4 ao seu dispor! – dizia – Eu meto e tiro sem ardor, combatendo as inimigas sem pudor, sou uma bicha, sim senhor!

    João Diogo, Sandro e Suzette Puttette formaram involuntariamente o segundo grupo, que Zé Miguel nomeou o “Triângulo”.

    Já Rafael, Concorrente Mistério, Soraia e as gémeas decidiram continuar a ser aquilo que sempre foram: Nada.

    - Vamos chamá-los as Puras de Chernobyl! – disse Zé – Porque todas têm um defeito mas mesmo assim são puras. O Rafael é mudo, o Concorrente Mistério parece um sorvete estragado, as gémeas são dois escrotos com pernas, e a Soraia é burra até dizer chega. Acreditam que ontem me veio oferecer uma garrafa de água oxigenada porque eu disse que tava com falta de ar?

    O quarto das bichas ficou única e exclusivamente para as Estrelícias, que se engalfinharam todas numa cama só a planear o ataque às outras, num Sábado com cheiro a Verão.

    - Eu sei que o nome escolhido para o nosso grupo tem sido motivo de muita discórdia, mas eu passo a explicar o porquê de nos auto-nomear as “Estrelícias” – disse Zé.

    Pôs-se em cima da cama. Fez uma pose. Vogue all the way. Parecia a pomba gira.

    - Somos Estrelícias porque estrelícias são coloridas. Porque estrelícias são majestosas, tal como eu.

    Parou por momentos.

    - Tal como nós. – corrigiu – Somos estrelícias porque somos exóticas, porque temos bicos e assim ninguém se mete connosco! Porque somos lindas, maravilhosas, porque somos bichas poderosas.

    - Continuo a achar este nome uma parolice de primeiro grau – queixava-se João P. – Vamos ser gozados. Vamos ser achincalhados. Quem é que respeita um grupo com nome de flor? Por mim era “Clube Internacional Catra-Pilas”. Porque somos fortes como os Catra-Pilas e absolutamente internacionais, porque o Luís é espanhol e o Rui tem uma costela marroquina.

    - Duas! – interrompeu Rui - Comprei-as no mercado negro em Outubro passado. Tinha-as tirado para umas experiências.

    - Para te abocanhares a ti mesmo? – questionou Zé Miguel – Meia dúzia de aulas de pilates e chegas lá miga, não é preciso tirar costela coisa nenhuma. O meu professor Seixo Paulo é um perito em alongamentos. Eu no final da segunda aula já fazia cócegas no prepúcio com a pontinha da língua.

    - Já estamos a fugir à questão desta reunião geral das Estrelícias – lembrou Nuno – Quem é que vamos matar primeiro, afinal? Não foi para isso que combinámos reunir-nos?

    - Acalmem a cloaca. Não vamos matar ninguém. Vamos fazer com que se matem uns aos outros, tipo luta de galinhas ilegal, tás a ver? – respondeu Zé – Não sujo as minhas mãos com ninguém. O gel de mãos acabou e recuso-me a lavá-las com pó de Skip.

    - Aí está outro dos nossos problemas – disse Rui – Começam a escassear os bens secundários na casa. A produção ainda envia comida todos os dias, mas produtos de limpeza nem vê-los. Acreditam que no outro dia tive que me lavar por baixo com Omo? Parecia que tava a esfregar as peúgas suadas do meu avô à mão.

    - E os desodorizantes acabaram. É um cheirete a alho, fuf! - disse Nuno - Ainda hoje à hora do almoço a Soraia esfregou os sovacos nos bifes de perú. E não é que ficaram uma delícia?

    - Então e o blush que me tá a acabar? – queixou-se Zé – A sorte é eu coro muito facilmente. Basta um toquezinho no pito e a tusa sobe-me às bochechas. Se não ia parecer uma burra velha na menopausa.

    Os restantes residentes da Casa estavam na sala. Sandro isolado de todos, a limpar as colheres de sobremesa com um pano húmido, Soraia a tentar descobrir o Wally na parte de trás da revista Maria, Rafael a pentear as duas gémeas, e o Concorrente Mistério em pé, junto à entrada da sala. Já João e Suzette continuavam na espreguiçadeira fazendo um braço de ferro com a língua.

    E a VOZ fez-se ouvir, interrompendo a conversa interessante das Estrelícias e a tarde enfadonha dos restantes.

    - Esta é a VOZ – ecoou por toda a casa – Hoje à noite temos uma surpresa para vocês. Vão assistir todos juntos ao Festival da Canção.

    - Paneleiros! – ouviu-se do jardim.

    - A VOZ sabe que a maior parte dos concorrentes são grandes fãs do maior concurso de música português, e não resistiu em partilhar convosco a edição deste ano.

    - Vamos ao Rock In Rio? – perguntou Soraia.

    - Vai-vos também ser possível votar numa das dez canções participantes. Vão ter que decidir em conjunto em qual delas é que querem votar. Relembro que só terão direito a um voto apenas, portanto, decidam com calma e inteligência. A emissão termina após a revelação dos cinco apurados.

    - A VOZ é esperta – disse Rafael – O Festival da Canção é a loucura das bichas. Se queres ver sangue, mete duas bichas a ver o Festival da Canção juntas. Parecem duas galinhas carecas com nervos. Então e se uma delas for apoiante do Feist? Tadinha, essa fica deprimida num canto a chorar sozinha, ninguém quer saber dela. Deus a proteja, pobre!

    - Olha, per acaso concordo contigo – disse Sandro – O Festival da Canção é o calcanhar de aquiles das bichas. Um festival desastroso e ficam de cama durante semanas, a soro se for preciso. Ficam muito afectadas. Se for bom, não param de cantar as músicas durante meses. Tenho uma bicha que vai fazer tatuagens de 3 em 3 meses lá ao meu estúdio, e quando ela lá está, é medley festivaleiro atrás de medley festivaleiro que eu até me saem mal as sombras das tatuagens. Começa com o Amor de Água Fresca da Dina, faz um bis da Anabela e só acaba na Tonicha, com direito a encore. Um terror.

    Ao saberem da notícia, as Estrelícias correram para a sala, histéricas e mais entusiasmadas que nunca, em bicos de pés. Estrelícia que é estrelícia está sempre de salto alto, nem que seja imaginário.

    - Ai Meu Deus quanto entusiasmo! – gritava Zé Miguel – Vou poder ver as minhas amigas a performar na televisão!

    - Amigas? – perguntou João P.

    - Ah pois é. Amigas! – disse Zé – Andei com o Feist na pré-primária, sou amiga íntima da Catarina Pereira e já fiz um dueto com o Rui Andrade na matiné do Bric. Eu sou celebridade, rainha suprema do mundo do jet-set. Até tenho lugar cativo na primeira fila do lugar às novas. Sou muito VIP!

    - Vaca, Intriguista e Puta? – perguntou Rafael.

    - Deves ser sim – lançou João Diogo, acabado de chegar à sala – Tu és VIP e eu tenho uma fístula no ânus em forma de coração que me canta “A Portuguesa” como despertador.

    - Sou sim mulheres, juro – acrescentou Zé – Então eu às vezes tenho que sair pelas traseiras de casa, tal não é o amontoado de fãs à minha porta para me receberem.

    - Muito gostas tu de traseiras – lançou Sandro.

    A tarde acabou por passar muito mais rápido do que todas as outras. As Estrelícias ficaram de rabo sentado na sala, a amolecer os músculos do cólon que tinham trabalhado como nunca na noite passada. Trocavam entre si experiências eurovisivas, falavam sobre as suas músicas favoritas, e de vez em quando até discutiam, uma a dizer que o vestido da Sabrina era do João Rolo, outra a reclamar que era feito por costureiras cegas alemãs amigas do Emanuel, uma de um lado a dizer que quem devia ter ganho o Festival em 2010 era a Catarina, a outra a dizer que a Filipa Azevedo era um encanto e que uma capeline Chanel durante a actuação em Oslo só lhe iria favorecer o voto do júri.

    - Rios de dinheiro gastei eu com a Catarina! – gritava Zé – E os lápis que gastei a fazer os cartazes de apoio? Cinco caixas da Faber Castell limpinhas! Uma semana a besuntar betadine nos calos dos dedos de tanto escrever! E chega aquela perua mal vestida e ganha-me aquela merda? Uma bucéfala que nem tem corpo para vestir uma saia travada Nuno Gama? Estive eu de braços empunhados no ar durante três horas para nada? Nem nas minhas sessões de fisting me ficam a doer tanto os músculos!

    Revoltadíssima subiu para o sofá e levou a mão à testa.

    - Olha, nessa noite apanhei uma bebedeira tão grande no Chueca Bar que fui para a cama com um ucraniano e só me lembro de ter acordado com o cheirete a cimento das roupas dele.

    Até que a VOZ pediu para se juntarem todos na sala. O Festival estava a minutos de começar.

    João Diogo trouxe Ana de rojo e colocou-a junto aos sofás. Virou-a ao contrário e usou o seu rabo como mesa, onde pousou o saco de pipocas acabado de sair do micro-ondas e o panaché fresquinho. Soraia foi buscar as braçadeiras porque estava mesmo convencida de que ia para o Rock In Rio, e não se queria afogar. As bichonas criaram um muro com almofadas e refugiaram-se do lado esquerdo da sala, à espera do seu show favorito. Estavam todos prontos para começar a ver o espetáculo mais degradante da televisão portuguesa.

    - Não sabia que a Chiara tinha sido convidada para apresentar o Festival! – disse Soraia, entusiasmada – Adorei a Dum Tek Tek em 2007!

    - Aquela não é a Chiara, é o Malato – corrigiu Rafael.

    - E o Malato engoliu a Chiara – acrescentou Sandro.

    Sempre que aparecia alguém famoso, Zé Miguel reclamava ser seu amigo. Soraia não tirava os olhos da televisão à espera que aparecesse a Roberta Medina.

    - Olha parece que a Dora conseguiu meter folga no McDonalds – disse Nuno.

    - Não gosto dessa senhora – disse João P. – Uma vez tirou-me um abatanado tão quente que fiquei meia dúzia de dias a falar à sopinha de massa. E os cariocas com grumos de café? Um nojo. Nunca mais volto àquele McDonalds do Chiado, prefiro ir beber a bica à Brasileira.

    - Já a Adelaide parece uma cadela vadia – disse Zé – Parece uma mula com aquelas orelhas descaídas, olha só. Ouvi dizer que por causa da crise vai fazer vida pra Espanha como vendedora de garrafas de Amêndoa Amarga.

    - Tu sabes tudo! – disse Rui, surpreendido.

    - Pois sei miga – respondeu Zé – E a Vânia Fernandes, tadinha, foi picada por um peixe aranha em Benidorm. Olha pra ela, toda inchada.

    A homenagem a Ary dos Santos acabou. Era hora então de ouvir as músicas concorrentes. Tempo para os concorrentes começarem a discutir opiniões sobre as participantes.

    - Eu sabia que a minha querida amiga Catarina Pereira ia arrasar! – gritou Zé – Eu já tinha ouvido a música! Antes de todos! O Babic passou-me o mp3 há mais de dois meses.

    - Também és amiga do Babic? – perguntou Rafael.

    - A minha Vipeza estende-se até à Croácia, coração – explicou Zé – De onde achas que surgiu a inspiração para a Sobrevivo? Foi depois de uma noite de sexo louco que tive com o Babic numa pensão no Samouco! “Vieste à hora certa, a pista está deserta”, isto foi quando ele me encontrou no Alcântara Club a dançar maluquinha em cima das colunas. “Mas aprendi contigo, quando dói não é amor”, isto parece-me óbvio. O filha da puta do croata tem um rojão de vara do tamanho do meu antebraço.

    - Para mim ganha esta – disse Alexa – Estou ansiosa para fazer o playback desta música.

    Seguiu-se Ivo, que não despertou nenhum comentário, apenas uma crítica ao tamanho das suas narinas, que Rui diziam ser a prova viva de que os humanos descenderam dos macacos.

    Zana era a próxima a subir ao palco.

    - Andei nas aulas de sapateado com a Zana – disse Zé – Era eu que lhe punha as curitas para os calos, e muitas das vezes lhe engraxava os sapatos para as apresentações ao público. Uma querida.

    - Mas ela só fala em vinho? – perguntou João D., indignado – Ainda se fosse vodka.

    Carla subiu ao palco. Zé Miguel reclamou logo que a conhecia, e que o título da canção também era em sua homenagem.

    - “Mais Para Dar” é a minha cara – disse – Ela escolheu este título porque uma noite destas, fui dormir à casa dela com uns amigos meus, e durante a noite ela ouviu-me gritar inúmeras vezes “Eu tenho mais para dar!”.

    - Então quando eu concorrer ao FC também vou fazer uma música em tua homenagem – disse João D. – Vai-se chamar “Puxa-me’as orelhas!”, que foi aquilo que te ouvi gritar a noite toda de ontem.

    Ricardo Afonso já estava no palco do Convento do Beato.

    - Este parece que tem um figo entalado no cú – disse Rafael – Agudos como aqueles só são alcançados dessa maneira.

    - Eu só grito assim quando perco o episódio das Sailor Moon na RTP2 – disse Zé Miguel – Ou quando como pevides de girassol com casca e me arranham o rabinho ao cagar.

    Enquanto a apresentação de Rui Andrade dava na televisão, muitos foram os comentários que se fizeram ouvir sobre o jovem cantor.

    - Eu conheço o Rui Andrade – revelou Rui – Ele um dia foi às putas mas não gostou. Disse que a vagina da minha colega parecia uma ferida.

    - Eu também conheço o Rui! – disse Zé – Ele pediu-me para lhe fazer um vídeo de apoio, mas como ia entrar na casa não o pude terminar. Em compensação enviei-lhe um vídeo íntimo meu que gravei num bar de ursos e um cabaz de frutos secos.

    - Mas alguém me explica porque é que ele está a cantar a música do Aladino? – perguntou Rafael.

    - É nestas alturas que faz falta um par de gilettes aqui em casa – disse João D. – Era cortar os pulsos sem pensar duas vezes.

    A actuação de Lara Afonso passou despercebida a todos, mas a de Raquel Guerra suscitou opiniões.

    - Mas isto é tipo um cover da Simone de Oliveira? Valha-nos Deus – perguntou João D. – Tenho uma hemorroida mais velha que essa senhora. Odeio coisas antiquadas!

    - Parece que o Ricardo Afonso emprestou o figo que tinha no cú à Raquel – disse Nuno – Olha-me aqueles graves. Parece uma drogada a pedir trocos no metro.

    - Não falem mal da equipa do meu querido Feist! – gritou Zé, revoltado – Já lhe basta ter um problema de falta de magnésio. Coitadinho, tem os colhões tão descaídos que lá em casa nem é preciso usar vassoura.

    - Problema de magnésio? – perguntou João P.

    - Sim. E retenção de líquidos! – disse Zé – Na pochete traz sempre meia dúzia de barritas energéticas de castanha de cajú e um saco de torrão, não vá o diabo tecê-las. E os tomates sempre amarrados com um cordão de sapato à volta da cintura.

    Quando Raquel acabou de cantar, todos respiraram de alívio. E era a vez de Madalena Trabuco subir ao palco para fazer a sua performance. Durante os primeiros segundos da música, ninguém se atreveu a dizer o que quer que fosse.

    - Então mas esta vem praqui cantar mandarim? – questionou Nuno, revoltado – Pensei que no Festival da Canção só se podia cantar português. Quer dizer, isto também não é bem cantar, não deve contar.

    - Cá pra mim ela está a fazer uma macumba – disse Rui – Daqui a nada o pessoal que tá no convento começa a sentir uma vontade de cagar trepidante e fogem todos para a casa de banho. Até no balde de água benta vai haver gente a arrear o calhau.

    Seguia-se Suzy. Quando a música começou a tocar, metade da casa delirou. Já a outra metade pareceu não gostar nada.

    - Aquele senhor loiro tem umas mamas muito grandes – disse Soraia.

    - Olha o King Africa a tocar bongo! Parece que andou à luta com um funcionário da Barbot! – disse João D – Pinturas rupestres como estas só faço na porcelana da sanita quando estou de diarreia!

    - Isto faz-me lembrar o arraial do caracol lá da minha aldeia – disse Zé – Admira-me que ela ainda não tenha escorregado no azeite com aqueles saltos agulha.

    - Cala-te! – disse João D – Mais azeite tens tu. Jogo-te uma cabeça de alho para cima e faço um refogado para trinta pessoas.

    - Pra mim vai esta – disse Miguel – Melhor que a primeira que parecia uma mosca varejeira a dançar à volta dos restos do almoço.

    As opiniões sobre quem devia passar começaram a ouvir-se pela casa. Os concorrentes só tinham direito a um voto, mas a decisão estava longe de ser fácil. De um lado, as Estrelícias gritavam Catarina Pereira de pulmão cheio, cantando Mea Culpa de trás pra frente. Do outro, os restante pediam Suzy com o pimba foleirote.

    - Bichas com mau gosto! – gritava João P. – Depois quero-vos ver todas em Copenhaga com garrafas Oliveira da Serra empunhadas no ar!

    - Mais vale uma garrafa de azeite na mão do que cinco ou seis dildos enfiados na peida! – gritava João D. – Vai a Suzy à Dinamarca fazer concorrência à Conchita! Ou são só os austríacos que têm direito de levar uma traveca como representante?!

    Após meia hora de acesa discussão, tomou-se uma decisão: Deixar Soraia escolher, que até àquele momento era a única que ainda não tinha entendido que estavam a ver o Festival da Canção e não o palco pop do Paredes de Coura.

    - Vais até ao telefone e ligas ou para o número 1 ou para o número 10. É fácil amiga. Não tem nada que saber – disse Zé – Ou o 1 para a Catarina, ou 10 para a imitação barata da Débora de Cristal.

    Soraia levantou-se, receosa e confusa. Seguiu até ao telefone que a produção colocou por baixo da televisão, propositadamente para a votação no Festival. Olhou para os concorrentes, para o telefone, e para os concorrentes novamente.

    - 1 para Catarina e 10 para Suzy, certo? – perguntou, inocente.

    - Sim, isso mesmo – disse João D.

    Soraia olhou para o telefone novamente. Ficou alguns segundos pensativa, mordeu o lábio, acoçou a cabeça.

    E clicou no 9.

    - Mas esta gaja é estúpida! – gritou Zé – Ligou para a Trabuco!

    Todos se levantaram e se zangaram com Soraia, que começou a choramingar, feita parva.

    - Vou-te enfiar um coração de filigrana pelo cú acima! – gritou Zé.

    Mas finalmente uma das gémeas deu conta de um pequeno grande pormenor que mais ninguém reparou, tal não era o alvoroço que o Festival da Canção tinha causado na casa.

    - Onde é que está o Concorrente Mistério? – perguntou Alexa.

    - Ele foi ao Confessionário antes do Festival e nunca mais o vi – acrescentou Alexi.

    Será o Concorrente Mistério um dos possíveis representantes de Portugal? Ou apenas um fã do Festival? Até ao final da noite, o concorrente mais enigmático da casa não voltou a dar sinais de vida, dando origem a todo o tipo de teorias sobre o seu desaparecimento.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Qui Jun 08 2017, 14:36

    .

    Deixar assistir à semifinal do Festival da Canção foi o último prazer que a VOZ deu aos concorrentes. A partir daí, a Casa da Fome passou a ser literalmente “A Casa da Fome”.

    A comida escasseava de dia para dia. A tradicional despensa ao Domingo não existiu desta vez. Restavam apenas alguns ingredientes base, como arroz, massas, feijão encarnado em lata, grão de bico e cinco ou seis sacos de cebolas. Zé Miguel chorou baba e ranho quando deu conta de que não poderia ir buscar o cacho de bananas que lhe durava para a semana inteira.

    - É que nem o vegetal suplente eu tenho! A piranha da Soraia lembrou-se de fazer uma salada de courgette anteontem! E agora como é que me vou satisfazer? – lamentava Zé – Bem, posso tentar com o abacaxi, mas é capaz de arranhar ao sair.

    Os produtos de higiene já não existiam na casa mais famosa da Venda do Pessegueiro. Soraia foi até vista a lavar os dentes com uma pastilha de Calgon, e já haviam pessoas na casa com micoses nos sítios mais improváveis.

    - Já deixei os garfos do faqueiro do Sandro todos enferrujados – dizia Alexa – Só com eles é que consigo coçar a micose que tenho à porta do cagueiro.

    Água quente só uma vez por dia, durante dez minutos. Quando descobriram que entre as 21:00 e as 21:10 a produção secretamente ligava a caldeira, começaram a engalfinhar-se todos ao mesmo tempo no chuveiro. Lavavam-se à queima-roupa com restinhos de lava-loiça e à falta de desodorizante esfregavam a sovaqueira com Brise.

    Mas era um perigo. Escorregavam na espuma tal qual Bambi a aprender a andar. Soraia já não tinha mãos a medir para a quantidade de galos que tinha cabeça. Por sua vez, Zé Miguel e as Estrelícias aproveitavam o banho para fazer uma inspecção aos tamanhos de pila disponíveis na casa. Ficaram extremamente impressionados com o Calipo de Limão de João D. que brotava da cuequinha quando ele se mexia.

    - Parece um taco de basebol. Apetece-me mandar-lhe uma das minhas bolas – disse Nuno.

    - Era juntar meia dúzia de pilas como aquela e eu não me importava que jogassem Mikado em cima da minha cara – dizia Zé Miguel.

    O único que não tomava banho em conjunto era Miguel, que não podia arriscar que alguém descobrisse que em vez de uma pachacha, tinha um pescoço de frango.

    - Anda mulher! – dizia João D. – Eu juro que não atiro o Palmolive pro meio do chão para tu o ires buscar. Só se ele me escorregar entre os dedos. Sabes que as minhas mãos são um bocadinho traiçoeiras.

    Suzette só mordia os lábios. Já os tinha em carne viva. Não podia arriscar revelar a sua verdadeira identidade, mas também já estava cansada de tomar banho de água fria. Os seus ossos estavam prestes a transformar-se numa fileira de cubos de gelo.

    - Não... – murmurou – Hm.. Não posso. ‘Tou com pé de atleta.

    Zé Miguel olhou o transformista de soslaio. Continuava a ser o único a saber o seu segredo. Trocou um olhar enigmático com Putette e voltou a esfregar a fruta com a palha d’aço da cozinha.

    - Então é melhor ficares aí quietinha – lançou Nuno – Há uns anos atrás fui a uma sauna em Barcelos e saí de lá a esguichar pus dos dedos dos pés.

    Após o banho colectivo tal qual prisão Venezuelana, as Estrelícias, à excepção de Zé Miguel, foram-se secar todas ao natural para o jardim, de pernas abertas a fazer a fotossíntese. O outro grupo dispersou-se pela casa. Notava-se a léguas que as Estrelícias eram muito mais unidas que os outros todos, que continuavam a agir como individuais.

    Zé aproveitou então a deixa para ficar sozinho com João Diogo na casa de banho. E sabia perfeitamente qual a conversa que iria ter com ele.

    - Então mister lípido… - disse – Como foi a primeira pinada ali com a boazona?

    Apontou para Miguel, que coçava a greta falsa com a ponta das unhas de gel.

    - Ouvi dizer que ontem à noite lhe rompeste o hímen só com o oral. A tua língua é assim tão forte? – perguntou Zé.

    João ficou ligeiramente desconfiado com a atitude do estilista.

    - Pensava que as Estrelícias não se davam com os restantes.

    Zé aproximou-se de João, agarrando-o no músculo número três mil e duzentos.

    - Qual quê rapariga – segredou – Eu gosto de todos aqui na casa. Não vou deixar de me relacionar com quem quer que seja só por causa das Estrelícias.

    O bafo de Zé era tão cheio de falsidade que Soraia até desmaiou. Ficou estendida no meio da casa de banho com o secador ligado numa mão e um cubo de gelo noutra.

    - Esta parva tá a derreter o gelo do congelador para fazer reservas d’água – disse Zé – Mas já estou a fugir ao assunto. Conta lá miga, agora aqui que ninguém nos ouve por causa do barulho do Rowenta.

    - É verdade sim – confirmou João – Comi-lhe o pacote.

    - E como foi? Conta amiga que a mana é pura!

    João olhou Miguel, que se esfregava nas paredes tal qual urso. Sentia medo de partilhar um assunto tão privado com alguém que mal conhecia e que nem sequer gostava. Mas acabou por se render.

    - Foi apertadinho – confessou – Parecia que estava a enfiar a gaita no cu d’uma galinha.

    Zé riu discretamente.

    - Ai não me diga! – disse, fingindo estar admirado – Era mesmo virgem a pobre?

    - Parece-me que sim. E a abre-caricas dela não é nem um pouco parecida a todas as outras que eu já experimentei.

    - Então porquê? Diga-me! – insistia Zé.

    - Peidou-se meia dúzia de vezes – disse João – Por momentos até pensei que tinha um xarroco ali enfiado ou as ventosas de um polvo. Tás a ver o barulho que se ouve quando desentopes o lavatório da cozinha? Era assim.

    - Mas isso é muito estranho, de facto…

    - E não foi só isso – disse João D. – Quase que parto o osso da pila para a conseguir enfiar lá dentro. Tem a xoxa muito rebaixada, disse-me que foi por ter sido atropelada por uma mula quando era pequenina.

    João olhou novamente Suzette, para se certificar de que ela não ouvia nada do que ele estava a revelar.

    - E o cheirete a fezes? – exclamou sorrateiramente – Parecia que tinha besuntado o dito cujo num jarro de nutella estragado. Por momentos até pensei estar a comer-lhe o cu…

    - Achas!! – disse Zé – Claro que não era o cu…

    Desfez-se a rir. Não conseguiu aguentar.

    - Do que é que te tás a rir, tu? Amando-te uma sopradela e desfaço-te em fanicos – ameaçou João D.

    - Não é nada amiga. Eu é que apanhei lombrigas ontem à noite do tampo da retrete e tou cheio de coceguinhas na pontinha do cu.

    Imponente, a VOZ interrompeu a conversa entre Zé e João e ecoou pela casa mais vigiada de Aporue.

    - Estrelícias, reúnam-se no quarto Violeta. Os restantes, dirijam-se para o jardim.

    Após alguns minutos de revolta, os concorrentes obedeceram à VOZ. Ainda molhadinhas, as Estrelícias aproveitaram enquanto a VOZ não voltou a falar para trocar algumas experiências a nível da depilação e hidratação das brebas.

    - A Casa Da Fome é um jogo, como todos vocês sabem. Mas parece que aqui dentro ninguém está disposto a jogar – disse a VOZ.

    - Tu queres é sangue! Já não te basta os pensos higiénicos das gémeas? – gritou João D.

    - É isso mesmo. A VOZ quer sangue. Está cansada de passar o dia a limar as unhas e a ver-vos sentado de rabo no sofá sem fazer nada. Então, para tornar tudo isto mais interessante, escondi duas armas. Uma para o grupo das Estrelícias, que escondi no quarto violeta, e outra para os restantes, que escondi algures no jardim. No entanto, cada arma só tem uma bala.

    Ficaram todos petrificados.

    - Usem-nas com inteligência.

    As Estrelícias ultrapassaram o momento de choque e não perderam mais tempo: Começaram a procurar a arma no seu quarto.

    João Diogo, por sua vez, tentava acalmar o grupo do jardim que tinha entrado em pânico com a notícia. Estavam todos com medo de ser mortos.

    A arma do grupo das Estrelícias estava escondida numa das gavetas do quarto violeta. Zé Miguel correu para a procurar: Vasculhou em todos os cantos do armário, jogou camisolas, capelines e até uma ou duas cuecas de renda de João P. pelo ar, era cockrings a saltar de dentro das gavetas, preservativos sabor mirtilo-romã e até um mini vibrador estimulante de clitóris.

    - Costumo usá-lo para massajar a próstata – disse Rui.

    Depois de minutos incansáveis de procura, eis que a pistola surge entre um kilt de Nuno e um top Zara de lantejoulas de Luís. Brilhante, poderosa, perigosa, negra e mortífera. Quando a encontrou, Zé deu um gritinho estridente, que logo foi imitado pelas Estrelícias. Pareciam gatas assanhadas com medo de um rotweiller.

    - Afastem-se mulheres que eu não sou boa com armas! – avisou Zé.

    Pegou no revólver com a pontinha dos dedos e jogou-o para cima da cama. Gritaram todas de pânico em uníssono. Começaram a saltar tal qual pulgas no cachaço de um cavalo.

    - Ainda nos matas a todas! – gritou João P – Logo hoje que eu me esqueci da minha cinta que comprei nas Televendas! Não há bala que perfure aquilo!

    - Desculpem migas – disse Zé – Assustei-me com a frieza da arma. Já não tocava numa coisa assim tão fria desde 2003, quando masturbei um senhor morto de setenta e tal anos à porta da Santa Casa de Rio Seco dos Marmelos.

    - Então mas tu pegaste na gaita dum velho morto? – perguntou Rui, enojado – Eu já fiz muitas coisas nojentas, como por exemplo lamber o forro dos colhões a uma shemale, mas isso supera tudo!

    Zé Miguel nem teve tempo de explicar a sua experiência bizarra. Nuno chamou à atenção das Estrelícias: O outro grupo também estava prestes a encontrar a pistola e era tempo de decidirem o que fazer com a única bala que tinham.

    No jardim, a confusão reinava. João Diogo nunca imaginou que juntar forças ao grupo das Puras de Chernobyl lhe fosse dar tantas dores de cabeça.

    - Mantenham a calma! – gritava João D. em cima de uma espreguiçadeira – Temos que dividir tarefas ou nunca vamos conseguir encontrar a Magnum!

    - Espero que seja de chocolate branco – disse Soraia – Tudo menos amêndoa! É um dos dois legumes a que sou alérgica. O outro é a laranja.

    - Pssht! Caluda sua rata de sacristia. Mais uma amostra de estupidez e mando-te com um croc à cabeça – reclamou João D. – Magnum é a arma que a produção escondeu aqui no jardim para nós. Temos de a encontrar!

    Desceu da espreguiçadeira e começou a traçar um plano.

    - Eu e o Sandro vamos procurar na piscina. Tenho quase a certeza de que esconderam a arma debaixo de água. O Rafael pode procurar em todos os vasos. Suzette, vê debaixo das espreguiçadeiras e dos sofás junto à entrada, Alexi e Alexa procuram no resto do jardim, em todos os cantos possíveis.

    Apontou para Soraia.

    - Tu ficas de vigia. Esses olhos de peixe-espada têm de servir para alguma coisa. E há falta de binóculos, temos-te a ti – rematou João – Se notares algum movimento estranho por parte das Estrelícias, é só gritar.

    Todos ocuparam as suas posições. Alexi e Alexa começaram a vasculhar perto dos vidros, João D. desfez a blusa com uma inspiração mais forte do que o comum e saltou para a piscina, Rafael começou a meter a mão nos vasos e Soraia foi discretamente para a sala, onde se escondeu atrás dos sofás.

    - Cheira a merda… - disse Rafael.

    - É normal – disse João D. – O Zé Miguel continua a usar o cocó do Diogo para fertilizar as plantas. Ele costuma fazer uma incisão no umbigo e tira os pedaços de merda com uma espátula de barrar bolos. Se encontrares bocadinhos de intestino aí pelo meio não te admires.

    - Não encontro nada! – disse Miguel.

    - Nós também não… - disseram João e Sandro.

    - Migas! Encontrei aqui qualquer coisa! – gritou Alexa – Parece uma daquelas coisas que os polícias costumam usar nos filmes para matar as pessoas. Eles costumam carregar aqui…

    Carregou no gatilho. A arma disparou no seu peito. Precisamente no seu coração. Alexa caiu no chão. O sangue jorrava descontrolado, sujando tudo à sua volta. Alexi ficou tão apavorada com o que tinha acabado de acontecer que não conseguia reagir.

    - Bem, parece que encontrámos a arma… - disse João D.

    Alexa ainda tentou articular as suas últimas palavras, mas não conseguiu. Deu três ou quatro cuspidelas de sangue e morreu. Um traque longo e seco foi a sua mensagem de despedida. Cheirava a feijão frade.

    Alexi ajoelhou-se e segurou a cabeça da sua falecida irmã.

    - Mana?? – gritou – Eu sempre pensei que ia ser a primeira a partir! Fiquei ainda mais convencida quando fui ler a sina àquela cigana na feira de Carcavelos e ela me disse que ia morrer por comer figos estragados.

    Chorava, de coração partido.

    - Não aguento viver sem ti… - dizia vezes sem conta.

    Pegou na arma e colocou-a na boca. As mãos tremiam. O corpo encostado à parede, rendido à sua decisão. Alexi queria morrer, tal como a sua irmã.

    - Nem vale a pena tentares, Alexi – alertou Rafael – A arma só tem uma bala e a parva da tua irmã já a gastou.

    Alexi apertou o gatilho.

    E o seu cérebro explodiu em mil bocadinhos. Parecia encéfalo à brás. Uma batata palha em cima e já havia pitéu para o jantar.

    - Ok, se calhar é capaz de haver mais balas ali dentro – disse Rafael.

    João D. gritou como uma menina. Foi como se os seus esteroides tivessem saído do seu corpo durante alguns segundos.

    - A produção disse que só havia uma bala! Só uma bala! – gritava, desesperado – Lá se foram as gémeas!

    - Menos duas bocas para alimentar – disse Rafael – Estás chateado com isso?

    Ao se aperceberem da morte das gémeas, as Estrelícias gritaram novamente em conjunto tal qual grupo de fãs do Carlos Costa.

    - Temos de nos organizar migas! – gritou Zé Miguel – Assim a panicar não vamos a lado nenhum! Vamos decidir de uma vez por todas quem é que queremos matar.

    - Podem ser todos? – perguntou João P. – Assim ficávamos só nós na casa. Podíamos alimentar-nos da carne dos seus corpos e beber o sangue com uma palhinha. Nem precisamos de tomar banho de água quente, migas que são migas não se importam com os odores das outras.

    - Não concordo – disse Rui – Há uma puta lá na rua que é super discriminada por deitar um cheirete a bacalhau das cuecas. E confesso que basta um arroto do espanhol a sémen para me fazer querer sair do grupo.

    - Vamos primeiro pensar quem devemos matar, e como! – gritou Zé – Depois decidimos como sobreviver aqui dentro.

    Foi buscar um papel e uma caneta. Começou a desenhar os restantes concorrentes no papel.

    - Porque é que estás a desenhar um cagalhão numa folha? – perguntou Nuno.

    - Não é um cagalhão. É a Soraia. Odeio aquela gaja.

    Depois desenhou uma caixa de anabolizantes.

    - Este é o João D. – disse Zé.

    - E o que é essa coisa nas pernas da Suzette? – perguntou Rui.

    Zé riscou a pilinha que tinha desenhado em Miguel.

    - Vamos concentrar-nos migas! – disse, poderoso – A produção mentiu-nos. Temos mais balas dentro desta pistola do que julgávamos. Podemos aproveitar a situação para matar o maior número de adversários possíveis.

    Riscou o desenho alusivo à Soraia.

    - Vamos começar por ela – declarou.

    - Ó Zé, coitadinha! Ela nem sabe o que faz. Parece um peixe fora d’água – disse Nuno.

    - Pois parece. Literalmente – disse Zé – Mas é uma concorrente de peso. Ninguém no outro grupo tem coragem de a matar por ser tão estúpida. Todos têm pena dela. Até vocês. São umas fracas. Eu já estive na Etiópia numa photoshoot com a Rita Pereira e não senti pena nenhuma das criancinhas à minha volta a pedinchar comida todas cheias de ranhoca. Dava-lhes patadas com as minhas plataformas Loubottin para as afastar de mim.

    Balançou o cabelo.

    - Que horror. Era o que faltava ter os meus calções de ganga Intimissimmi todos manchados de barro.

    - Então e quem é a próxima vítima? – perguntou João P. – Por mim podia ser o João Diogo. Sem líder, aquele grupo vai parecer um monte de formigas tontas espirradas com Raid.

    Mas Zé Miguel já tinha um plano para a morte de João Diogo desde o início da Casa da Fome. Estava só à espera da altura ideal para lançar a bomba.

    - Não… esse não – disse Zé – Ele é um amor de pessoa. Ante-ontem ajudou-me a arrancar os pelos encravados das virilhas. E ainda me besuntou com halibut. Poucas pessoas têm tanta bondade.

    - Podia ser o Rafael. É um autêntico parasita aqui dentro. Ainda por cima acabou com o stock de palitos la rénne na semana passada. Queria ter feito um tiramissú e tive que me contentar com uma arrufada de vila chã – comentou João P – Engasguei-me na massa seca umas três vezes.

    - É esse mesmo – disse Zé – Ontem gozou com o meu corte de cabelo. Disse que parecia um cruzamento entre a Dina e o Abel Xavier. Fiquei ofendidíssimo. Sabem quanto tempo é que tive que esperar para conseguir uma marcação com a Ana Sousa?

    - Mas tens a certeza de que são só duas balas? – perguntou Nuno.

    - Não sei quantas são – disse Zé – Mas por agora, o plano é este.

    Decidiram posições. Zé ficou com a arma pois queria ter o prazer de atirar em Soraia. As outras Estrelícias vestiram os seus fatos de batalha, cada um da sua cor, e saíram do quarto. Nuno e João P. ficaram junto à televisão da sala, Rui na porta da casa de banho, Luís foi para a cozinha. Parecia um filme de acção. Mas em vez de heróis eram bichas.

    Zé rastejava pela sala de arma empunhada na mão, à procura de Soraia, que continuava atrás do sofá.

    - Atirei o pau ao ga, to, to… - ouviu-se na sala – Mas o ga, to, to, não morreu, eu eu…

    Soraia estava a cantar baixinho no seu esconderijo, enrolada no seu próprio corpo. Zé descobriu-a logo.

    - Dona Chica, ca, ca – continuou Zé.

    Soraia desenrolou-se e ficou apavorada a olhar para Zé.

    - Assustou, se, se… - disse, com a voz tremida.

    Zé fez a cara típica de quem está prestes a matar alguém. Aquela expressão irónica e de ódio ao mesmo tempo. O seu rosto vermelho de raiva. Parecia estar a fazer força para parir uma meloa.

    - Com o berro, com o berro… - continuou Zé.

    - Que o gato deu… - disse Soraia.

    Fez-se silêncio. Não aconteceu nada.

    - MIAU! – gritou Soraia.

    Num gesto de alucinante perspicácia, Soraia roubou a arma a Zé Miguel e colou-se em pé. Apontou a Magnum ao corpo do estilista, que entretanto já tinha mijado a cueca.

    - Não me mates! – suplicou Zé – Há qualquer coisa que me diz que apesar de seres mais estúpida que um saco de batatas, és capaz de me acertar em cheio na pinha devido à tua tremenda qualidade ocular.

    - Eu sabia que as minhas aulas de Karaté na primária iriam servir para alguma coisa mais tarde! – disse Soraia, vitoriosa – Gostaste? Foi mesmo rápido não foi?

    Ajoelhou-se e entregou a arma a Zé Miguel.

    - Toma miga. O que é nosso é nosso! – disse Soraia.

    Mas João Diogo apareceu de súbito e não deixou que Soraia cometesse o erro mais estúpido da sua vida.

    - Espero que morras antes de mim, só para te abrir a cabeça e ver se realmente tens um cérebro aí dentro ou uma pastilha elástica sabor melancia. Que burra! – disse João D.

    O grupo rival das Estrelícias tinha agora as duas armas na sua posse.

    - Não me mates, miga! – suplicou novamente Zé – Eu prometo dar-te tudo o que tu quiseres. Prometo bajular-te até ao fim dos meus dias. Até me podes comer o cú e chamar-me de Matilda ao mesmo tempo que eu não me importo!

    João não sabia o que fazer naquele momento. Tinha a oportunidade de matar Zé, de se desfazer de um dos seus maiores adversários. Mas não conseguia premir o gatilho.

    - Eu empresto-te o meu kit anti rugas todas as manhãs! Juro! – dizia Zé – Só te peço é que não uses o creme pras assaduras porque és capaz de apanhar uma infecçãozita.

    João suava por todos os poros. Estava prestes a rebentar de tanta pressão.

    As outras Estrelícias estavam todas enfiadas dentro do quarto, a ver a situação escondidas atrás da cama mais afastada do vidro. Em vez de ajudarem a amiga, meteram o rabinho entre as pernas e fugiram para bem longe.

    Mas Luís era o único que não se tinha escondido. Aos poucos, e sem que ninguém se apercebesse, foi-se aproximando de João D. Estava prestes a roubar-lhe a arma e matá-lo.

    E o parvo dos esteróides ainda indeciso. Parecia que as ofertas de Zé o estavam a seduzir.

    - Até te posso fazer batidos de banana todas as manhãs, eu quando quero sou uma  verdadeira fada do lar! – dizia Zé – Injeto-te com os esteroides todas as noites e leio-te os Três Porquinhos antes de ir dormir. Juro!

    Mas João nem teve tempo de pensar na interessante proposta de Zé. Luís saltou-lhe para cima tipo cobra cuspideira, e os dois começaram a rebolar no chão numa luta alucinante.

    Até que se ouviu um tiro. Um tiro que voltou a deixar a Casa da Fome num absoluto e intenso silêncio.

    Luís tinha sido a vítima.

    - Seu monte de merda!!! Mataste-me a espanhola!!! – gritou Zé – A minha espanhola! O amor da minha vida está morto! Ai que esta dor ainda é mais forte do que uma sessão de fisting! Deus me acuda! Aiii!!

    Zé estava inconsolável. João fugiu de imediato para o jardim, com medo da reacção do estilista. Até ele próprio estava traumatizado com o que tinha acabado de acontecer.

    - Eu matei uma pessoa – disse, incrédulo – Eu que sou tão puro que nem as moscas mato. Até cago na marquise para lhes dar de comer.

    Sandro pegou logo nas duas armas e mandou-as para o telhado.

    - Eu sei que isto é um jogo para matar as outras pessoas, mas acho que três num dia já chega, né? – disse – Vai ficar aqui um bafo a mortos no ar que isto nem com duas caixas de Spray Baunilha volta ao normal.

    A casa tinha acabado de ser reduzida a dez concorrentes. As gémeas Alexi e Luís já não faziam parte do jogo.

    Mas as surpresas estavam longe de terminar.

    A porta do jardim abriu subitamente. Estavam lá duas pessoas. De mala na mão, prontos a entrar. Dois novos concorrentes prestes a fazer parte do jogo.

    A Casa parou quando os dois novos residentes começaram a caminhar até à sala. Ninguém conseguia articular uma única palavra naquele momento.

    - Por esta é que eu não estava à espera… - disse Miguel.

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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Qui Jun 08 2017, 14:56

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    Os dois novos concorrentes da Casa da Fome caminharam lentamente até à sala. Pareciam desfilar na mais brilhante passerelle num show Victoria’s Secret. Só faltavam os bikinis brasileiros e as asas brilhantes e poderosas. O cabelo a voar ao ritmo do vento, os passos curtos mas decididos. O mundo em câmara lenta durante aqueles dez segundos.

    Um era mais alto que o outro. O mais baixo, apesar da entrada triunfante, tinha um aspeto saloio e ligeiramente azeitola. Bem, sejamos francos. Azeitola o caraças! O gajo era tão bimbo que se lhe atirassem um par de cebolas para cima, dava para fazer um refogado de panela e meia.

    - Olá a todos – disse o mais alto – Chamo-me…

    Mas foi interrompido. Soraia pensou que se tratavam dos paramédicos e correu para eles a puxar Alexi de rojo. A falecida ia dando cabeçadas em todas as pedras do jardim, desfazendo ainda mais a sua cara que tinha explodido em bocadinhos após o tiro na garganta.

    - Ainda bem que chegou alguém para nos ajudar! – disse, cansada – Vejam lá o que podem fazer com a minha amiga. Ela sem querer meteu a boca numa pistola e puxou o gatilho. Mas eu acho que não é nada que uma bisnaga de fenistil não resolva.

    Pegou Alexi ao colo e segredou-lhe ao ouvido. Bem, ou era o ouvido, ou era um bocado de cérebro enrolado num olho.

    - Tem calma amiga que os médicos da produção já chegaram. Logo à noite faço-te uma canja de galinha e ponho-te betadine nas feridas. Dois dias de repouso e ‘tás boa.

    - Deixa de ser parva! – gritou Sandro – A mulher tá desfeita! Há pedaços dela por todo o lado! Dá até para cozer uma esparguete e comer bolonhesa. Parece carne picada!

    Soraia desatou a chorar. Não queria acreditar que tinha perdido as gémeas Alexi, as suas grandes fontes de inspiração, e as únicas pessoas na casa com quociente de inteligência tão baixo para a conseguir entender.

    - Parece que é parva! – gritou Sandro – Já me tás a arrepanhar a pele do pescoço. Tanta parvoíce junta numa pessoa só! Traduzia-se em gordura e tavas pior que o Fernando Mendes depois de comer cozido à portuguesa!

    - Tá calado – pediu Rafael – A miúda tá traumatizada. Nunca viu tanto sangue. Quando lhe aparecer o período pela primeira vez vai pensar que pariu um cachecol da Selecção. Depois enrola os coágulos à volta do pescoço e canta o hino.

    Sandro olhou Rafael de soslaio. Sentia-se cada vez mais excluído dentro daquela casa.

    - Mas vocês são todos esquisitos? Não há ninguém aqui dentro que tenha um centímetro de cérebro? Um par de neurónios? Cambada!

    Estava revoltado. Desatou a pontapear Alexa, descarregando a sua raiva no corpo da falecida. O mesmo acabou dentro da piscina, fazendo uma bomba à la Hera Björk.

    - Agarrem-na que ela não sabe nadar! – gritou Soraia – Mandem-lhe um par de braçadeiras! Opá! Façam qualquer coisa!

    Sandro levou as mãos à cabeça. Estava saturado de tanta estupidez. Era Soraia a semear ignorância em tudo o que era buraco, Zé Miguel a espalhar bichice, as Estrelícias e o escárnio a toda a hora, Rafael com os seus hábitos muito estranhos, Rui que é homem mas que é prostituta ao mesmo tempo…

    Sentiu que estava a alcançar o seu limite. Para piorar a situação, tinha acabado de assistir a três mortes. Ainda por cima tinha a gabardine pingada de sangue. E sem esquecer que perdeu a sua paixão, a esbelta Suzette Puttette, para o seu rival João D.

    - Calma Sandro – pediu Suzette – Não cometas nenhuma loucura. Vou-te preparar um cházinho de camomila para acalmares a cloaca. E podemos conversar. Sou boa de boca mas também sou uma boa ouvinte.

    Ao dar conta do pedido de Puttette, Sandro acalmou de imediato. Parecia que lhe tinham enfiado uma aspirina pelo recto acima. Segurou a mão da Miguelona e caminhou até à cozinha, onde pela primeira vez teve oportunidade de passar um tempinho a sós com a traveca mais boazona de todos os tempos.

    E a João D. nem lhe deu o cheiro. Continuava encostado às paredes do jardim, a chorar tal qual Madalena Arrependida. Parecia Zé Miguel depois de perder um episódio das Navegantes da Lua.

    - Eu matei uma pessoa… - dizia vezes sem conta – Eu matei um ser vivo…

    E Zé Miguel? Como estaria o estilista depois da morte do seu espanhol? Como estaria a pessoa mais glamorosa da casa após perder o seu Ricky Martin?

    Fechado a sete chaves dentro do quarto. Com as Estrelícias todas à volta dele.

    - Tem calma miga! – gritava João P, aos pulinhos – Vamos dar um banho de espuma todas juntas e ficas logo boa! Comprei uns sais de banho na Natura que fazem bolhinhas nos sítios mais impróprios! Vais adorar! Vai parecer que tens uma Sévénápe nas virilhas!

    Estavam todas aflitas. Zé espumava de raiva junto à porta, tentando abri-la. Mas Rui tinha-a trancado, para impedir que o estilista cometesse uma loucura e desatasse a matar tudo e todos lá fora.

    - Tu és fraca d’ossos! – lembrou Nuno – Vais lá fora armar-te em Schwarzenegger e acabas estendida no jardim com uma moca de rio maior enfiada nas trombas! Elas são perigosas, tu sabes disso!

    - Lembra-te que a tua cara é o teu ganha-pão! – dizia Rui – Nenhum velho rico holandês te vai querer enrabar se lhe apareceres à frente com uma porrada de cicatrizes nas beiças! Pensa bem na tua vida! Olha que os liftings tão cada vez mais caros! A Lili Caneças até já anda a injectar petróleo dos candeeiros na testa para reduzir os custos!

    Mas Zé Miguel não acalmava. Pontapeava agora os vidros, com esperança de os partir.

    - Olha que me partes as socas da Prada que te emprestei! – gritou João P. em pânico – Tá bem que ‘tavam em saldos, mas tem cuidado!

    - Vais partir as unhas de gel! – gritava Nuno – O curso de esteticista que tirei em Chelas ainda me custou um ordenado mínimo! Não perdi eu duas horas de lima na mão para depois irem todas à vida por causa d’um ataque de bicha-hulk!

    Ninguém conseguia sossegar Zé. Espumava da boca, parecia um cão com raiva.

    - Olha que ainda te vomitas! – dizia Rui – O almoço foi pesado e essa força toda dá-te cabo do estômago!

    - Os nervos deixam-te cheia de rugas! – gritava João P. – Vais parecer um Shar Pei enrolado numa colcha velha!

    - Tás toda anémica! Não tens força para estas coisas, miga! – gritava Nuno.

    - Ainda rasgas a saia travada com tanta brutidade! Tá quieta rapariga! – gritava Rui.

    Finalmente Zé desistiu de tentar escapar do quarto. Caiu no chão, rendido ao cansaço, e começou a chorar, enrolado em si próprio como um caracol dentro da sua casquinha. Estava inconsolável.

    ____

    No Jardim, o ambiente era mais calmo. Os dois novos concorrentes continuavam no mesmo sítio, a observar João D. preso à parede a chorar, Soraia agarrada à morta a chorar também e Rafael a varrer os bocados de rim de Alexi.

    - Chegámos numa má altura, não foi? – disse o mais alto.

    - Nem por isso – disse Rafael – Está tudo óptimo, não vês que sim?

    Os novos residentes da casa decidiram entrar e sentar-se na sala. Bastou dez minutos para a VOZ se fazer ouvir, mais uma vez. Ordenou que todos, à excepção de Zé Miguel, que continuava enrolado na sua concha tal qual ameijoa, que se reunissem na sala, para os novos concorrentes terem a oportunidade de se apresentarem.

    - Boa tarde a todos. A VOZ assistiu aos últimos momentos da Casa e não ficou indiferente. Sei que a tensão é muita e que provavelmente este não é o momento mais adequado, mas a Casa acaba de receber mais dois novos participantes.

    - Quem? Quem? – perguntava Soraia, entusiasmada.

    - Os dois novos residentes da Casa vão ter agora a oportunidade de se apresentarem. É tudo, por agora.

    Fez-se silêncio. Ninguém estava com disposição para apresentações. Queriam apenas esquecer as últimas horas traumáticas e descansar. Mas os dois novos concorrentes da Casa, apesar do ambiente tenso, tiveram que respeitar as ordens da VOZ.

    - Olá. Eu sou o João – disse o mais alto.

    - Outro João?! – gritou João P., revoltado – A partir de agora ordeno que me chamem Passinhas! É o meu apelido fino! Estou cansado de ter que usar um Pê depois do meu nome. Muitos já me vieram perguntar se eu era João Pila ou João Próstata.

    - Os meus amigos mais próximos tratam-me por Jota – respondeu o novo concorrente – Para facilitar, podem-me tratar assim.

    - Então e o que fazes tu, Jota? – perguntou Nuno – És puta? Stripper? Drogado? Ah não... espera aí. Não me digas que limpas o cú a elefantes do Cardinalli com cotonetes.

    - Na realidade sou cientista.

    Ficaram todos pasmados. Numa casa onde 90% são escumalha, eis que aparece um cientista. Suzette até sentiu a vagina imaginária a ficar molhadinha. Dava até para ensopar um rolo de cozinha inteiro.

    - Vens fazer experiências connosco? – perguntou Nuno, assustado – Como faziam aos judeus? Vens arrancar-me os olhos com a colher de pau da cozinha e trocá-los por bolas de golfe? Enfiar-me o pau da vassoura no cu para me curar as amigdalites?

    - Não… tenham calma – disse Jota – Eu não sou nenhum cientista maluco. Não vos vou fazer mal. O máximo que pode acontecer é desmaiarem com o cheiro das minhas bufas. Depois de uma experiência falhada, o meu corpo só me permite ingerir linhaça e feijão. Há festa nas minhas cuecas de cinco em cinco minutos. Com cada bujarda, fufff! Parece o fim de ano na Madeira!

    - Boa – disse João D. – Agora aparece um gajo com problemas de flatulência. O que é que falta trazerem cá para dentro? A Simara com herpes labial? Haja paciência.

    O silêncio voltou a dominar a casa. Os novos concorrentes estavam pasmados com a recepção tão pouco calorosa. Questionavam até se valeria a pena toda a apresentação. Mas, como as ordens da VOZ nunca podem ser desrespeitadas, o mais baixinho e saloio preparou-se para discursar.

    Um par de escarretas para a esquerda, um traque para a direita, palito na boca a procurar na cárie o resto do frango do almoço. O Zé Povinho ao lado parecia maricas.

    - Ora boas tardes – disse a todos – Chamo-me Tó!

    - A avaliar por esse aspecto seria uma ofensa se te chamasses Afonso – lançou Rui – A bimbalhice é hereditária ou caiu-te uma palete de azeite Gallo em cima quando eras pequeno?

    - Eu nasci assim. Sou do campo. Gosto de vinho e queijo!

    Um arroto para enfeitar a conversa. Cheirou a puré de alfarroba.

    - Infelizmente a minha loja de chouriços foi-me penhorada e vi-me obrigado a entrar na Casa da Fome para ganhar o primeiro prémio. Mas sou gente boa! – assentiu – Gosto de tratar das vacas e das ovelhas. Gosto muito da Mãe Natreza.

    - Ana Teresa é o nome d’uma prima minha, que Deus a tenha – disse Rui – Coitada, foi atropelada por uma burra. Ainda era moça nova.

    - Então quer dizer que a tua maior preocupação é a extinção do Insecto Espanador nas províncias da Namíbia? – lançou Nuno – E a constipação da galinha da Rua Sésamo?

    - Sim. Mas também estou aqui para jogar. Eu gosto muito das árvores e do ambiente e dessas paneleirices todas, mas pela minha vida sou capaz de tudo! Que se lixem os orangotantos da Sumatra! Nem que os tenha de queimar vivos e atirá-los contra vocês como bolas de fogo.

    Ninguém estava à espera de uma atitude tão agressiva por parte de Tó. O azeitola parecia ser um concorrente a temer. Soraia até se afastou alguns metros dele, levando Alexi consigo. De rojo, claro está.

    Foi ali, naquele momento, que João D. acordou totalmente do seu trauma e se apercebeu de que estava ali para jogar. Era importante convencer os dois novos concorrentes a fazer parte da sua equipa. Assim, poderia facilmente aniquilar as Estrelícias. Apressou-se a lançar a questão para o ar.

    - Já decidiram onde vão ficar a dormir? No quarto das Estrelícias? As bichonas maléficas? Aviso já que lá dentro é um cheirete a bacalhau… um horror! – disse João D. – Ou com os restantes concorrentes no quarto azul?

    Nem Tó nem Jota responderam à pergunta. Sabiam que a casa estava dividida em dois grupos, mas pareciam ainda não ter decidido em qual deles ficar.

    Mas o casal de peçonhentas, Passinhas e Nuno, apercebeu-se logo da estratégia de João D., e não tardou a fazer também a sua investida.

    - Migas! Alto e para o baile! – gritaram em uníssono – Connosco é que vocês ficam bem! Com as Estrelícias há sempre festa! Sempre glamour! Fazemos sessões de maquilhagem às segundas, às terças-feiras é o dia da reunião dos dildos, a nossa versão da reunião dos taparuéres, às quartas vemos filmes românticos do Nicholas Spark e choramos todas juntas, às quintas é dia de fitness, zumba e pilates, às sextas partilhamos experiências sexuais, atenção que o tema desta semana é rimming, e o fim-de-semana é reservado para falar mal das pessoas!

    Mas os dois novos concorrentes pareciam ainda mais indecisos. Após alguns minutos calados, a olhar tanto um grupo como outro, começaram a segredar entre si. Bastou uma breve troca de ideias para finalmente chegarem a um acordo.

    - Nós já sabemos como resolver esta questão – disse Jota – Vamos organizar um jogo entre as Estrelícias e os restantes concorrentes. A equipa que ganhar recebe-nos como aliados.

    Ter Jota e Tó como membros da equipa era importantíssimo tanto para um grupo como para outro. Quantos mais fossem, mais mortíferos seriam.

    - Tudo bem. É justo – disse Passinhas – Mas que jogo vamos fazer? Aviso já que sou médico mas sou burro como uma porta. Tirei o curso de medicina porque fui para a cama com todos os meus professores. Ainda me lembro que naquela altura tinha o rabo tão assado que até dava para fritar ovos estrelados com as paredes do meu cu.

    - Eu sou uma grande merda em tudo o que é desporto – disse João D. – Os esteroides só me incham. Sou tipo uma gaja com colagénio nos lábios. Pensas que ela é a Nossa Senhora dos Bicos e vai-se a ver e não é nada de jeito.

    - Um jogo de futebol – disse Jota – É o mais justo para todos. Todos sabem as regras do futebol. Todos estão familiarizados com este desporto. Podemos fazer o jogo amanhã, no jardim.

    - Podemos cortar as pernas do Luís e da Alexa para servirem de baliza! – disse Nuno, entusiasmado.

    - E os intestinos da Alexi fazem as linhas do campo! – disse Passinhas, aos gritinhos.

    - Então e a bola? Onde é que a arranjamos? – perguntou João D.

    - Escolhemos a cabeça mais redondinha e está feito! – disse Rui.

    As equipas reuniram-se de imediato nos seus quartos. Ficaram entusiasmados com a ideia de Jota e não tardaram a delinear estratégias e a discutir posições. Os dois novos concorrentes trataram de preparar o campo no jardim. Nem sequer deram conta de que o Concorrente Mistério, desaparecido há dois dias, tinha voltado à Casa. Como era habitual da sua parte, sentou-se no sofá durante o resto da noite e de lá não saiu.

    _________

    Faltavam poucos minutos para o jogo. As Estrelícias ainda estavam enfiadas no quarto lilás, já equipadas, a tentar convencer Zé Miguel a participar no jogo.

    - Vamos lá miga! – dizia Passinhas – Precisamos de um defesa. Precisamos de alguém que goste de partir umas quantas canelas! E eu sei que te tu és menina para isso!

    Zé Miguel continuava exactamente no mesmo sítio. Recusava-se a sair da sua concha. Até tinha urinado no local, deixando à sua volta uma pocinha de xixi, que depressa ensopou a carpete. Uma pocinha em forma de pirilau. Porra que até sem querer é bicha.

    - Eu não vou a lado nenhum. Deixem-me estar aqui quieta a fazer o luto – dizia, a chorar – Quando for a missa do sétimo dia logo apareço lá fora, toda viúva negra, de véu escuro na cara e uns Prada lindíssimos colecção Primavera-Verão a tapar as minhas lágrimas de sangue.

    Mas nós precisamos de ti para ganhar! Assim vamos ser três contra cinco! Aos dois minutos de jogo já estamos a apanhar quinze a zero! – disse Rui – E eu tenho a coluna toda apanhada e não me dá jeito fazer esforços.

    - Se quiseres, podes ser a nossa cheerleader! Eu tenho ali uma saia muito engraçada da nova colecção do Balenciaga que vai fazer pandam com o teu tom de pele. Umas alfaces nas mãos a servirem de pompons e ficas linda! – insistiu Passinhas.

    - Se ganharmos este jogo o nosso grupo fica superior ao deles! Ficamos seis bichas contra cinco cadelas amestradas! – lembrou Nuno - Vamos matá-las a todas. Depois esfolamos as desgraçadas, fritamos a pele no fogareiro do quintal e comemos como se fosse choco.

    Mas Zé Miguel nem precisou de dizer mais nada. Aninhou-se nos seus braços e continuou a fazer o seu luto. As Estrelícias perceberam logo que era impossível convencê-lo e encaminharam-se para o jardim.

    Estavam lindas. Iguais a elas próprias.

    Como nenhuma tinha fato de treino, que isso é coisa de gente pobre, tiveram que se equipar com os tutus cor-de-rosa que Zé Miguel tinha trazido do seu recital do Lago Dos Cisnes. Cada uma tinha calçado um par de sabrinas, também elas cor-de-rosa, umas meias de vidro, top pérola com apontamentos beje e lacinho lilás no alto da pinha.

    - Pensei que era óbvio que íamos jogar futebol – disse Sandro – Porque é que estão vestidas como se fossem para uma aula de ballet da Ana Pavlova?

    Riram todos na cara das Estrelícias.

    O equipamento do outro grupo já fazia mais sentido. Tinham todos t-shirts brancas, calções e ténis. Até se tinham dado ao trabalho de pintar com canetas de feltro os seus nomes nas camisolas. Sandro, que disse logo ser aquele que mais sabia sobre futebol, tinha até um sete desenhado nas suas costas. Suzette decidiu ficar como suplente, pois tinha receio de levar uma bolada nos tomates, que estavam cuidadosamente agrafados à cintura. Rafael fazia de defesa e de central ao mesmo tempo. Soraia ficou à baliza.

    - É só ir para onde a bola for, certo? – perguntou, insegura – Desculpem lá amigas, mas é a primeira vez que jogo Críquete!

    - Sim! Para onde a bola for, tu vais! - disse Sandro, cansado – A bola não pode entrar na baliza. Faz tudo o que estiver ao teu alcance para que ela não entre! Tudo!

    - O..Ok!

    Cheia de medo, tremia entre as pernas de Luís e de Alexa. Tinha umas luvas de cozinha enfiadas nas mãos, um protetor de mamas roubado dos pertences da falecida Ana e uma terrina de porcelana enfiada na cabeça.

    O crânio redondinho de Luís foi usado como bola. Cortaram-lhe as orelhas e o nariz para não atrapalhar o chuto e puseram-na no centro do campo. Até que começou finalmente a rolar, ao som do apito inicial.

    A bola começou nos pés das Estrelícias. O jogo tinha começado. E só ia terminar quando o arroz de pato que tinham posto no micro-ondas acabasse de fazer. Era esse o acordo.

    - Passa para mim! – gritou Rui.

    Passinhas até tinha jeito para a coisa. Fez uma cueca a Sandro e passou a bola para Rui, que já corria desenfreado para a baliza.

    - Bicha que é bicha tem jeito para passar coisas entre as pernas… - disse Passinhas, em tom de provocação.

    Rui apanhou a bola com o peito e parou-a no chão. Rafael nem teve tempo de reagir. A prostituta juntou toda a força que tinha dentro de si e amandou uma biqueirada na bola, que só parou na focinheira de Soraia, que acabou estendida no chão, com dois dentes a menos, já dentro da baliza que protegia.

    As Estrelícias gritaram golo. E Soraia também. Só depois é que se apercebeu de que tinha sido a equipa adversária a marcar.

    Mas o grupo de João Diogo não quis perder mais tempo. Sandro colocou a bola no meio campo, e logo após o apito chutou em direcção da baliza adversária, tentando um golo à la Beckham. Mas falhou. A bola bateu na barra e voou direitinha até ao outro lado, acertando em cheio na nuca de Soraia, que ainda se estava a tentar levantar após a biqueirada de Rui. Ficou de joelhos enterrados na lama. O “Aleluia” de fundo e dizia-se que tava a rezar o terço.

    Felizmente, a bola ressaltou e não chegou a entrar lá dentro. Rafael recuperou-a e passou para João Diogo, que tentou um sprint até à baliza adversária.

    Mas Nuno desfez o seu colar de pérolas no chão, provocando a queda do mister esteroide.

    - Oops – disse Nuno – Bem me parecia que esse colar da minha tia-avó já estava a precisar de ir ao ourives. Maldita bijuteria!

    Jota assinalou falta. Tinham agora oportunidade de marcar através de um livre directo.

    Passinhas correu logo para a baliza. Tornou-se óbvio que adorava levar com bolas nas trombas. E parecia estar pronto para defender o petardo de Sandro.

    E não é que defendeu mesmo? A bola foi ao ângulo, que neste caso era o suvaco de Luís e o ante-braço de Alexa, e o médico conseguiu afastá-la para bem longe. Tinha acabado de evitar um golo quase certo por parte do tatuador.

    O pontapé de baliza de Passinhas fez voar a bola até Rui, que fintou Sandro com as sabrinas já todas cheias de lama. Mas Rafael recuperou a bola.

    - Depressa! – gritou Passinhas – Borrifa-lhe os olhos com Chanel Número 5!

    Rui sacou do perfume escondido na cueca e borrifou mesmo em cheio na cara de Rafael, que caiu no chão, com os olhos a arder.

    A bola voltou para o domínio das Estrelícias. E a partir daí, o grupo das bichas passou a usar as estratégias mais mirabolantes para recuperar a bola quando era perdida: Punham a carpete mijada por Zé Miguel mesmo no meio do campo, o que resultou em três ou quatro quedas de Sandro, tapavam a cara das inimigas com gabardines Fátima Lopes, iam buscar os saltos agulha e ameaçavam os outros de cegueira, cantavam YMCA versão ópera estridente para despistar os adversários, e até arrancaram os olhos de Luís para distrair Soraia, que julgou que o jogo agora era ping-pong.

    - Vou já buscar a minha raquete! – dizia ela.

    A miss peixe-espada também não facilitou a vida à sua própria equipa. Marcou quatro auto-golos, meteu Alexi a substituí-la na baliza enquanto foi fazer xixi, e deixou entrar meia dúzia de bolas por ter as luvas de cozinha molhadas com Sonasol Verde.

    Após mais de vinte minutos, o jogo estava quase a terminar. E estava empatado, naquele momento. As Estrelícias, apesar de vestidas à mariconas, eram um osso duro de roer.
    Sandro rendeu-se ao domínio do outro grupo e decidiu reunir a equipa para delinear outra estratégia.

    - Tou um bocadinho tonta – disse Soraia – Já é a vigésima quinta bolada que levo hoje.

    Tinha os olhos tortos. Um aqui, outro em Espanha.

    - Mete a terrina mais para baixo para protegeres a cabeça – disse João D. – E tem cuidado não ma partas que eu tou a pensar fazer Roupa Velha para o jantar.

    Sandro pediu atenção. Já tinha pensado numa alternativa para combater as Estrelícias.

    - Vamos tocar-lhes nos pontos mais fracos. Só assim podemos vencer! – disse Sandro – Tu, João Diogo, vais criticar as cores que utilizaram nos equipamentos. Diz que leste na revista Maria da semana passada que roxo não combina com cor-de-rosa. Elas vão-se passar. Tu, Rafael, vais dizer nomes de actores porno gay para o ar, assim como quem não quer a coisa. Assim elas ficam distraídas e tropeçam na bola. Já eu… vou fazer aquilo que as bichas mais odeiam…

    Fez uma pausa para o suspense. Um olhar matador.

    - Dizer-lhes que estão machas.

    O grupo dispersou-se. Cada um ocupou a sua posição. E após o pontapé de baliza de Passinhas, começaram logo a dar uso ao plano arquitectado.

    - Tás com os glúteos inchados! – gritou Sandro para Nuno – Até com o tutu por cima dá pra ver. Daqui a nada dá para partir nozes com o teu rabo. Pareces uma machona musculada, que horror! Só te falta besuntares de barro e tás pronta pró campeonato de culturismo!

    Nuno parou de correr instantaneamente. Ficou apavorado com as palavras de Sandro.

    Puxou o saiote para cima, tirou a nádega esquerda para fora e começou a apalpá-la ao espelho, desesperada.

    - Aposto que isto foi dos pastéis de Tentúgal que comi ontem! – gritou, em pânico – O meu nutricionista bem me avisou que o doce de ovos me entupia as veias!

    A bola acabou nos pés de Rui.

    - Sempre ouvi dizer que tutu com sabrina é coisa de menina – disse João D. – Já te achava uma mulher dotada. Não tens vergonha?

    A prostituta ficou tão ofendida com a boca de João D. que acabou por chutar a bola para longe de si. Despiu o tutu e ajeitou as mamas falsas.

    A bola foi parar a Passinhas, que sozinho no campo, tentava fintar os adversários. Mas quando ficou frente a frente com Rafael, ouviu aquela que foi, provavelmente, a pior ofensa alguma vez para si dirigida.

    - Olha… - disse Rafael – Esses brincos não são Gucci. A mim não me enganas tu. Eu sei bem que os compraste na feira de Carcavelos à cigana Anita da barraca das bugigangas.

    João P. espumou de raiva. Pisou a bola e esmurrou Rafael.

    De um momento para o outro, o campo de futebol improvisado tornou-se num autêntico ringue de boxe. Eram bichas com tutus e machas em tronco nú engalfinhadas umas em cima das outras. Parecia uma fantasia sexual esquisita dentro da cabeça do Herman José.

    Até que Jota apitou e ordenou calma a todos.

    As Estrelícias, com os tutus já no pescoço e as meias de vidro todas rasgadas, pararam de rompante e obedeceram às ordens do árbitro. Pareciam ter sido assaltadas no escurinho da mata.

    - Acho que o melhor é resolver isto a penaltis. O pato já está preto dentro do micro-ondas. O que era outrora uma rodela de chouriço, é agora uma hóstia de carvão.

    Prepararam-se todos para a marcação de penaltis.

    Mas Passinhas ficou irritado com a injustiça da decisão tomada por Jota. Ele estava crente de que se o jogo continuasse, o seu grupo iria ganhar. E ele precisava de ganhar para conseguir ter mais dois aliados dentro da Casa.

    Então, discretamente, gatinhou até aos adversários que delineavam a estratégia sentados nas espreguiçadeiras, e escondido por debaixo delas sacou da lima das unhas e começou a cortar os atacadores dos sapatos de todos.

    - Quero ver se conseguem marcar golos com as botas a chinelar – dizia, a rir baixinho.

    As grandes penalidades estavam prontas a começar. Passinhas era o primeiro a tentar marcar. E não falhou. Sandro não defendeu a bola por culpa do seu sapato direito, que o fez cair redondo no chão no momento em que se preparava para saltar.

    Quando foi a sua vez de marcar, Sandro disparou um biqueiraço com toda a força que tinha dentro de si. Mas a bola não saiu do sítio. Antes de embater nela, o ténis voou em direcção ao telhado e acertou numa câmara.

    E assim foi até ao final. As Estrelícias conseguiram facilmente a vitória devido ao plano maquiavélico de Passinhas.

    - Estrelícias! Estrelícias! – gritavam Passinhas, Nuno e Rui – Nós somos poderosas! Não ligamos a opiniões! Podemos ser muito bichas, mas também temos colhões!

    Enquanto entoavam o seu grito de vitória, Tó foi logo buscar as suas malas e colocá-las no quarto lilás. As Estrelícias tinham ganho dois novos aliados.

    - Vamos Jota! – disse Passinhas – Queres que eu te ajude com a tua pochete Louis Vuitton? Ainda estou um bocado cansada mas posso carregá-la até ao quarto! Tenho muito gosto!

    Jota puxou Passinhas para um canto.

    - Eu vi o que fizeste – segredou-lhe – Eu vi-te debaixo das espreguiçadeiras, feita ratazana, a destruir os atacadores da outra equipa.

    Passinhas sorriu, atrapalhado.

    - Foi sem querer, juro! – dizia, com medo – Eu às vezes não consigo controlar o meu corpo. Acho que tem a ver com a hérnia discal que tenho nas costas. Fico toda cheia de espasmos.

    - Nunca gostei de batota – disse Jota – Por isso, não vou ficar convosco.

    E o desfecho do clássico da Venda do Pessegueiro acabou por ser o mais justo: Cada grupo ganhou um concorrente novo.

    Mas na Casa da Fome nunca há momento para festejos.

    - Migas! Alguém que acuda o Sandro! – gritou Soraia – Acho que ele se engasgou com um tomate da horta!

    Sandro tossia descontroladamente, junto à baliza, de mão ferrada na barriga, a cara branca, o corpo frio.

    - Ele está a tossir sangue – disse João D. – Tem que ser visto por um médico!

    Passinhas ouviu o que João Diogo disse. E sabia que era a única pessoa dentro da Casa que poderia ajudar Sandro.

    Mas por vingança à decisão de Jota, recusou-se a fazê-lo.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Sab Jun 10 2017, 15:26

    .

    Era altura de fazer um balanço sobre o primeiro mês passado na Casa da Fome.

    A VOZ pediu para que os 12 resistentes se refugiassem em cantos diferentes da casa, sozinhos, para durante dez minutos fazerem uma reflexão sobre os 31 dias que tinham vivido ali dentro. Este momento a sós iria servir sobretudo para organizar pensamentos e delinear estratégias, pois tal como a VOZ tinha dito há horas atrás, “estavam prestes a entrar na fase mais dura do jogo”.

    A Casa da Fome, até então, já tinha sido o palco de 5 mortes.

    Diogo foi o primeiro a sucumbir, traído pela sua estratégia de elogiar meio mundo. Ana foi a seguinte, após beber um cocktail mortal preparado por Zé Miguel, sem querer. Luís, Alexi e Alexa caíram no dia mais fatídico até àquele momento. Após a entrada de Jota e Tó, restavam 12. Doze sobreviventes que não tinham a mais pequena noção do que o futuro lhes reservava.

    - Sinto-me uma pecadora - dizia Passinhas - Já abocanhei mais esta semana do que em três anos de namoro. Tenho as gengivas cheias de aftas. Foi Deus Nosso Senhor que pôs piri-piri no esperma da outra, estou certa.

    Passinhas estava num canto do jardim, de terço enrolado na mão direita, foto da Nossa Senhora na mão esquerda, joelhos no chão, cara cerrada e olhos a lacrimejar. Confessava-se para as paredes.

    - Eu sei que o padre Américo sempre me disse que com o dedo também era pecado, mas eu não resisti - disse, a chorar - Ele tinha o olhinho do cú a latejar, parecia que piscava para mim. Como a vaselina já estava fora do prazo e a maionese tinha sido usada para fazer a salada russa do almoço, eu besuntei a pontinha do indicador na língua e prontos.

    Berrava, arrependida, a bicha.

    - Ainda por cima tinha acabado de picar uma cebola para o refogado dos bifes de peru e o coitadinho ficou com o rabo assado durante mais de uma semana. Sou realmente uma pessoa horrível.

    Zé Miguel aproximou-se de Passinhas, discretamente.

    - Psst.

    - O que é que queres ó viúva? Não vês que estou a confessar os meus pecados? Ainda nem vou a meio. Falta-me explicar ao Senhor porque é que ontem à noite me engasguei com a hóstia.

    - Era só para saber se me emprestas os teus mocassins azuis escuro que estão a mofar ali na gaveta. É que só me falta um sapato negro para fazer o meu luto, e eu sou uma lady colorida e não tenho nada pro meu pé que não seja em tons rosa choque ou pêssego.

    - Podes usá-los – disse Passinhas – Mas tira as palmilhas ortopédicas que eu comprei na La Redoute. E cuidado com o cheirete a chulé. Não quero os meus sapatos empestados com o teu odor de gorila mal lavada.

    - Não sejas venenosa. Sabes perfeitamente que cheiro mal porque não saio do quarto há uma semana. Mas agora renasci tal qual fénix e estou mais que pronta para sair explodindo em glitter e arrasar com todas as invejosas. Que se foda o espanhol. Estou pronta para a minha vingança. Estou pronta para matar.

    Passinhas interrompeu a reza e olhou Zé Miguel de soslaio.

    - O que é que a bicha tem em mente? Conte lá… - murmurou – Alguma ideia mirabolante para destruir o outro grupinho? Um plano infalível destruidor de machas? Ou tá mais uma vez armada em James Bond de salto alto?

    Zé Miguel puxou Passinhas para o quarto lilás. A bicha até foi de rojo durante mais de metade do caminho, tal não era o entusiasmo do estilista em contar aquilo que tinha planeado. Foi terço para um lado, Passinhas para outro.

    - Tem cuidado mulher que acabei de pintar as unhas dos pés! – gritava Passinhas – Todas vermelhas com apontamentos beje! E o brilhante incrustado ainda me custou cinco merréis no Boticário!

    Fechou a porta do quarto. Não estava lá ninguém. Cerrou o olhar, embutiu o ambiente em tensão e suspense. Estava prestes a revelar uma ideia espantosa.

    - Já sei como vamos matar as mitocôndrias unicelulares da outra equipa. Tive um pensamento maravilhoso enquanto arreava o calhau – disse Zé, entusiasmado – Surpreendentemente, as minhas melhores ideias surgem quando algo grande e grosso me está a passar pelo esfíncter. O meu primeiro livro foi imaginado durante uma pinada com um brazuca, sabias?

    - És muito internacional, tu – disse Passinhas – E o drama da morte do Luís? Já ultrapassaste isso? És muito rápida a sarar feridas. Qual betadine qual quê, era vender a tua saliva em frasquinhos de trinta mililitros e fazias fortuna, mulher!

    - Mas o que se passa para estares tão venenosa? O capri-sonne do pequeno almoço tava fora do prazo? – disse Zé, irritado – Eu amava aquela espanhola. Nunca vou esquecer a maneira como ele brincava com os meus tomates. Ele dizia que eram as suas castanholas preferidas. Mas passado é passado. Não me agarro a coisas antigas.

    Balançou o cabelo para um lado e para outro.

    - É hora de começar a jogar a sério. Temos que aniquilar o putedo – declarou – Reúne as Estrelícias. Faz soar o hino Super Bicha.

    Passinhas pegou em dois vibradores e roçou-os um no outro, como um reco-reco, provocando um som indígena que trouxe imediatamente as Estrelícias à casa-mãe. Tó chegou com uma garrafa de vinho na mão e Rui com uma saia travada de couro, salto alto transparente, e com um pivete a prostituta pior que a brisa de um matagal em época de bolota. Nuno atrás, passiva.

    - Estive a ensinar a pigmeia a dar o rabo em cima de pisos escorregadios – contou Rui - Despejei o balde da esfregona em cima da bancada e saltei lá para cima. Parecia a pista de gelo do Santana Parque Shopping. Mas a gaja é fina e não quis fazer nada. Diz que não quer amarrotar a camisa.

    - Se foram chamadas é porque quero a vossa atenção! – gritou Zé Miguel – Atentas ou esborrato-vos o rímel com uma galheta seca!

    - Olha tu não me levantes a voz que isso me traz más memórias – disse Nuno, emocionado – Faz-me lembrar a minha madrasta Angelova, uma búlgara banhosa com uma língua bífida. Ela fazia a vida negra ao meu pai e a mim. Até que um dia lhe ofereci um creme depilatório da Opilca e ela apanhou uma infecção nas virilhas. O meu pai diz que parecia que tinha três vaginas, tal não era o inchaço! Depois do ensaio de porrada que levei, fugi de casa e fui viver para a margem sul onde finalmente comecei a soltar a franga em noites de karaoke.

    Ninguém ousou dizer nada.

    - Bem… - disse Zé – Vamos despachar esta conversa porque eu comi o último abacate que havia cá em casa e tou aqui a arrotar que nem uma porca. Das duas uma: ou me vou vomitar toda, ou então esborrachar um cagalhão contra as cuecas não tarda nada.

    - Talvez o melhor seja decidir quem vamos matar primeiro – disse Tó – Entretanto posso-te fazer um Nestum com figos para ver se isso te passa.

    - Faz-me mas é o favor de ficares calada – pediu Zé – Eu não me quero focar apenas numa só pessoa. Acho que chegou a altura de inventarmos um plano para os matarmos a todos ao mesmo tempo. Tipo laxante. Tudo de uma vez só.

    Ficaram todos calados. Nenhuma das Estrelícias teve qualquer ideia. Tinham as cabeças tão ocas que até dava para ouvir o som do mar nos seus ouvidos. Como nos búzios.

    - Epá! Cambada de gente burra! – gritou Zé Miguel – Nem um centímetro de inteligência nessas cabeças empestadas de L’Oreal Elnett? Imaginação para posições atrevidas na cama já têm vocês! Ainda hás de me explicar, ó Nuno, que coisa era aquela que estavas a fazer em cima do Passinhas ontem à noite!

    - Era um helicóptero – disse Nuno.

    - Tá bem, mas o abajur da mesa-de-cabeceira não tem culpa. Amandas-te uma pantufada tão seca no candeeiro que a lâmpada me veio parar aos pés da cama!
    - Não toques muito no tópico posições… – lançou Rui – És capaz de ficar ofendidinha.

    - Ai é? Então porquê? – perguntou Zé.

    Rui olhou os restantes e soltou um risinho maroto. Nuno, Passinhas e Tó seguiram o exemplo, guinchando numa frequência tão alta só percetível para golfinhos.

    - Encontrámos o teu álbum Hello Kitty debaixo da colcha – revelou Rui – Estavam lá umas fotos. Umas fotos bastante perturbantes.

    - Oh Meu Deus – suspirou Zé – As fotos que eu tirei no Portinho da Arrábida para a secção Intimidades da revista Maria? Não posso acreditar.

    - Parecias uma amêijoa, toda aberta nas rochas – disse Rui – E aquela tanga da loja dos 300? Não podias ter pedido emprestada uma lingerie nos perdidos e achados do Finalmente?

    - Aquilo era uma Speedo! – gritou Zé, furioso – E essas fotos não tinham nada que ir parar às mãos de bichas bisbilhoteiras como vocês! Nem quero imaginar as sessões de masturbação que fizeram a olhar para elas! Aposto que estão todas pegajosas! Ultrajantes!

    - Amiga, mas tu estavas fabulosa! – disse Passinhas – Parecia mesmo que estavas no teu habitat. Tens a certeza de que não foste um caranguejo em vidas passadas?

    - Gozonas! É o que vocês são! Amigas merda! Vocês odeiam-me! – gritava Zé – Eu sou uma mártir, ninguém sabe a minha dor! Já me basta perder o gajo que me cutucava o cocó de há duas semanas, ainda tenho que aturar invejosinhas como vocês!

    - Estamos só na brincadeira, miss anémona 2014 – disse Nuno – Achei a sessão um luxo. Parecias uma sereia acabada de dar à costa. Eu nem tava lá, mas aposto que tresandava a pexum e marisco podre.

    - Por acaso foi na época de algas e tava uma brisa um pouco desagradável – disse Zé – E para vossa informação, andei mais de um mês a besuntar as virilhas com nívea. Maldita tanga azul deixou-me toda assada.

    - Mas a que propósito surgiu essa tua vontade de te estenderes nas rochas e fazeres aquelas figuras? – perguntou Tó.

    - Ai mulher, esta história começou nos anos 90 – disse Zé – A minha mãe era leitora assídua da revista Maria, e decidiu enviar a minha foto para o bebé do mês. Eu ganhei o Outubro com mais de cem pontos de diferença do 2º lugar! Fui o Rybak desses tempos. Fiquei famosa na revista Maria e de vez em quando costumo fazer essas photoshoots.

    - E costumas depilar-te ou vais com esse tufo de cabelo que te está a brotar da cuequinha neste preciso instante? – disse Nuno, apontando para os genitais de Zé. – Pareces a macaca fufa do Tarzan.

    - Tenho lá eu cabeça para andar aqui com uma Gillette da Bic a aparar a pentelheira… - disse Zé – Esta semana nem banho tomei, mulheres. As moscas da fruta foram as minhas melhores amigas, sempre à minha volta.

    - Então é a desculpa perfeita para fazermos finalmente aquilo que desejava desde que entrei! – disse Passinhas, entusiasmado – Depilação em grupo!

    Correu a buscar os produtos Veet, esfoliante de pipino, creme depilatório Avon, toalhita refrescante odor limão e um calhamaço de revistas Vogue e Cosmopolitan.

    - Eu posso fazer os púbicos ao Zé – adiantou-se Passinhas – Eu era muito inteligente em Físico-química no Básico, pelo que sou muito bom a mexer em micro-organismos.

    - Pois eu preciso de alguém que me rape os pelos das costas que eu não me consigo esticar tanto – pediu Nuno – Lixei a cervical com aquele maldito helicóptero.

    - Então e que tal voltarmos ao assunto para o qual eu vos convoquei? – pediu Zé – Como vamos matar aquele exército de bichas desmaquilhadas?

    - Podemos cravar-lhes os corações com os nossos saltos agulha – sugeriu Rui – Calçamos todas um par, e enquanto elas dormem e roncam que nem porcas, nós vamos lá pisar-lhes as entranhas!

    - A ideia até é boa, mas tu tens pés de ursa e eu não tenho nenhum Prada que entre nesse teu 45. Ainda não me esqueci que foste tu que me alargaste as sabrinas que a minha mãe me ofereceu no Crisma.

    - Então e que tal um choque com enguias elétricas? – sugeriu Passinhas – Eu tenho um primo que é criador. Metemos as enguias dentro da piscina e as outras jogam-se lá para dentro a julgar que são pilocas gigantes. Esfomeadas por sexo como estão, nem pensam duas vezes e mergulham logo!

    - Acho que isso não vai resultar. Mas seria um plano infalível para nos matar a nós próprias. Ainda no outro dia te deu uma tontura porque confundiste uma gamba com uma pilinha, não te lembras? – disse Rui.

    - Podemos saltar para cima delas como sapos num riacho e morder-lhes a jugular, como fazem os crocodilos. Depois cozemos o sangue em banho-maria e comemos papas de sarrabulho – disse Nuno.

    - Eu tenho os molares cheios de cáries. Se dou uma dentada numa coisa mais durinha, sou capaz de ficar desdentada. É melhor não – disse Zé.

    Entretanto Passinhas reparou numa coisa estranha nas costas do estilista.

    - Valha-me Deus, o que é isto?! – gritou, apavorada.

    - Pronto, a puta lá me descobriu o sinal de carne. Deixa ‘tar isso da mão! – disse Zé – Faz parte de mim. Nasci assim!

    Passinhas pegou em Zé e voltou as costas dele para o resto das Estrelícias, que em conjunto suspiraram, admiradas.

    - Parece um botão! – dizia uma.

    - Parece é um caroço de cereja! – dizia outra.

    - Estejam quietas! – gritou Zé – Será possível que não conseguem estar concentradas 1 minuto que seja? Será possível que não conseguimos finalmente decidir como matar as mastronças? Deixem de falar da minha aventura nas rochas e do meu sinal de carne à la Catarina Furtado!

    Fizeram todas beicinho.

    - Bem… - disse Zé – Acho que o melhor é fazer aquilo que fizeram à pobre Ana, tadita…

    O ambiente embutiu-se imediatamente de falsidade. Até ficou cheiro a mofo no ar e as luzes falharam, como num filme de terror.

    - Não sei quem terá sido o maldito que lhe pôs droga no cocktail, mas… - disse Zé – Talvez seja a forma ideal para matar o resto do gangue.

    - Vamos envenena-los como se fossem ratazanas? Que morte humilhante! – disse Passinhas – Até sinto pena. Pelo menos podemos enterrá-los no jardim e pôr um tapete persa por cima pra aligeirar a coisa?

    - Essa gentalha tem que ser tratada como merece! As ratazanas ao lado delas são rainhas do esgoto! – disse Zé, exaltado – E a dose maior vai para a piranha do musculado, que me matou a espanhola. Os olhos dele vão revirar tantas vezes que vai até parecer que estamos a ver a roda do Preço Certo.

    - Mas e o veneno? Não temos cá nada disso! – lembrou Nuno.

    - Amiga… - disse Zé – Veneno é o que não nos falta…

    E foi Estrelícia a rir que nem hiena sarnenta durante mais de 2 minutos. Só quando acalmaram a patareca é que voltaram a falar dos planos de massacre.

    - Opá, mas agora a sério… Nós nem comida temos, quanto mais veneno! – disse Tó - Ainda ontem tive que grelhar as costelas do Diogo para o jantar.

    - E o veneno para ratos foi todo utilizado pela Soraia na semana passada – disse Rui – Ela julgou que era pó de talco e besuntou-se toda naquilo. Vocês nem imaginam os bifes que lhe saltaram do rabo. Parecia o talho do meu primo Zé Pedro a uma segunda-feira.

    - E ácido sulfúrico também não há – disse Passinhas – Eu costumo utilizá-lo para desincrustar o calcário da minha serpentina.

    - E que tal uma boa dose de lixívia numa flute de champanhe? – sugeriu Rui – Era meter a garrafa no meio da cozinha e deixá-las brindar à morte uma das outras. Minutos depois ‘tavam todas estendidas no chão, a espumar da boca como se tivessem acabado de comer o pequeno-almoço na cama!

    Ficaram todas entusiasmadas com a ideia.

    - Ai amiga, que ideia de ouro! – gritou Zé, histérico – Vamos já tratar de tudo! Nem vou esperar muito mais! Essas bichas nojentas não duram até ao lanche.

    ____________________________

    No jardim, o ambiente era mais calmo. Onde não há bichas, há calma. Há harmonia. Mas curiosamente, os planos eram os mesmos.

    - É essencial que sejam todas no mesmo dia. Temos que as matar em simultâneo – disse Jota – E eu sei perfeitamente como o fazer.

    Há volta de uma espreguiçadeira, os restantes membros da casa decidiam como aniquilar as Estrelícias. Só Rafael e o Concorrente Mistério é que não fizeram parte da reunião. O Concorrente Mistério estava com uma cana a cutucar as entranhas das gémeas Alexi enquanto que Rafael afastava com uma vassoura um bando de abutres que se aproximava dos corpos de Diogo e Ana.

    - Vamos construir armadilhas anti-bicha – disse Jota – Atraí-las como se faz com os ratos. Mas garanto-vos que não vou utilizar um bocadinho de queijo.

    - Até porque já não há, né? – disse Suzette – As coisas estão a chegar ao limite, Jota. A comida é cada vez menos, o Sandro não parou de tossir sangue desde o outro dia…

    Sandro voltou a tossir mesmo à cão.

    - ‘Tás a ver! – disse Suzette – Ele está doente. Está mais branco que o cú de um inglês! Vai acabar por morrer! Ele e todos nós!

    - Tenham calma, por favor – pediu Jota – O meu plano não vai falhar. Até agora a única coisa que falhou na minha vida foi a máquina removedora de fezes, que me fez ficar com este problema de flatulência.

    Levantou a breba e peidou-se à patrão.

    - Vamos accionar as armadilhas ainda esta noite. Amanhã de manhã estão todas mortas, depois é só sacudi-las para o jardim e cremá-las com Óleo Fula.

    - Olha mas não o gastes todo que eu 'tava a pensar fritar uns pastéis de bacalhau para o fim de semana… - disse Suzette.

    - Mas afinal que armadilhas tão infalíveis são essas? – perguntou João Diogo.

    - São 4. Mortíferas. Letais – disse Jota, entusiasmado. – A primeira é para caçar o saloio. O Tó.

    - Vamos atropela-lo com um tractor? – perguntou Soraia.

    - Não, melhor que isso! Vamos atraí-lo para dentro de uma máquina de enchidos – revelou Jota – À pala da morte dele vamos comer cozido à portuguesa durante mais de 3 meses. Eu ontem à noite fiz a máquina a partir das peças do nosso frigorífico e juntei-lhe um odor a prado que o vai seduzir para lá para dentro. Com o escurinho da noite nem se vai aperceber do que acabou de fazer.

    - E para o Nuno? – perguntou Sandro, entre uns vinte mil cof cof.

    - Esse foi o mais fácil – revelou Jota – Vou meter super cola 3 dentro de uns Loubotin que vão estar pregados ao chão. Um foco de luz em cima dos sapatos e a bicha vai ficar tão encantada que não vai pensar duas vezes: Vai calçá-los, armado em Cinderela, e ficar lá preso para toda a eternidade. Depois, um de nós, vai lá com a tesoura do peixe cortar-lhe o tendão de aquiles, mesmo à bruta-montes!

    - Auch! Que sádico! – disse João Diogo – Ainda bem que ficaste na nossa equipa. Nem quero imaginar a máquina que irias desenvolver para me tentar matar!

    - Para o Passinhas também não foi preciso pensar muito. Vou espalhar purpurinas pelo chão e ele vai segui-las. Bicha que é bicha segue o brilho, e não me venham cá dizer que os Reis Magos não achavam que a estrela os ia levar a uma boate homossexual! – contou Jota – Esse caminho brilhante vai dar à casa de banho, onde vai estar um sinal a dizer “Água quente só para si, Senhor Doutor!”. Burra como a bicha é, vai despir-se toda e desfrutar do banho. Só que eu meti ácido sulfúrico no chuveiro. Em menos de 1 minuto o Passinhas é Ossinhos!

    - Então e para a rainha Zézinha? – perguntou João Diogo.

    - Vai ser perfeito – disse Jota – Vou começar por pôr a “Buleria” como música de fundo. O ritmo espanhol vai fazer com que Zé Miguel se aproxime do som. Até que chega à sala. Junto às colunas, está uma réplica em silicone do pénis do Luís.

    - Como é que tu fizeste isso? – perguntou Suzette, admirada.

    - Foi fácil. Usei o silicone das mamas da Ana e a enchi a pila do espanhol com creme de pasteleiro, para ficar erecta. Depois foi só fazer o molde.

    - E como o vais matar? – perguntou Sandro.

    - Não vos parece óbvio o que é que ele vai fazer a seguir? – disse Jota, admirado – Mal se der conta de que tem à sua frente a pila do outro, vai besuntá-la na manteiga de cacau que eu coloquei lá para esse efeito, e enfiá-la no rabo para dar umas palmadinhas na próstata. Só que ele não sabe que aquela pila, na verdade, tem dinamite.

    - Ai! Que horror! – gritou Miguelona.

    - Mal ele atinja o clímax, a fricção vai ser tanta que vai resultar numa faísca. Faísca essa que vai rebentar a dinamite. Dinamite essa que vai explodir com o cú do Zé Miguel em pedacinhos! Olha, é como dizia a minha avó: Pela boca morre o peixe.

    - Esse provérbio não tem nada a ver com a situação – disse João Diogo.

    - Epá, também não posso ser bom em tudo…

    ____________________________

    No quarto das Estrelícias, o plano também já estava em curso. Zé Miguel tinha ido buscar a lixívia, enquanto que Tó, depois de muita insistência, lá deitou fora o vinho verde que trazia dentro de uma garrafa.

    Os dois grupos estavam prontos para dar início ao massacre. As Estrelícias com a sua flute de champanhe tóxica e os restantes com as suas armadilhas letais feitas especialmente para atrair bichonas. Quem iria vencer esta batalha de cérebros?

    Assim que a noite caiu, os dois planos puseram-se em marcha.

    As armadilhas do grupo de Jota já estavam colocadas nos respectivos lugares. E Zé Miguel já tinha posto a garrafa com lixívia na mesa da cozinha, com direito a copos e um recipiente com gelo.

    No jardim, Soraia foi a escolhida, através de um sorteio com papelinhos, para ser a cobaia neste jogo sangrento. Iria entrar na casa e bater à porta do quarto das Estrelícias, atraindo-as para as suas urupucas.

    - Vais lá muito sorrateiramente e bates à porta. Depois foges! – disse Jota, pela 294834 vez – Percebeste?

    Soraia coçou a cabeça.

    - Acho que sim… - disse, insegura.

    Entrou dentro de casa muito nervosa. Caminhou lentamente pela cozinha, com ar de quem se tinha esquecido do que tinha de fazer. Até que parou.

    - Ai! Que giro! – disse, entusiasmada, a olhar para a máquina de fazer enchidos – Eu sempre quis tirar fotos nestas casinhas que há nos shoppings!

    E feita parva, abriu a porta da armadilha e entrou lá para dentro.

    - Onde é que se põe a moedinha? – dizia ela – E espero que haja flash, porque está muito escuro aqui dentro!

    Jota apercebeu-se da estupidez que Soraia tinha feito e correu para dentro da casa.

    - Ai. Parece que há aqui um botãozinho! – disse Soraia – Vou soltar o meu maior sorriso e ficar magnífica nesta foto!

    Mas antes de carregar no que quer que fosse, já estava a ser puxada pelos cabelos cá para fora.

    - Olá Jota! – disse Soraia – Tens 1 euro que me emprestes?

    - Mas em que planeta vives tu?! – gritou Jota – Não ouviste o que andámos a planear a tarde toda? Esta é a armadilha para o Tó! Se eu tivesse chegado 1 segundo mais tarde já tinhas sido transformada em mil salsichas Frankfurt!

    Soraia pôs-se de pé e pediu desculpas.

    - Concentra-te! – pediu Jota – Vai de fininho até ao quarto lilás, bate à porta e volta para o jardim! Não há nada mais simples!

    Ela voltou a pedir desculpas e tentou concentrar-se. Mas mal deu dois passos deu de caras com os Loubotin iluminados por um foco de luz cor-de-rosa, mesmo ali à frente dela.

    - Ai Meu Deus. Eu sempre quis ter uns Loubotin… – disse, entusiasmada.

    Nem pensou duas vezes. Descalçou as suas socas e preparou-se para experimentar os saltos altos mortíferos.

    Mas Rafael apareceu para a salvar. Deu-lhe uma pantufada seca nas costas e a parva da Soraia esbardalhou-se em cima da carpete, batendo com o nariz em cheio no chão.

    - Estúpida! – gritou Rafael – Por tua causa já caguei as mãos com super cola 3! Será possível seres tão burra!?

    Soraia começou a chorar. Por mais que tentasse, não conseguia fazer nada de jeito. Lá fora, todos os outros concorrentes tinham as mãos na cabeça, apavorados com a merda que a peixe-espada estava a fazer. Mas mesmo assim, ela continuou.

    Depois de colocar a cana do nariz no sítio com uma pancada forte, Soraia retomou o seu caminho. Até que finalmente estava frente a frente com a porta do quarto lilás, pronta a bater na madeira com o punho cerrado.

    Mas as purpurinas que abrilhantavam o chão distraíram-na.

    - Para onde será que este caminho brilhante me leva? – disse para ela mesma.

    E seguiu-o.

    Lá fora, Jota deu uma face palm em honra de tanta estupidez.

    Já Soraia, foi caminhando até à casa de banho, onde estava preparada a 3ª armadilha: O banho de ácido sulfúrico para Passinhas.

    - “Água quente para o senhor doutor”… - leu Soraia – Possas! Finalmente posso dar um banho de água quente!

    Lá fora, João Diogo lançou uma questão pertinente para o ar.

    - Não será melhor deixá-la morrer? Ela só faz merda! Não nos faz falta nenhuma! – disse, indignado.

    - Não sejas mauzinho! – disse Suzette.

    Solidária, a transformista correu para dentro de casa para salvar Soraia, que já tinha posto a touca para tomar banho.

    - Ai vai-me saber tão bem! – dizia Soraia – Está tão quentinha que até o chão da casa de banho já está a derreter! Ai que boooom!

    No momento chave, Suzette chegou.

    - Tá quieta! – gritou – Não te lembras de termos falado que essa era a armadilha para o Passinhas? Isso é ácido, mulher! Afasta-te daí!

    Soraia voltou a chorar. Coitadinha, não tinha culpa de ser tão estúpida.

    Entretanto o resto do grupo entrou dentro da casa, concentrando-se na casa de banho.

    - Começo a perceber porque é que tens os olhos esbugalhados! – dizia João Diogo – A estupidez é tanta dentro dessa tua cabeça que já começa a transbordar!

    - Só fazes porcaria, Soraia! – dizia Jota – Esqueceste-te de tudo aquilo que falámos durante horas no jardim? Como é que é possível?

    - És mais burra que uma porta! – dizia Rafael.

    Chorosa, Soraia fugiu para a sala e sentou-se no sofá, murmurando para si própria qualquer coisa que ninguém percebeu. Estava arrasada.

    Até que vislumbrou a réplica do pénis de Luís. E de arrasada passou a encantada.

    - Oh Meu Deus! – disse, deslumbrada – Eu sempre quis aprender a tocar maracas!

    De repente, a sua tristeza desvaneceu-se e Soraia correu para apanhar o pénis, mexendo-o freneticamente entre as mãos.

    Na casa de banho, ninguém deu conta do que ela fazia. Estavam todos a discutir sobre a parvoíce de Soraia e sobre a sua utilidade para o grupo.

    Mas ela lá continuava, a mexer no pénis, tentando sacar algum som de lá de dentro. Mas nada. E toca de mexer, e toca de apertar, e toca de o esfregar em tudo o que era sítio. Ela nem sabia o que estava a fazer.

    Até que o esfregou no sítio errado: Numa ficha tripla.

    A manteiga de cacau embutida no vibracoiso provocou um curto-circuito que acendeu uma chama na dinamite. Prontos, tava a merda armada.

    Foi aí que todos se aperceberam da porcaria nível vinte que aquela gaja estava a fazer. E o pânico instalou-se de imediato.

    - Fujam!! – gritou João Diogo.

    De repente, as Estrelícias saíram do quarto por causa do barulho e ao se aperceberem do que estava a acontecer, fugiram também lá para fora. Soraia ficou feita parva de vibrador-dinamite na mão, sem se aperceber do que tinha feito.

    - O que foi?! – perguntava ela.

    Rafael foi o único que teve iniciativa de salvar a situação. Correu para Soraia e roubou-lhe a dinamite das mãos, para a atirar para o telhado.

    Mas ele estava esquecido de que tinha as mãos cheias de Super Cola 3…

    Desesperado, fugiu para o jardim, com o vibrador-granada colado à mão direita.

    Os outros, ao verem a dinamite no jardim, fugiram para dentro de casa.

    A estupidez de Soraia tinha armado um 31 nunca antes visto.

    - Salta para dentro da piscina! – gritava Jota para Rafael – Assim a chama apaga!

    - Assopra! – gritava Soraia.

    - Faz qualquer coisa! – gritou Passinhas.

    Rafael seguiu o conselho de Jota e saltou para dentro da piscina.

    E explodiu numa bola de água gigante. Entranhas do cabeleireiro ficaram coladas nos vidros de toda a casa. Tinha-se desfeito em mil bocados.

    E furiosos, fitaram todos Soraia com o olhar mais mortífero de sempre.

    Mas ela estava era atenta a outra coisa.

    - Champomy! – gritou Soraia ao ver a garrafa de champanhe tóxico – Ai tantas bebedeiras que eu apanhei a beber isto! Vou já buscar os copos!

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Ter Jun 13 2017, 18:16

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    - Tens a certeza de que não foste trocada no Hospital por uma batata doce com braços e pernas? – perguntou Jota a Soraia – É que a tua inteligência nem se aproxima da inteligência de uma batata. Quanto mais de um saco!

    Arrasada com o temporal de porcaria que tinha criado dentro da Casa da Fome, Soraia chorava compulsivamente na sala.

    - A minha mãe sempre me disse que eu era estúpida porque tinha batido com a cabeça no lancil do passeio quando era pequenina – contou Soraia – Tinha ido comprar limões ao Feira Nova, ia a imitar a Heidi, escorreguei numa poça de lama e esbardalhei-me toda no meio do chão. Até levei pontos.

    Limpou o fio de ranho que já batia no chão.

    - É por isso que tenho olhos de espadarte. Com a pancada eles saíram das órbitras e foram parar debaixo do balcão da mercearia do Senhor Carlos. No hospital voltaram a pô-los com a ajuda de uma calçadeira e meio quilo de vaqueiro.

    Esfregou a ranhoca na manga da camisa. Parecia que tinha acabado de passar um exército de caracóis em cima dela.

    - Mas confundiram o meu olho com uma azeitona com pimento e fiquei mais de um mês a chorar lágrimas de azeite – revelou Soraia - Tiveram então que me incrustar um par de olhos vindos diretamente de Xangai. Como sabes, tudo o que é Made In China tem uma qualidade duvidosa, a modos que os meus olhos são descoordenados e nunca olham na mesma direcção ao mesmo tempo.

    Enquanto isso, olhava Suzette num canto do jardim com o olho esquerdo. O direito estava fixo em Jota.

    - E porque é que quiseste entrar na Casa da Fome? – perguntou Jota, indignado – Se ainda por cima tens a noção da tua estupidez, porque é que te inscreveste para entrar aqui?

    - Porque eu assinei a ficha de inscrição a pensar que me estava a inscrever para o Rising Star – revelou Soraia – Quando entrei cá dentro é que me apercebi de que não estava nos Ídolos. Enfim, nunca pensei que isto, na verdade, fosse o Masterplan. Estou super desapontada.

    Jota desistiu. Era impossível conversar com Soraia.

    Entretanto, e após a morte arrepiante de Rafa, as Estrelícias voltaram a enfiar-se no quarto lilás, levando consigo a garrafa com lixívia.

    - Vamos guardá-la para outra altura – disse Zé – Traumatizadas como estão, não vão querer beber nem uma pinga de álcool.

    O plano ficava assim em stand-by. No entanto, o saldo era mais que positivo para as Estrelícias. Tinham-se visto livres de um dos seus 7 inimigos. Restavam 6 para abater.

    Já o outro grupo, limpava os restos de Rafael que ainda escorriam pelos vidros da sala. O bando de abutres acabou por voltar, deliciado com o cheiro a cadáver, e o Concorrente Mistério lá os tentou afastar com a vassoura da cozinha.

    Mas esticou-se tanto no ar que acabou por rasgar o seu fato de látex na zona da barriga. E ficou à vista uma tatuagem.

    - João, olha! – sussurrou Suzette – Olha a tatuagem do Concorrente Mistério!

    João acionou os seus olhos supersónicos e minados de esteroides e fez zoom até ao abdómen do Concorrente Mistério, vislumbrando um pouco da sua tatuagem.

    - É um peixe! – disse, entusiasmado – Quem é que desenha um carapau na barriga? Este gajo deve ser mesmo fritado da pipoca.

    Ao ouvir João Diogo, o Concorrente Mistério tapou imediatamente a barriga e fugiu para a porta do jardim. A porta abriu-se e ele fugiu.

    - Mas quem será aquela pessoa? – lançou Suzette – Desde o primeiro dia que somos proibidos de lhe tocar. Ele não fala com ninguém, não se dá com ninguém, nem sequer lhe conseguimos ver a cara.

    - Pelo menos agora temos uma pequena pista sobre a sua identidade…

    Mas nem sequer deu para pensar mais nesse assunto.

    Sandro apareceu a cambalear perto do casal, com a cara branca como a cal. Parecia que tinha acabado de pintar a parede do quarto com as ventas.

    - Sandro! – gemeu Suzette – O que se passa?!

    Levantou-se para o ajudar. Deitou-o e meteu a cabeça dele entre o monumental par de mamas. Sandro teve uma erecção. Pra isso tava ele bom!

    - Estou cada vez pior, Suzette… - murmurou – Não consigo comer. Não consigo beber. Nem sequer consigo mijar. E quando vou cagar saem tufos de pó e o meu rabo arrota de fome. Estou vazio por dentro…

    João Diogo espumou de raiva. Parecia que tinha acabado de comer um merengue à javardão.

    - Alguém tem de o ajudar! - gritou Suzette – Será que ninguém tem piedade pelo Sandro? Suas bichas queima-roscas!

    Todos olharam Suzette. Até as Estrelícias. Mas ninguém fez nada. Estavam cansados e rendidos às evidências: A Casa da Fome era um jogo cruel e todos teriam de sucumbir. Não valia a pena salvar alguém que ia acabar por cair mais tarde ou mais cedo.

    - Esse Passinhas é o Belzebu! – gritava Suzette – É o único que pode salvar o Sandro e em vez disso fica ali enfiada no quarto a mandar traques pro ar e a fazer-se de desentendida. “Não fui eu que me peidei! Aposto que é dos canos!”, diz ela a toda a hora! Falsa!

    João Diogo estava cada vez mais fora de si. Não conseguia aceitar o facto de a sua amada estar tão preocupada com Sandro. Secretamente, ele desejava que o tatuador morresse o mais rapidamente possível.

    Mas Suzette mostrava um carinho por Sandro que nem ela sabia que tinha. Perante a sua fragilidade, não conseguia esconder o que sentia.

    - Obrigado Suzette… - disse Sandro – Obrigado por seres a única que se preocupa comigo. Eu sei que vou morrer… mas levo-te comigo no meu coração. É de ti que eu gosto. E lamento imenso que não me tenhas escolhido…

    Suzette também teve uma erecção. Oops.

    - Apre! – gritou Sandro – Estás-me a enfiar o joelho pela nuca adentro! É melhor mudar de posição!

    Miguelona começou a panicar. Sem explicar o que quer que fosse, amandou com a cabeça de Sandro contra o chão e desatou a correr para a cozinha, onde enfiou o abre-buceta no congelador. Só assim a tesão iria passar.

    Zé Miguel viu tudo pelo vidro do quarto, a sorrir. Parecia aqueles bulldogs bebés à venda nas lojas de animais.

    - Porque é que sorris? Não te estou a fazer cócegas – disse Passinhas.

    - Cala-te morsa – ordenou a rainha – Estava cá a pensar com os meus botões.

    - Botões? Só se for o botão do olho do cú. Tu estás praticamente nua, mulher.

    - Epá, é uma expressão. Tu és mesmo burra.

    - Mas conta lá à amiga o que estás tu a pensar tão sorridente… - pediu Passinhas – Ai há coisa que eu sei, sua marota!

    Zé não conseguia aguentar mais. O segredo sobre Suzette remoía-lhe as entranhas a toda a hora. Parecia uma ténia esfomeada.

    Pegou em Passinhas pelo braço e puxou-o para a casa de banho. Nuno, Rui e Tó estavam a jogar ao jogo da bolacha e nem sequer repararam na saída estranha dos dois socialites.

    - Tenho que contar isto a alguém. Senão faleço! – disse Zé.

    - Ai conta. Adoro segredos! – gritou Passinhas, entusiasmado – Adoro que me contem para depois ir contar a toda a gente!


    Zé pegou no mamilo de Passinhas e fez uma volta de 360º. Passinhas miou como uma gata com o cio.

    - Vais ficar bem caladinha sua mosca da fruta – sussurrou Zé – Eu sei que és uma desbocada. Sei perfeitamente que foste tu que contaste a todos onde estava o meu álbum da Hello Kitty. Eu confiei em ti!

    Passinhas não conseguia articular uma única palavra.

    - Sendo assim, e para me prevenir, vais-me contar um segredo teu – disse Zé – Assim não te vais sentir tentada a contar o meu segredo. Porque mal o faças, eu revelo a toda a gente aqui na casa o que tu me disseste. É troca por troca amiga, como na feira!

    Largou o mamilo de Passinhas que era agora uma massa espiral.

    - Ok! – disse – Eu conto! Prontos!

    Recompôs-se. Pegou em Zé e puxou-o para um canto recatado. Olhou à sua volta. Ajeitou o cateter da bexiga. Voltou a olhar. Estava prestes a contar um segredo absolutamente chocante e polémico.

    - Traí o Nuno – disse.

    Zé Miguel ficou de queixo caído. Como naquelas noites de gang bang em que chega ao fim e nem os lábios consegue juntar. Quase que lhe dá um piripaque nervoso de tão fantabulástica revelação.

    - Jura! – exclamou passados 10 minutos de estupefação.

    - Juro – murmurou Passinhas – Mas isso não é o pior.

    - Ai não me digas que foi com um preto! – disse Zé, enojada.

    - Tomara. Há anos que ando a tentar engatar o Bubacar que trabalha como anestesista lá no Hospital – revelou Passinhas – Eu queria era que ele me anestesiasse o cú com a seringa dele.

    Zé arqueou as sobrancelhas, como quem tinha acabado de pensar “Per acase…”

    - Mas o sacana do negão não me liga nenhuma – disse Passinhas, desgostoso – Às vezes ainda consigo ter um flash da piroca dele a roçar perto dos mocassins azuis esverdeados que temos de calçar lá no Hospital. Tal não é o comprimento da pistola do homem que até chega ao chão e varre o pó entre as macas!

    Suspirou, cheia de calores.

    - O pior Zé, é que foi aqui dentro – disse Passinhas – Eu traí o Nuno dentro da Casa da Fome!

    Zé ficou estupefacto. Fez um olhar de bicha-dramática e levou a mão à cabeça, como quem pensa “Ai mulher que tu tás fodida”. Zé hoje estava muito ágil a passar mensagens através de movimentos. Maricas.

    - Quando? Onde? Com Quem? – perguntou Zé, escandalizado – Mas mais importante… Foi bom??

    Passinhas engoliu em seco. Coisa que não estava habituado a fazer…

    - É claro que foi bom, achas que eu me enrolo com alguém só para empurrar o senhor castanho para dentro? Quando eu faço sexe tem que ser ao mais alto nível! – disse, orgulhosa – Olha, nem de propósito, foi na tua cama.

    Zé meteu a mão no peito e abriu os olhos, como quem diz “Não posso crer que fizeste amor em cima da minha colcha da Betty Boop!”. Ai que teatral que ela estava hoje.

    - Por isso é que eu não consigo tirar aquela mancha horrível que tenho aos pés da cama! Ando eu a esfregar a nódoa há mais de uma semana com tudo o que é produto e nada! – disse Zé, indignado.

    - Desculpa Zé, fui eu que me borrei toda – disse Passinhas.

    - Foi do muesli de mirtilos que eu te tenho obrigado a comer prá dieta? – perguntou Zé – Eu sei que aquilo dá muita soltura.

    - Foi sim miga. Ando a cagar muito bem, por acaso. Mas naquele momento não foi conveniente, como deves calcular.

    - Então e foi com quem? Revela já de uma vez por todas esse grande mistério!

    Passinhas fez suspense.

    - Foi com o Rafael – revelou.

    - Não posso crer…

    Ficaram os dois em silêncio.

    - Mas a que propósito?? – perguntou Zé.

    - Eu sei lá amiga. Ele tinha acabado de sair do duche, vinha todo fresco e encharcado, e eu saltei-lhe prá espinha assim sem pensar – disse Passinhas – Quando dei conta já estava a ser inseminada. Dois dias depois dei à luz vinte caganitas.

    - És mesmo uma grande maluca!

    - Tá calada mulher. Ando toda nervosa! – disse Passinhas, preocupado – É que depois do sexo eu ofereci-lhe o meu cockring de cristal que comprei em Las Vegas. E ele nunca mais mo devolveu. Ainda por cima agora lembrou-se de morrer, e eu não faço a mínima ideia onde é que ele o possa ter guardado.

    - Ai mas isso não é problema, eu empresto-te um dos meus! – disse Zé - Tens é que os lavar muito bem com diluente porque eu tenho uma infecçãozita à volta do saco dos tomates.

    - Eu quero lá saber dos teus cockrings! – gritou Passinhas – Não percebes que o problema é o Nuno? Já ontem ele me perguntou onde é que o meu estava. Que tinha saudades de ver a minha pila enrolada numa coisa cara. Que vou eu fazer? Já pensei em enrolar um bocado de papel de alumínio e ir prá cama com a luz quase apagada, assim pode ser que ele nem note…

    A conversa ficou por ali.

    Nuno apareceu de repente para se ir lavar por baixo e Zé e Passinhas começaram a fingir que estavam a trocar dicas de maquilhagem.

    - Rapa-me esse buço sua ursa! – dizia Zé – Pareces a chinesa da loja dos trezentos!

    - E tu já paravas de usar essa base! – disse Passinhas – Parece que esfregaste a cara na porcelana da sanita. Korror pá!


    ____________________


    Quando acordou no dia seguinte, Zé Miguel sentiu que este seria o dia de mais uma queda. O dia em que iria ser o responsável por mais uma morte.

    Não conseguia explicar para si mesmo o porquê desse sentimento. Mas sentia que aquele dia iria ser marcado por mais uma morte. E por sua responsabilidade.

    Durante a noite mal dormiu. Não deixou de pensar na traição de Passinhas a Nuno e naquilo que poderia fazer com essa preciosa informação. Embalado com a conversa, Passinhas nem sequer se lembrou que tinha revelado esse segredo em troca de outro, e nunca mais perguntou a Zé Miguel o que é que ele lhe tinha para dizer.

    Zé, mais uma vez, tinha um trunfo nas suas mãos. Seria ele capaz de prejudicar os seus amigos dentro da casa? Os seus aliados?

    Pensou durante horas durante a manhã. Até saiu do quarto e foi dar uma volta sozinho pelo jardim, enquanto o restante grupo ainda dormia no quarto azul.

    Até que viu o seu santo graal.

    O cockring de cristal de Passinhas a piscar no fundo da piscina, enrolado nos testículos do cabeleireiro falecido.

    Estava ali. Estava ali a prova de que Passinhas tinha traído Nuno dentro da Casa da Fome. Não havia mais nada a pensar. Ele tinha que agir. E mesmo sendo suas amigas, as Estrelícias eram também suas adversárias. E ele queria ganhar o jogo.

    - Nuno! Passinhas! – gritou para dentro da casa – Venham cá fora ver o arco-íris fabuloso nos ares!

    Mal o casal ouviu Zé, correu cá para fora entusiasmado. Começaram aos saltinhos a olhar para o céu à procura do arco-íris. Mas não viram nada.

    - Opá! Desapareceu! – disse Zé – Juro que estava aqui há coisa de segundos atrás!

    Nuno não demorou a reparar no cockring a piscar na água. Ficou intrigado. Desceu as escadas da piscina e entre intestinos e bocados de fígado mergulhou para apanhar o achado.

    E saiu de testículos brilhantes na mão, com a cara de ódio mais assustadora de todos os tempos. Ele tinha acabado de perceber tudo.

    Passinhas deixou o coração cair aos pés. Ficou encarnado de vergonha. E sem saber o que fazer.

    - Porque é que o teu cockring de cristal está enrolado nos tomates do Rafael? – perguntou Nuno.

    - Eu emprestei-lhe para lhe travar a incontinência! – desculpou-se Passinhas – Juro!

    - Tenho “parva” escrito na testa?! – gritou Nuno.

    - “Parva” não, mas tens uma pilinha desenhada. Deve ser obra do Rui! Vai lá zangar-te com ele primeiro! – pediu Passinhas.

    Nuno atirou o cockring para bem longe. Acabou por acertar na cabeça de Soraia que pensou que se tratava de um camarão congelado.

    - Eu vou-te matar… - disse Nuno – Vou-te arrancar a pele e comê-la frita! Seu traidor de merda! Puseste-te os cornos quantas vezes, hã? Querias brincar às touradas, é? Estavas-te a preparar para ser um forcado de Vila Franca de Xira? Foi por isso que compraste aquela cinta vermelha na Pull and Bear??

    Passinhas parecia que tinha Parkinson. Só tremia.

    - Sabes que eu sempre odiei maus-tratos aos animais, que parvoíce essa agora! – dizia.

    Nuno agarrou num braço de Rafael e atirou-o à cara de Passinhas, que ficou com meia dúzia de veias incrustadas na testa.

    - Vamos lá a ter calma, faz favor! – dizia Zé Miguel – Eu não quero que vocês se zanguem!

    - Paz e amor! – dizia Soraia – Paz e amor!

    Num instante, todos se reuniram no jardim para testemunhar a luta. Os gritos de medo de Passinhas e os de raiva de Nuno atraíram os restantes concorrentes que não se atreveram a meter no meio da bulha.

    - Vou-te fazer um teste Papanicolau com o pau da sombrinha! – gritou Nuno – Sua Diana de Gales, traidora!

    Agarrou na sombrinha do jardim e atirou o pau contra as costelas de Passinhas, que gatinhava no chão em desespero.

    - Andei eu anos a tentar salvar esta relação para agora me meteres os palitos com um cabeleireiro? – gritou Nuno – Ainda se fosse um João Rolo! Ainda se percebia! Agora aquela amostra de gente que nem umas madeixas em condições sabia fazer??

    Pontapeou as beiças de Passinhas. Saltaram dois dentes.

    - E andas aí a esfregar-te na relva para quê? Ninguém tem pena de ti! Deves-te achar a menina dos fósforos, tu!

    Agarrou-o pelos cabelos e atirou-o contra a parede.

    - Vais levar o ensaio de porrada da tua vida! – gritava Nuno, descontrolado – Vais ficar bicha zarolha de tanto murro nesse focinho!

    Esmurrou-lhe a cara.

    - Puta!

    Outro murro.

    - Heterossexual!

    Toma mais um.

    - Bicha mal vestida!

    E mais outro.

    - Metes-me nojo!

    Alto e para o baile.

    Passinhas decidiu ripostar. Agarrou o punho de Nuno no momento em que estava prestes a receber o murro 3 mil e torceu-lhe o braço. Nuno caiu no chão, cheio de dores no rádio.

    - Deves ‘tar esquecida que eu sei karaté! – disse Passinhas

    Levantou-se renascida das cinzas e meteu-lhe o pé no pescoço.

    - Quem morre hoje és tu sua barata com asas! – gritou.

    Nuno contorceu-se no chão. Parecia uma cavala acabada de apanhar.

    Mas conseguiu libertar-se antes de morrer sufocado. Ficou toda cheia de vómitos durante mais de um minuto.

    Quando recuperou do engasgo, pegou numa perna de Rafael e usou-a como espada. Tentou acertar Passinhas mas o raio da bicha tinha jeito para se esquivar.

    Também ele pegou num bocado de costela e começou a usá-la como faca.

    Após uma luta estúpida com partes do corpo, Passinhas tomou de novo o controlo da luta após uma escorregadela de Nuno no sangue, e conseguiu sentar-se em cima dele, prendendo-lhe os braços atrás das costas.

    - Olha a bicha enfermeira toda cheia de dores… - dizia Passinhas – Tavas à espera do quê, sua mal cheirosa? Não me satisfazias na cama! Depois do sexo eu tinha que me estimular com uma joaninha vibradora porque orgasmos contigo só a fingir!

    - Então e tu? Com essa amostra de pénis? – disse Nuno - Gastei ordenados em lupas para te conseguir fazer broches! Os micróbios ao lado dela eram Godzillas!

    - E tu? Deves ser muito santa!

    Esbofeteou Nuno.

    - Também me deves ter traído poucas vezes lá no Hospital, sim! Ou achas que eu não sabia que ias para a arrecadação com o oftalmologista para ele te examinar os olhos?

    - Não era com o oftalmologista! Era com o Bubacar!

    Passinhas ficou roxo de raiva.

    - Com o preto??! – disse, furioso.

    - Ui mulher, nem imaginas! De certeza que foi nascido e criado no Entroncamento! Só pode! – provocou Nuno.

    Passinhas encheu a mão e pôs o anel de rubi em posição para acertar a testa de Nuno. Quando o fez, começou a esguichar sangue da cabeça do seu parceiro.

    Mas Nuno não se ficou atrás. Após o golpe conseguiu libertar as mãos e cravou as unhas nas orelhas de Passinhas. Puxou-as com toda a força que tinha, até arrancar um bocado de carne da direita.

    Parecia uma luta de gajas em pleno recreio da Secundária.

    - Olha agora já podes dizer a todos que és a reencarnação do Vah Gogh! – disse Nuno.

    Com a adrenalina que tinha, Passinhas nem sequer sentiu a dor de ter perdido parte da orelha. Levantou-se com sangue a escorrer por todos dos lados e foi buscar a maior faca que havia na cozinha. Queria pôr um fim à luta.

    Nuno nem sequer se conseguiu levantar. Estava tonto de tanto sangue perdido. Ficou a dizer coisas esquisitas e sem sentido para o ar, do tipo “Katarsk e Haarhus nunca se pontuam no nésque”, completamente alucinado.

    - Queres no coração ou na barriga? – perguntou Passinhas – Podes escolher!

    - Quero no cú! – gritou Nuno.

    Com o resto de forças que tinha pontapeou Passinhas no estômago e agarrou a faca. Agora estava ele no comando da luta.

    Aproximou a lâmina do coração de Passinhas e lentamente começou a afundá-la. E ele finalmente começou a sentir dor.

    Mas com uma bofetada seca afastou Nuno para longe, ainda a tempo de salvar o próprio pêlo.

    Agarrou na faca perdida no meio da relva, e enterrou-a finalmente no peito de Nuno, terminando a luta de galinhas mais épica de todos os tempos.

    - Alguém me explica o que é que acabou de acontecer? – perguntou Soraia.

    A Casa da Fome estava agora reduzida a 10 pessoas.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Seg Jun 19 2017, 14:37

    .

    A morte de Nuno deixou a Casa da Fome reduzida ao TOP 10. Os 10 melhores dos 17 que passaram pela Venda do Pessegueiro. A meio do jogo mais sangrento que Aporue alguma vez presenciou, não haviam favoritos, e era impossível fazer qualquer tipo de previsão. As surpresas e os acontecimentos bizarros sucediam-se de semana para semana, e ninguém conseguia imaginar o que se poderia seguir. Nem mesmo a VOZ.

    O ponto-chave do concurso deu-se com a morte de Ana, a primeira concorrente a ser assassinada dentro da casa. O seu homicídio provocou a divisão do grupo em duas partes distintas: As bichas e as machas.

    Vamos às bichas.

    Ainda vivas estão: Zé Miguel, Rui, Passinhas e Tó. Estas magníficas criaturas atendem pelo nome de “Estrelícias”, e ocupam o seu dia-a-dia a fazer depilação às virilhas com scotch brite e a falar mal dos outros, enquanto desfilam em saltos Prada pelo quarto e experimentam vezes sem conta todo o tipo de peças de roupa, envoltas em críticas umas às outras por estarem mais gordas. O grupo é liderado por Zé Miguel, o primeiro concorrente a entrar na Venda do Pessegueiro, e o único a conhecer grande parte dos segredos dos concorrentes presentes no jogo. Zé Miguel já foi responsável pela morte de Ana, ao dar-lhe um cocktail envenenado, e pela morte de Nuno, após ter revelado a traição de Passinhas com Rafael, provocando uma luta entre o casal que ditou a morte do Enfermeiro. Está disposto a tudo para conseguir a vitória, já tendo dado provas de que não se importa de trair os seus próprios aliados. Já Rui é o mais discreto membro do grupo, e não parece muito preocupado em matar quem quer que seja, ocupando o seu tempo a partilhar as suas experiências sexuais enquanto prostituta. Tó é um saloio sem igual, que entrou recentemente na Casa, e Passinhas uma viúva negra, que vê em Zé Miguel o seu grande apoio na Casa.

    E as machas?

    São elas o João Diogo, o Jota, o Sandro, a Suzette Putette e a Soraia. Ocupam o seu tempo em tarefas isoladas, tendo cada um os seus próprios passatempos. João Diogo é viciado em esteroides, mas toda a camada de músculos esconde um rapaz bastante sensível e romântico. Ele está apaixonado por Suzette Putette desde que entrou na casa. Suzette Putette é um travesti bastante sensual, de seu nome real Miguel. Todos julgam que é uma mulher, mas na verdade, Suzette tem uma bilola musculosa no meio das pernas. O único concorrente que conhece a verdadeira identidade de Suzette é Zé Miguel. Também apaixonado por Suzette, está Sandro, um tatuador bastante tímido e discreto. No entanto, Suzette começa a namorar com João Diogo, apesar de nas últimas semanas ter estado muito próxima de Sandro. Este é o único triângulo amoroso da Casa da Fome. Também no grupo das machas está Jota, que entrou juntamente com Tó. Jota é um cientista de uma inteligência acima da média, com um problema de flatulência resultante de uma experiência mal sucedida. É ele que vai chefiar o grupo das machas e utilizar o seu poderoso QI para aniquilar as Estrelícias. Por falar em QI – Surge Soraia Pratas. Ela é a criatura mais burra e parva de todos os tempos, e desde que entrou na Casa que só faz merda, sendo responsável pela morte de Luís e de Rafael. Há quem diga que entre uma vassoura dos chineses e a Soraia não há diferenças.

    E as mortes? Quem é que caiu? Quem é que terminou a sua passagem pela casa mais mortífera do continente Aporuense? E como é que tudo aconteceu?

    A primeira morte foi de Diogo, assassinado por Rafael, que lhe atirou um cinzeiro ao alto da pinha, provocando uma forte hemorragia. De seguida foi a vez de Ana, que durante a primeira festa na Casa da Fome bebeu um cocktail envenenado, que lhe foi dado por Zé Miguel. As gémeas Alexi e Alexa morreram no mesmo dia, com poucos minutos de diferença. Uma delas matou-se sem querer, disparando na sua própria cara, e a outra suicidou-se logo a seguir. Depois foi Luís, naquela altura namorado de Zé Miguel, que foi alvejado por João Diogo. Rafael explodiu na piscina a segurar uma dinamite, e Nuno foi esfaqueado até à morte pelo seu namorado, Passinhas.

    E já tinham passado 33 dias.

    A Casa estava mais tensa que nunca. Passinhas tinha acabado de matar o seu companheiro, Soraia ultrapassava uma crise emocional devido à sua parvoíce, as Estrelícias estavam reduzidas a 4 elementos e a confiança do grupo nunca tinha estado tão tremida, Sandro cada vez mais doente, Suzette cada vez mais apaixonada e João Diogo cada vez mais irritado.

    Depois da morte de Nuno, Passinhas decidiu reunir as Estrelícias e explicar o acontecimento, tentando restaurar a confiança no grupo. Mas Rui estava cada vez com mais medo de ser traído, e Tó já segurava cinco canivetes na mão enquanto falava com Passinhas. Ninguém conseguia confiar em ninguém dentro daquele grupo.

    - Ai amigas, tenham calma! – Pedia Passinhas – Aquilo foi só uma discussãozita.

    - Discussãozita? Foi só uma discussãozita? – Gritava Rui – Tu esfaqueaste o pobre até à morte! E enquanto ele espumava da boca e pedia misericórdia, tu foste cortar-lhe os dedos um a um e ainda lhe encheste a boca com três bufas secas!

    - Ai! Eu só lhe cortei os dedos para lhe tirar os anéis. Ainda me custaram cinquenta merréis na Bijou Brigitte! – Explicou Passinhas – É que as pessoas quando morrem ficam inchadas como a Simara e depois é muito difícil tirar-lhes os anéis daqueles dedos inflados. Fiz exatamente a mesma coisa no funeral da minha tia-avó. Ou isso ou o anel de família ia para a campa com a falecida.

    Passinhas olhou as Estrelícias uma a uma, desvalorizando o que tinha acabado de acontecer.

    - Vocês não estejam tão nervosas que isso faz mal à pele das nádegas. A minha mãe era uma gaja toda sensitivo-psiquiátrica e sabem qual foi o resultado disso? – Passinhas embutiu o ambiente de suspense – Hoje em dia tem que agrafar a papada do cú à cintura.

    Gritaram todas fininho em conjunto. Os olhos abriram, em pânico. Ficaram logo confiantes em Passinhas e esqueceram o que tinha acontecido. Porque uma pele do cú saudável é a coisa mais importante para uma bicha.

    - Já me estava a imaginar a fazer sexo e a sentir a pele descaída do rabo a bater-me no umbigo. Que horror! – Gritou Zé Miguel.

    Benzeram-se todas à Nossa Senhora do Salto Alto e foram juntas para o quarto.

    No jardim ficaram os restantes, ainda apavorados com a situação terrível que tinha acabado de acontecer, e revoltados com a frieza das Estrelícias, que logo após um assassinato, estavam já no quarto a esticar o cabelo e a fazer unhas de gel, despreocupadas com o que quer que fosse.

    - Mais um para enterrar… – Diz Jota – Este jardim mais parece o Alto de São João.

    - Já estou arrependida de me ter inscrito nesta porcaria – Disse Suzette enquanto pegava nos braços do morto – Ainda por cima isto calhou mesmo em cima da estação de saldos. E o El Corte Inglês estava a fazer uma promoção choruda nas coquilhas. Dava-me imenso jeito.

    Jota olhou Suzette de cima abaixo e esboçou uma cara de dúvida. Ela apercebeu-se e tentou remediar a situação com a desculpa mais estúpida de todos os tempos.

    - Pois... É que… eu uso as coquilhas como filtro de café – Disse, nervosa – Sou cética em relação ao George Clooney e máquinas Nescafé, nem vê-las!

    Fugiu para a casa de banho entre risinhos nervosos e fechou-se na retrete.

    - Quem me ajuda a carregar a carcaça? – Perguntou Jota.

    Mas não houve voluntários. Sandro estava a um canto do jardim a tossir que nem um urso. Parecia estar prestes a cuspir um bocado do pulmão. João Diogo olhava o telhado da casa em busca de maneiras de escapar e Soraia estava junto a um vaso a comer qualquer coisa. Jota aproximou-se dela.

    - Soraia. Soraia! – Gritou Jota.

    - Ai desculpa, estava aqui distraída a comer tic tac’s.

    Jota olhou para dentro do vaso e deu um safanão nas trombas de Soraia, que se esticou toda no ar como se tivesse acabado de levar uma descarga elétrica na ponta dos pés.

    - Ai! Que foi isto? – Perguntou Soraia.

    - É para ver se deixas de ser parva! Isso não são tic tac’s, mulher! São bichos da conta!

    Soraia começou a cuspir para todos os lados. Parecia um aspersor.

    - Bem me parecia que o mentol não sabia assim – Disse ela, quase a chorar.

    Por breves segundos, Jota pensou em pegar na pá e dar pancadas na nuca de Soraia até os seus olhos saltarem. Mas depois percebeu que seria impossível tirar aquelas duas coisas enormes da caixa craniana. Mas uma vontade de a matar surgiu de repente, com uma força quase indomável.

    - Esta queima-roscas só ocupa espaço. Estava bem era morta… - Murmurou – Vou cortar-lhe a jugular com a ponta da pá. Tá decidido.

    Apertou a pá nas mãos e preparou-se para o ataque fulminante. Mas um grito de João Diogo despertou a sua atenção.

    - Já sei como vamos escapar daqui! – Gritou JD – Vamos fazer sinais de fumo! Com sorte um par de índios à solta no pinhal vem em nosso auxílio.

    - Que parvoíce… - Respondeu Jota – Só falta dizeres que queres arrancar a tripa do Nuno e escrever SOS no quintal.

    - Excelente ideia!

    Jota levou as mãos à cabeça. Estava no limite.

    - Esquece! Prefiro a ideia do fumo – Disse, irritado – Pode ser que os bombeiros apareçam e nos libertem deste jogo absurdo. Estou cansado disto.

    - E o que é que vamos queimar? – Perguntou João Diogo.

    Jota concentrou imediatamente o olhar no cadáver de Nuno. E arqueou as sobrancelhas.

    - Assim nem temos que fazer buraco no chão. Cremamos a bicha e depois jogamos as cinzas para um bule da Vista Alegre e tá feito o funeral – Disse Jota.

    Depressa reuniu as suas tropas para tratar da queimada. Ele e JD carregaram Nuno e colocaram-no em cima de umas pedras junto à piscina, Soraia ficou encarregue de ir buscar fósforos e Suzette de procurar qualquer coisa inflamável dentro da casa. Sandro não conseguia mexer uma palha, estava mais doente que nunca.

    - Pronto, já está tudo feito. Hora de dar início à cremação – Disse JD.

    - Onde estão os fósforos? – Perguntou Jota, olhando em volta.

    Pouco depois, Soraia apareceu no jardim com uma caixa de cotonetes. Jota nem deu tempo a Soraia para ela se explicar. Aplicou-lhe logo uma galheta na face, deixando a pobre coitada a choramingar ajoelhada.  

    Suzette besuntou Nuno com Álcool Etílico e pouco depois era com cada labareda, ui.

    Mas o sistema de rega foi acionado imediatamente pela produção e o fogo acabou por ser apagado.  

    - Opá! Logo agora que já me estava a chegar aquele cheirinho a frango assado que eu tanto gosto – Disse João Diogo.

    A VOZ fez-se ouvir de imediato.

    - Esta é a VOZ.

    Ficaram todos em pânico. Principalmente Jota que se endireitou logo todo nervoso, com receio de ter quebrado alguma regra da Casa, e assim estar sujeito a qualquer tipo de castigo. Era ouvi-lo a bufar-se de cagufa debaixo das calças de bombazine.

    - A VOZ tem um importante anúncio para fazer. Reúnam-se todos na sala.

    Não demorou muito para que a ordem fosse cumprida. Estrelícias e outsiders correram para a sala, ansiosos pela declaração da VOZ.

    - A Casa da Fome já teve início há um mês – Disse a VOZ – E todos vocês já criaram laços dentro da Casa. É tempo de desfazer alguns deles.

    Zé agarrou-se a Passinhas, João Diogo a Suzette e Soraia a uma esfregona Vileda.

    - Sinto que é momento de dar um twist ao jogo, tornando-o mais interessante e competitivo. É tempo de vermos quem vocês realmente são. É tempo de tirar as máscaras – Continuou a VOZ.

    Olharam todos uns para os outros. Zé Miguel, que tinha acabado de fazer uma máscara de argila para os pontos negros, começou a retira-la com um disco desmaquilhante e a lançar mau-olhado às câmaras.

    - Zé, não me estou a referir a esse tipo de máscaras. Mas sim às personagens que criaram para se manterem neste jogo. Hoje vamos realmente descobrir quem é que vocês são.

    Todos engoliram em seco, coisa a que não estavam habituados.

    - Hoje à noite vão entrar três novos concorrentes na Casa da Fome.

    - Tá tudo fodido – Gritou João Diogo – Ainda agora entrou o cientista e o saloio e já me queres meter aqui mais pessoal?

    - Não precisa de se preocupar, João. O número de concorrentes vai continuar a ser o mesmo. Isto porque os três concorrentes novos vão substituir três que estão presentes na Casa – Revelou a VOZ – Para os três novos entrarem, três de vocês vão ter de morrer.

    Era Estrelícia aos gritos que nem hiena, machas agarradas aos peitorais todas vermelhas de pânico, Sandro a tossir e a chorar, Soraia a pentear a Vileda. Ninguém estava à espera de tão terrível decisão por parte da VOZ.

    - Calma! – Gritou a VOZ, autoritária – Sentem-se, por favor.

    Após longos minutos de panique, todos se sentaram, suados de medo.

    - A escolha é vossa. Inteiramente vossa – Anunciou a VOZ – Vamos fazer de seguida uma votação para decidir quem vão ser os três escolhidos. Os três concorrentes com mais votos vão ser enforcados logo à noite, em direto para Aporue. Até fizemos uma APP que permite aos telespectadores puxar a vossa corda. Se o “SIM” tiver mais votos, morrem de forma rápida e indolor, se o “NÃO” for a opção escolhida, a corda vai-vos libertando aos poucos, proporcionando-vos uma morte lenta e dolorosa. Não é fantástico?

    - Podemos ir de capeline e vestido de lantejoulas? – Perguntou Zé Miguel.

    - Sim, podem – Disse a VOZ.

    - Pronto, nem é mau de todo.

    Não tardou para disparar o panique outra vez. Mas a VOZ voltou a falar.

    - A escolha é feita pelos grupos da Casa. As Estrelícias, por estarem em menor número, vão ter de escolher uma delas para morrer. Os outros vão ter que mandar dois para a forca, equilibrando assim os grupos para 3 cada.

    - E o Concorrente Mistério? Ainda é intocável? – Perguntou Jota, já aflito.

    - Absolutamente. Ninguém está autorizado a tocar no Concorrente Mistério.

    O homem vestido de latex encontrava-se neste momento no quarto das machas, deitado na cama.

    - Têm uma hora para decidir. Boa sorte a todos.

    Um estranho silêncio tomou conta da sala. Até que Zé Miguel se atreveu a quebrá-lo.

    - Pronto, tem mesmo de ser não é? – Disse, disfarçando um sorriso – Vamos lá decidir quem são as sacrificadas. Começo por dizer que eu não posso ser porque se me enforcam eu começo-me a bolsar toda e isso vai baixar drasticamente as audiências. Portanto, e por questão de afinidades, voto no Tó.

    O saloio atirou-lhe uma chouriça assada, manchando-lhe o robe. Zé Miguel ficou ofendidíssimo.

    - Olha, agora é que espero que morras mesmo – Disse – Nódoas destas nem com Persil. Estúpida.

    A restante votação das Estrelícias não trouxe nada de novo. Tó era claramente o membro mais afastado de todos, e Rui, Zé e Passinhas já tinham criado uma relação bastante forte antes do labrego entrar. Sendo assim, Tó ia ser eliminado do jogo. Temperar a salada ia ser mais difícil agora.

    Mas a votação dos restantes prometia ser mais emocionante. E surpreendente.

    - Voto na Soraia – Disse Sandro.

    - Soraia. Sem qualquer tipo de dúvida – Declarou Jota, confiante da sua decisão.

    - Soraia… Desculpa – Disse Suzette.

    - Soraia! – Disse Soraia.

    Depois de cinco minutos de WTF, era a vez de João Diogo votar. Estava nas mãos dele decidir qual o segundo concorrente a morrer. Soraia já estava mais que votada para a forca.

    O esteroide-mor tinha nas mãos a tarefa terrível de decidir quem ia morrer a seguir. Olhou Jota, que lhe piscou o olho e fez um movimento estranho com a boca, Suzette que lhe deu um flash de um mamilo, Soraia que apontava para ela própria pedindo mais um voto, e Sandro, que tossia sangue para todas as direções.

    - Escolho o Sandro – Disse JD.

    Suzette desatou a chorar, agarrada a Sandro. Jota respirou de alívio e fez um sinal de confiança a João Diogo. Soraia começou aos berros a festejar a sua vitória, sem ainda ter percebido que tinha assinado sentença de morte.

    - A decisão está tomada. Tó, Soraia e Sandro, vocês são os três concorrentes escolhidos para morrer. No vosso lugar vão entrar três novas pessoas. É tudo, por agora.

    - Bom… Vou atacar os enchidos – Disse Tó – Se é para morrer, que seja de barriga cheia. E no momento do enforcamento cago-me todo. Vão ficar com a casa empestada até à Final.

    Sandro nem conseguiu reagir, pois só tossia.

    - Desculpa… - Disse JD – Eu sei que sempre tivemos uma grande rivalidade, mas não foi por isso que te escolhi. É preferível ver-te partir já do que ver-te a sofrer desta maneira.

    Fez uma cara triste e de pena. E quando Suzette não estava a olhar, empinou o dedo do meio para Sandro. Depois, fez um minete no ar a uma xoxa invisível, olhando-o de soslaio.

    Soraia ainda não tinha entendido nada e ninguém lhe explicou. Estavam contentes por se ver livre dela e da sua enorme parvoíce.

    O resto do dia foi passado num terrível ambiente tenso. Ninguém disse nada durante horas. Tó embutiu-se de chouriças e bebeu vinho até vomitar para todos os lados, Sandro nem conseguiu reagir por estar completamente possuído pela tosse, Soraia continuava a achar que tinha ganho alguma coisa e esperava ansiosa pelo prémio.

    Ao cair da noite, as 3 forcas foram postas no jardim. Estava tudo pronto para dar entrada aos 3 novos concorrentes, e dizer adeus aos outros três.

    Por volta das nove da noite, o primeiro concorrente entrou. Era baixinho, parecia tímido e recatado. Mas olhou logo as raparigas da casa com ar de fome. Estava pronto para trincar um par de rabos.

    - Este vem com intenções de perder a virgindade na casa, aposto – Comentou Jota.

    - A Soraia vai morrer, a Suzette tem namorado… cá para mim vai é perder outra coisa que eu cá sei – Disse JD – Aposto contigo que daqui a dois dias já anda a besuntar nivea no rabo.

    O novo concorrente caminhou até à sala e sentou-se no sofá. E lá ficou. Ninguém falou com ele, desprezando totalmente a sua entrada. Sentiam-se revoltados por ter mais alguém dentro da casa.

    Minutos depois, entrou outro concorrente. Era mais alto que o anterior. Foi saltitando de pedra em pedra até à sala. Sentou-se ao lado do baixinho.

    Depois a última concorrente. Ou último. Foi difícil perceber. Entrou de mão no bolso, aspeto de sapatona dos anos 90, calças largas, com uma Super Bock na mão e um saco de tremoços na outra. Cuspiu três vezes para a direita, arrotou para a esquerda e sentou-se de pernas abertas na sala. Cheirou a peixe.

    E era o momento de Sandro, Tó e Soraia serem enforcados.

    Sandro foi levado aos ombros de JD e Jota, que se despediram logo dele. Suzette correu para o tentar salvar, mas a produção mandou-lhe uma seta tranquilizante e ela ficou estendida junto à piscina.

    Ele enrolou a corda ao pescoço. Sabia que era a melhor solução. E a corda subiu. E Sandro terminou a sua passagem pela Casa poucos segundos depois.

    Era a vez de Tó. Quase todos os concorrentes tiveram de o ajudar a subir até à forca, pois Tó estava totalmente embriagado e não sabia o que ia acontecer. A sua morte durou mais tempo. A corda subiu, desceu, subiu e desceu. E ele espumava da boca como se tivesse acabado de comer molotof.

    E morreu. 2 já estavam. Restava Soraia.

    Depois de longos minutos de explicação, Soraia entendeu que tinha que enrolar a corda ao pescoço. Coitadinha, pensava que era uma brincadeira.

    - O que é que vai acontecer a seguir? – Perguntou, inocente.

    - Nada, querida. Fica aí quietinha – Dizia Jota, a esfregar as mãos.

    A corda puxou Soraia para cima. Os olhos saltaram das órbitas e voltaram a entrar.

    - Ai que isto tá a doer – Dizia ela.

    Mas a corda baixou. O público queria ver Soraia a sofrer.

    - Não gostei da brincadeira. Posso sair? – Perguntou, a tossir.

    E a corda voltou a subir. E era Soraia toda contorcida a tentar escapar. E a corda baixou.

    - Socorro! – Gritava.

    E a corda subiu. E os olhos encarnados de dor. E voltou a descer.

    E foi nesse momento que o novo concorrente baixinho correu para o jardim e segurou Soraia, impedindo-a de voltar a ser enforcada. Tirou a corda do seu pescoço e reanimou a ruiva. Ninguém reagiu a esta atitude inesperada.

    - Mas o que é que pensas que estás a fazer?! – Gritou Jota.

    Houve eletricidade entre Soraia e o novo concorrente. Ainda dormente e toda babada, Soraia olhou o novo inquilino com o olho esquerdo. O direito estava sabe lá Deus onde.

    - Obrigado por me salvares a vida… - Disse.

    - De nada…

    Era amor à primeira vista. Ninguém podia negar. E um beijo apaixonado e molhado deu-se logo a seguir. Os dois estavam rendidos a esta súbita paixão.

    - Chamo-me Ivo.

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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Qua Jun 28 2017, 22:58

    .

    Pareciam duas gatas com o cio, empoleiradas uma em cima da outra, a acasalar como se a Casa da Fome fosse agora o Salão Erótico. Juntava-se a Érica Fontes ao lado a coçar a labiosa e era cobrar entradas para quem quisesse presenciar.

    Era a Soraia e o Ivo. Na sua primeira relação sexual como casal comprometido. Era meio-dia. E eles no quarto das machas a correr o kamasutra emprestado por Zé Miguel, com mais de metade das páginas coladas, mas atrapalhados pela falta de experiência. E na sala, Estrelícias e o Resto de Aporue sentados de pipocas a meio da mesa e coca-cola fresca com rodela de limão. Era um show que ninguém ousava perder.

    - Agora meto isto onde? – Perguntava Ivo, apontando para a piroquinha erecta que parecia um chupa chups de pêssego.

    - Aqui! – Diz Soraia, apontando para o buraco do cú.

    Ivo obedeceu. E Soraia, mal sentiu a bilola musculosa a desapertar-lhe o recto, fazendo “ploc”, saltou da cama como um peixe de espada acabado de pescar e ficou a contorcer-se toda de dores. Levou a mão ao cú, massajando-o.

    - Será que acertaste em alguma veia? – Diz ela – Não será melhor esperar pelo casamento? Vê lá que ainda me engravidas.

    Na sala, rebolavam no sofá a rir.

    - Epá, não acham melhor ir ali ao quarto explicar que pelo cú não se engravida? No máximo emprenhas um cagalhão e nasce-te um bebé marrom na manhã seguinte – Diz João Diogo.

    - Deixa estar. Eu quero ver no que é que isto vai resultar – Diz Zé.

    Ivo pediu desculpa a Soraia pela entrada perigosa e voltaram a deitar-se, para tentar mais uma vez o coito. Desta vez Soraia ficou por cima. Sentou-se à bruta em cima de Ivo, que gritou de dores e caiu ao chão.

    - Pronto! Já me partiste o osso da picha! – Gritava ele.

    Soraia desatou aos pulinhos, toda nervosa, sem saber o que fazer. Pediu desculpa mil vezes e foi a correr à casa de banho buscar Momendogel, para barrar na gaita do Ivo, toda torta do sentar brusco da parva da sua namorada.

    - Aquele coitado vai passar a mijar p’ra cima – Diz Suzette.

    Zé Miguel olhou-a de soslaio. E ela baixou a cabeça, atrapalhada.

    - Pareces muito entendida sobre esse assunto, Suzette Puttette – Lançou Zé. – Alguma coisa que… nos queiras contar?

    Suzette ficou vermelha como a pila inflamada do Ivo.

    - Não, nada… - Respondeu – Ora essa.

    Zé estava on fire. Nos últimos dois dias ameaçou por diversas vezes contar o segredo de Suzette, entalando-a vezes sem conta à frente dos outros habitantes. Estava a controlar o transformista, brincando com o medo dele e com o segredo que possuía. E Suzette não tinha nada para contra-atacar. Estava nas mãos de Zé.

    As mortes de Sandro e Tó não destruíram o grupo das Estrelícias, muito pelo contrário. Agora reduzidas a 3 membros, estavam mais unidas que nunca. Rui, Zé e Passinhas não dispensam a companhia uns dos outros. Já o Resto de Aporue continua disperso. Soraia e Ivo a namorar o dia todo, Jota e João Diogo sem uma grande relação, no entanto, na hora das refeições, sempre colados um ao outro, Suzette a fazer as delícias do viciado em esteróides, embora a relação esteja já tremida pela súbita paixão por Sandro, e os novos concorrentes, Selva e Miguel Ângelo, muito unidos e isolados de todos, impedidos de entrar em qualquer um dos grupos.

    E eram eles os dois, que estavam agora no jardim, bem longe do espetáculo erótico protagonizado por Soraia e Ivo.

    - Arranjas-me um palito? – Pediu Selva – Tenho aqui um bocado de bife do Sandro entalado numa cárie.

    - Palitos só lá reine! Hihihihi – Disse Miguel Ângelo.

    - Epá tu és mesmo maricas, ó saber amar.

    - Fala a sapatona-mor.

    Olharam-se de cima abaixo, todas ofendidas.

    - Ó miga. Não nos podemos chatear. Já basta estarmos afastados de todos. Temos de nos dar bem – Disse Miguel Ângelo – Não é fácil para mim conviver com um homem como tu, mas tem de ser.

    - Eu não sou um homem… – Disse Selva.

    - Tá bom, e eu não gosto que me deem pancadinhas na próstata até me mijar todo – Disse Miguel Ângelo – Vamos brincar às manas fingidas, se é isso que queres.

    - Vamos mas é brincar ao pontapé na nuca se não te calas com essas merdas.

    Selva era um homem autêntico. Miguel Ângelo tinha razão. Barrava-se um bocado de creme de espinafres no focinho e parecia o Hulk. Super musculada e com roupas de homem, botas da tropa, lenço na cabeça, e ar de quem estava prestes a dar um ensaio de porrada a qualquer um.

    Miguel Ângelo era o antónimo. Esguio, roupinhas justas, parecia que bastava um espirro forte para o projetar no ar a uma distância de cinco hectares. E chato. Muito chato.

    - Queres ouvir uma história sobre um evento super aleatório da minha vida, que eu vou relatar com um entusiasmo incrível, mas que na verdade, não tem qualquer interesse e ninguém quer saber? – Disse Miguel Ângelo aos pulinhos.

    - NÃO! – Gritou Ana Selva – Fodasse, é a quinta vez em menos de uma hora que tu vens com essa conversa! Não me interessa se tens um professor que tem um filho que parece o Rogério Samora! Eu não estou aqui para fazer amigos! Ponto final.

    Deu uma escarreta do tamanho de um limão para a direita.

    - Estou aqui para ganhar o prémio. Deixa só isto chegar ao ponto crítico e vais ver o que é rebentar cabeças só com os polegares.

    - Eu já rebentei muitas cabeças com os polegares.

    - Não são cabeças da picha. São cabeças a sério. São as cabeças daquele pessoal, ali – Disse Selva, a apontar para a sala – Vou matar aquele putedo quando menos esperam. Estou aqui para jogar a sério, ao contrário de ti que só se inscreveu para tentar entrar no clube das Estrelícias.

    Mal ouviu “Estrelícias”, Miguel Ângelo simulou uma tontura, à la drama queen.

    - Ai! Estrelícias! – Gritou fininho – O meu sonho é fazer parte daquele grupo de divas fabulosas! Eu e os meus amigos assistimos à Casa da Fome todos os dias e somos grandes fãs delas! Imagina só que até fizemos umas canecas muito engraçadas com a cara do Zé Miguel e a frase “Got Milk?”. Até trouxe umas quantas na mala! Queres uma?

    - Só se for para ta enterrar na cabeça.

    - Quero tanto que elas me escolham para ser o quarto elemento! Ah, e quero ser a água, porque ‘tou sempre toda molhada.

    Selva deu uma chapadona a Miguel Ângelo. Saltaram dois ou três dentes. E os óculos voaram e partiram-se no chão.

    - Já me fodeste a tromba toda – Disse a bicha.

    - É para ver se aprendes a ser homenzinho – Disse Selva – Só te vou dizer isto uma vez, por isso está atento.

    Aproximou-se do Delfim.

    - Aquelas Estrelícias são umas putas dumas falsas. Perigosas. Não podes confiar nelas. Eu tenho assistido com atenção à Casa da Fome e sei bem que foi o Zé que provocou a morte da Ana. Assim como a do Nuno. E a morte do Tó também! Ele aniquila os seus próprios aliados…

    Mas isso não tirou da cabeça de Miguel Ângelo a ideia de entrar no grupo das Estrelícias. No entanto, era quase impossível, pois elas, tal como os outros concorrentes, recusavam falar com os dois novos habitantes da casa, como se quisessem manter distância e não criar laços, podendo depois matá-los sem peso na consciência.

    Após desistirem de perder a virgindade juntos, Soraia e Ivo juntaram-se ao restantes na sala. A VOZ, imponente, ordenou a um dos concorrentes que fosse ao confessionário.

    E foi ao final da tarde que o participante mais polémico e perigoso do jogo, Zé Miguel, foi chamado ao confessionário, onde se iria dar um dos momentos mais cruciais do jogo.

    Zé falou com a VOZ, relatando o que tinha acontecido nos últimos dias, e quando se preparava para sair do Confessionário, foi surpreendido por uma passagem secreta, mesmo abaixo do sofá, completamente aberta. Bicha curiosa como é, abaixou-se, como sabe bem-fazer, e gatinhou pelo corredor secreto, que foi dar a uma das salas da produção.

    A sala estava coberta de televisores, que mostravam todos os cantos da casa, e de várias mesas de controlo. Era ali que tudo acontecia.

    Mas a sala estava vazia. Completamente vazia.

    Zé não hesitou. Sentou-se numa das cadeiras e começou a investigar os vários papéis que estavam espalhados por cima da mesa. E não foi preciso procurar muito para encontrar o papel que lhe estava prestes a dar informações exclusivas e absolutamente secretas sobre o jogo. O papel tinha um título a vermelho. E dizia o seguinte,

    “OS 11 COMPRIMIDOS – DIA 35

    Vai ser dada, aos concorrentes, uma caixa, na noite de dia 35. Nessa caixa encontram-se 11 comprimidos, de 11 cores diferentes. Vai ser dito aos concorrentes que 1 dos comprimidos está envenenado, e que outros 10 não passam de analgésicos. Cada concorrente deve escolher 1 comprimido e tomá-lo.

    O comprimido com veneno é o Laranja.”


    Zé enrolou o papel no bolso e voltou à casa. E agiu, até à noite, como se nada tivesse acontecido. O que iria Zé fazer com esta preciosa informação?

    _______________________________


    A VOZ fez-se ouvir. Explicou tudo. Os comprimidos, 1 deles envenenado, a sentença de morte traçada para alguém. Mas quem iria ser? Só a produção e Zé sabiam. E durante toda a tarde, Zé não disse nada. Não fez nada. Não falou com ninguém. Ficou no quarto das bichas a planear tudo o que iria fazer, escolhendo no seu íntimo a sua próxima vítima.

    A produção explicou que a escolha dos comprimidos era feita pelos próprios concorrentes. Mas ninguém se atreveu a mexer neles. Ficaram todos com medo de escolher o mortal.

    João e Suzette estavam junto à caixa, a olhar as 11 diferentes cores.

    - O que faço, amor? – Perguntou João.

    - Com a quantidade de químicos que tens no corpo, acho que não tens que te preocupar com isto. Enfia os 11 na boca que o teu organismo resiste – Ripostou Suzette.

    Ambos pegaram num comprimido. A traveca escolheu o vermelho. João pegou no laranja. Mas trocou-o à última da hora pelo azul. Estavam os dois salvos.

    Soraia e Ivo pouco se importavam. Estavam enrolados no sofá junto ao jardim a fazer a dança da língua epilética. Miguel Ângelo e Selva ficaram a pensar em conjunto na sala, Jota às voltas na cozinha, desesperado, e Rui a olhar para a caixa. Zé foi o terceiro a escolher. Guardou na sua mão o comprimido lilás, dizendo em voz alta “Esta é a cor do meu teletubbie favorito, não me vai falhar”.

    Depois foi Rui. Decidiu deixar a sua sorte para o destino e fechou os olhos, escolhendo o castanho. Passinhas, após longos minutos de indecisão, pegou no branco. Selva no verde. Miguel Ângelo no amarelo e Ivo no preto (que puta de coincidência).

    Restava Soraia, o Concorrente Mistério e Jota. E o comprimido laranja, cor-de-rosa e roxo. Um destes concorrentes ia escolher o comprimido com o veneno.

    E Soraia foi escolher o seu. Ela pensava que se tratavam de ursinhos.

    - Ai que giro! Adoro gomas! – Disse, entusiasmada – Não sei qual escolher, posso comer as três?

    - SIM! – Gritou Zé Miguel – Come todas. E nós até te oferecemos as nossas.

    - Ouve lá, ela pode ser um bocadinho burra mas eu não sou – Disse Ivo, defendendo a sua amada – Querida, Soraia, tens que escolher um. Só um para ti.

    - Oh que pena! – Disse ela – Talvez escolha aquele que tem o meu sabor favorito. Qual é o sabor deste amarelo?

    - O amarelo… hum… o amarelo é sabor a mijo de gato! – Lança Zé Miguel – Um horror. Descalcifica-te os dentes e deixa-te a língua dormente durante semanas.

    - Ai, então este não! – Disse Soraia – E a que sabe o roxo?

    - Sabe a vinho – Disse Zé – Ainda por cima daqueles do LIDL, que são feitos com uvas podres e excrementos de vaca para dar um travo a madeiras.

    - Ai! Eu adoro vinho! – Grita Soraia – O meu favorito é o Kongsgaard Chardonnay Napa Valley, que passa dois anos em processo de fermentação! É uma bebida forte e encorpada que traz uma gama de sabores marcantes.

    Ficou tudo de queixo caído.

    - Quer dizer, tu és parva ao ponto de meter o dedo na tomada a pensar que são restos de oreo, mas és especialista em vinho… - Disse Rui – Já chega de surpresas que agora fiquei toda assustada.

    Zé Miguel ficou com um melão enorme nas trombas. E a cara vermelha de ódio. Parecia que tinha acabado de fazer o teste papa nicolau.

    Agora sobravam dois comprimidos e dois concorrentes. Jota disse que queria deixar a sua sorte nas mãos dos outros, deixando-os escolher primeiro.

    E o Concorrente Mistério foi à caixa e escolheu o amarelo sem hesitar um segundo. Jota tinha assim ficado com o laranja. Era ele. Não havia escapatória.

    Todos tomaram os comprimidos em conjunto. Despediram-se uns dos outros, e ficaram sentados na cozinha, à espera do efeito, para descobrir então quem tinha sido o pobre coitado vítima do esquema da produção.

    Zé fixou os olhos em Jota, que roía as unhas de nervos. Estava à espera que ele explodisse e se desfizesse em merda pela casa toda. Mas nada acontecia.

    E nada aconteceu durante uma hora.

    - Epá, sinto-me bem – Disse Ivo – Acho que tomei um analgésico. Tou salvo!

    - Pois e eu à bocado tava a sentir uma dor no cú e agora já não sinto! – Disse Miguel Ângelo – Também acho que a mim me calhou um dos 10 analgésicos. Obrigado VOZ!

    Jota tossiu. E Zé saltou da cadeira com entusiasmo. Mas nada aconteceu depois.

    E Jota espirrou. E Zé achava que ia ser desta. Mas parece que afinal era só uma constipaçãozita.

    - Maldita gripe, apre! – Disse Jota.

    Zé revoltava-se no lugar. Queria que ele morresse. Mas nunca mais acontecia nada. E o tempo passava. E nada acontecia. E as horas iam passando. E todos ainda vivos.

    - Cá para mim acho que era tudo mentira – Disse Rui – Tá tudo óptimo. A Suzette, o João Diogo, os dois novos, o Mistério, o Zé, a Soraia e o Ivo, e o Jota também…

    Zé saltou da cadeira em pânico.

    - E onde está o Passinhas?! – Gritou.

    Começaram todos a correr pela casa à procura do médico.

    Ele estava estendido junto à casa de banho, com a cara encarnada e uma poça de cuspo à volta. Parecia um charroco morto.

    - Ai merda que me morreu mais um dos meus! – Gritou Zé Miguel – Mas não era suposto isto ter acontecido! Como é possível?!

    Pontapeou o corpo de Passinhas, enervado.

    - Olha, mais respeito pela falecida – Avisou Rui – É que ela ainda nem tá fria.

    - Quero lá saber se está fria se está quente ou se está morna! – Gritou Zé – Ele tomou o branco. O branco! Esse não estava envenenado! Não era esse!

    Começou a chorar junto à poça de cuspo. Os outros concorrentes pegaram no corpo de Passinhas e levaram-no para o jardim, amontoando-o em cima dos outros cadáveres como se fosse uma galinha morta.

    Zé correu para o quarto para ver o papel roubado à produção, e ter assim a certeza de que tinha visto bem. Não fosse a miopia da bicha ter-lhe pregado uma partida.

    Mas estava certo. O texto indicava que o comprimido envenenado era o laranja. A produção tinha trollado o Zé à força toda.

    - Quando acabar de matar estes todos vou tratar de vocês – Disse Zé para a câmara.

    Limpou as lágrimas e preparou-se para rasgar o papel. E foi aí que se apercebeu de que se tratavam de duas folhas coladas. Despegou-as uma da outra com cuidado.

    - As fotos de todos os concorrentes… - Disse Zé.

    Era isso que a folha escondia. As fotos de todos os participantes da Casa da Fome. Incluindo aquele que nunca ninguém conseguiu ver.

    Zé petrificou. Ele tinha acabado de descobrir a identidade do Concorrente Mistério.

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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jul 16 2017, 17:22

    .


    Zé não era de baixar os braços. E a única vez que foi abaixo na Casa da Fome foi após a morte da bicha espanhola. E a inesperada morte de Passinhas passou para segundo plano logo após descobrir quem era o Concorrente Mistério.

    - Não posso acreditar que é o *****! – Murmurou – Não posso acreditar! Nunca pensei que fosse ele! Não é possível! Nunca me passou pela cabeça…

    Enrolou o papel e enfiou-o na mesa-de-cabeceira, escondido entre duas tangas elefante e três caixas de manteiga Matinal vazias, que costumava usar para barrar os paus da vassoura em noites de solidão.

    - Esta casa é muito mais perigosa do que eu julgava. Vou ter que falar com o Rui para nos mantermos atentas. Bichas unidas jamais serão suprimidas.

    - Vencidas – Corrigiu Rui, ao entrar no quarto – Sempre a mesma tola nos provérbios.

    - Epá, para mim mão mole em picha dura tanto bate até que ejacura.

    - Ejacula – Corrigiu Rui – Tão burra a bichinha. Vê-se mesmo que tirou a quarta classe na parte de trás do Nestum D’Arroz.

    - Daqui a nada tás é a levar com uma bisnaga de Fenistil memu no canto do olho. Sabes que eu odeio que me corrijam. Sou bicha perfeita, não sou nenhuma revendedora da Opilca com unhas encravadas e marcas de suor na zona das axilas.

    Rui sentou-se na cama de Zé, agarrou as mãos dele e olhou-o nos olhos. Parecia nervoso, prestes a revelar alguma coisa. E Zé já com a cloaca a pulsar de nervos. O que ia sair dali?

    - Olha Zézinho… - Disse Rui – Temo que tenha chegado o fim das Estrelícias.

    - Como?! – Perguntou Zé, engasgado – Ainda tamos as duas vivas, acalma-te lá.

    - Primeiro foi o Nuno. Depois o Tó. Agora o Passinhas. Não sei se vamos durar muito mais tempo. As Estrelícias foram um fracasso e eu não estou disposto a correr riscos aqui dentro. E apesar de gostar muito de ti, prefiro sair do grupo e enfrentar o resto do jogo sozinho. A minha tia-avó deixou-me um tapete persa lindíssimo como herança e eu não o quero desperdiçar.

    Zé atirou o kit unhas de gel em direção a Rui, que ficou com uma nail embrechada na cabeleira postiça.

    - Traidora! – Gritava – Puta! Sua quebra-bilhas! Mal as coisas ficam difíceis foges toda cheia de medo de rabo enfiado no meio das pernas, como se estivesses aflita para arrear o calhau! És uma fraca tu! Cheiras a anémica! Olha pra essa cara toda branca. Vai tomar umas vitaminas, mulher! Olha há Centrum na despensa a chamar por ti! Corre!

    - Tem calma, Zé – Pediu Rui – Podemos sempre ficar amigas fórévére.

    - Amigas? Pfffff! A mim quem me vira as costas ou é para me mostrar a etiqueta da capeline ou para me deixar para sempre! Eu não dou segundas oportunidades!

    Começou a atirar as roupas de Rui para fora do quarto lilás. Era todo o tipo de produtos a voar pelos ares. Parecia a época de acasalamento das andorinhas.

    - Olha o diluente que tu usas para tirar a maquilháge! Toma!

    Atirou a lata em direção a Rui, que se desviou a tempo de levar com ela nas trombas.

    - Caredo, olha estes top’s dos chineses todos comidos das traças. Não tens vergonha? E estes tacões falsificação Ralfe Laurene, com mordidelas de ratazana? Pensava que as putas ganhavam bem, rapariga!

    - Olha já chega, não? Já te esqueceste que sempre estive ao teu lado?

    - Como poderia esquecer? O teu cheiro perdura, amor. Ainda hoje tenho que lavar a parte direita do corpo com Neo Blanc, mas mesmo assim o cheiro a catinga fica aqui entranhado. Lava-te mas é! Olha, toma!

    Atirou-lhe um Vasenol mesmo pras mamas.

    - Ai puta qu’éssa doeu! Vou ficar com um hematoma! – Gritou Rui.

    - Com dois!

    Atirou-lhe um acondicionar pêra-abacate em direcção à tomateira.

    - Pronto, tás estéril! – Gritou Zé - Também quem é que ias engravidar? Nem a Linda Reis enfrascada de Absinto te deixava ser pai do filho dela.

    - Estás a passar dos limites, Zé Miguel! – Gritou Rui.

    - Isto é que é passar dos limites!

    Pincelou a pochete da Prada de Rui com verniz Verde Esmeralda.

    - Agora já posso dizer que eu sou Prada e tu és nada – Disse Zé, a rir.

    Rui espumou de raiva. A parte macha subiu-lhe à cabeça e sem prever, já estava a apertar o pescoço de Zé, que continuava a rir e a falar engasgado.

    - Miga, eu sou como as baratas! Vivo bem sem cabeça! – Dizia.

    Até que Rui desistiu. Não queria sujar as mãos. Sim, porque Zé tinha o pescoço cheio de base Avon e aquela merda deixava as mãos todas pintadas.

    - É o melhor para nós dois! – Gritou Rui – Não vou voltar atrás na minha decisão. Boa sorte, Zé Miguel. Adeus e passe bem.

    Zé atirou o resto das coisas de Rui para fora do quarto, enquanto gritava frases ofensivas, como “Tu não és assim tão bonita”, ou “Aquela saia de ante ontem ficava mal com aqueles sapatos”.

    E Rui foi embora.

    Zé estava sozinho. Completamente sozinho. O quarto lilás vazio, e ele no meio da divisão, de joelhos, a olhar desesperado à volta. As Estrelícias tinham chegado ao fim. O projeto que formou foi um fracasso. Perdeu Luís. Nuno. Tó. Passinhas. E Rui. Restava ele. Só ele. Mas ele sabia que ainda não era a altura para ser o único. Ele precisava de alguém para o ajudar a aniquilar os adversários. Mas quem?

    A resposta bateu à porta.

    - Está tudo bem, senhor Zé? – Perguntou Miguel Ângelo – Assistimos à discussão. Posso ajudá-lo em alguma coisa? Quer um chá de maça reineta com um pauzinho de canela, purpurinas de amor e um toque fresco de harmonia?

    Zé não precisou de pensar duas vezes. Miguel Ângelo ia ser a sua preciosa ajuda. Desesperado como estava para se juntar às Estrelícias, não ia hesitar em aceitar o convite.

    - Entra, fecha a porta e senta-te – Pediu Zé.

    Miguel Ângelo obedeceu. Passiva até dizer chega.

    - Vais ser o meu aliado – Disse Zé – Não te querias juntar às Estrelícias? Tens aqui a tua oportunidade.

    Após 15 minutos de histerismo, saltinhos em molas invisíveis, vinte litros de choro e outros tantos de xixi-entusiasmo, Miguel Ângelo voltou a sentar-se junto a Zé para ouvir as indicações do estilista.

    - Estás disposto a fazer tudo o que te pedir?

    - Então não estou! Faço tudo senhor Zé – Prometeu Miguel Ângelo.

    - Muito bem. Vamos então ao teu primeiro teste.

    Apontou para o jardim.

    - Estás a ver aquela caixa junto à porta de saída? Aquela caixa tem os últimos alimentos da Casa. Alguma fruta e legumes, e outras coisas básicas. É a única comida que temos aqui em casa, mas o outro grupo guardo-a toda ali e não nos deixa tocar lá.

    - Quer que eu roube a caixa?

    Zé passou a mão pelo cabelo de Miguel Ângelo.

    - Lindo menino…

    A parva da bicha submissa não perdeu tempo. Correu para o jardim, pegou na caixa e voltou para o quarto lilás, fazendo toda a operação com uma suavidade tão grande que ninguém deu conta do que tinha acontecido.

    - Estás aprovado – Disse Zé Miguel – Agora vira o rabo para mim para eu fazer o ritual de iniciação.

    Pegou no ferro de esticar o cabelo e trincou o forro dos colhões de Miguel Ângelo.

    - Agora és oficialmente uma Estrelícia.

    Zé tinha finalmente achado aquilo que mais desejava: Uma escrava.

    _____________


    Rui descobriu, imediatamente após ser expulso do quarto lilás, que a sua vida na Casa da Fome não ia ser fácil. Ele, no fundo, quis sair das Estrelícias para se juntar ao outro grupo, onde achava ter mais hipóteses de triunfar no jogo; mas cedo percebeu que não existia grupo algum.

    Os dois casais estavam por conta própria e sobravam Jota, o Concorrente Mistério e Selva, que continuavam a jogar sozinhos.

    Ficou então sentado no sofá da sala, sem saber o que fazer. Jogar sozinho nunca foi uma opção. Ele queria alguém que o pudesse apoiar. Um aliado capaz de o levar até à Final.

    - O Zé Miguel deu-te um pontapé no rabo? – Perguntou Jota – Já estava na altura de deixares aquela centopeia sozinha.

    - Se vieste aqui para gozar comigo, paga primeiro. Ninguém goza comigo sem deixar a nota em cima da mesa – Pediu Rui – Senão, vai-te embora. Não tenho paciência.

    Jota sentou-se junto a Rui.

    - Eu tenho estado atento às manobras daquele gajo. Porque achas que fui o último a escolher o comprimido ontem? Eu sabia que ele tinha mão naquela merda. E a morte do Tó? Totalmente influenciada por ele. Ou vais-me dizer que escolheste o Tó por vontade própria?

    - Na verdade eu sempre odiei o Zé… - Revelou Rui – Ainda por cima ele tinha a puta da mania de me calçar os Loubotin menta todas as noites. Alargou-me os sapatos com aqueles pés de gorila. E os três pares de socas que trouxe praqui pra dentro? Tudo a chinelar, nem para matar moscas servem.

    - Foi até agora a decisão mais inteligente desde que aqui estás. Ele merece ficar sozinho – Disse Jota – Mas boa sorte. Jogar sozinho na Casa da Fome exige cabeça.

    - Cabeça é coisa que não me falta, miga…

    Soraia passou pela sala, com a mão na boca, toda cheia de vómitos e a gritar “A minha boca quer cagar! A minha boca quer cagar!”. Ivo ia atrás dela, assustado.

    - A coitada da peixe-espada teve sorte em encontrar o amor dentro da Casa. Não fosse o anão e ela já tava morta – Disse Jota – Jogar sozinho é para gente inteligente.

    Uma potente troca de olhares deu-se entre Jota e Rui. Mas foi interrompida por uma bufa.

    - Oops – Disse Jota – Este é capaz de feder. O cozido caiu-me mal.

    Outra troca de olhares intensa. Desta vez, nem bufa nem peido foi suficiente para interromper o momento íntimo e misterioso que se dava entre Rui e Jota.

    - As tuas bufinhas cheiram a fiambre… - Murmurou Rui – Há qualquer coisa… qualquer coisa em ti que me atrai. Não sei se é a careca a reflectir a imagem do plasma ou a barba que te faz parecer primo irmão do esfregão da cozinha.

    - Nunca pensei dizer isto, mas sinto-me pronto para fazer amizade com uma pessoa de segunda – Disse Jota – Acompanhas-me ao almoço? Podemos falar e trocar experiências, mas não digas a ninguém.

    Aproximou-se do ouvido de Rui.

    - E se te perguntarem se sou eu… - Segredou Jota – Dizes que não…

    Quase surgiu um beijo entre os dois. Vontade não faltou.

    - E que tal convidar o João Diogo para o almoço? – Perguntou Rui.

    - Epá, isso já seria coincidência a mais.

    ___________


    No alpendre, Suzette e João Diogo trocavam informações secretas através de baba, apalpões e gemidos intensos de prazer.

    - Não te cansas de me beijar? – Perguntou Suzette – Tenho os cantos da boca todos assados. E nem foram à chapa.

    - Por acaso até canso. Queria-te escarafunchar o mexilhão, mas tu não deixas – Disse JD.

    Suzette ficou atrapalhada.

    - Pois eu sempre te disse que não gostava que me fizessem oral. Acho uma nojeira andar ali a chafurdar na peçonhenta. Parece que tás a comer um papaia com as mãos atadas atrás das costas.

    - E nunca a vi, também… - Disse João Diogo – Às vezes penso que poderás ter alguma coisa que não me queres mostrar. Tens uma micrópila acoplada ao grande lábio? É isso? Ou não me digas que tens duas vaginas? Um preta e uma branca?

    Suzette levantou-se, nervosa.

    - Que parvoíce! Deixa-te dessas coisas! – Gritou - Tenho uma vagina como outra qualquer! Lindíssima, rapada. Perfeita! Até já fui fotografada para o calendário vaginal do Consultório de Ginecologia de Samora Correia.

    - Então mostra-me! – Ordenou João Diogo – Já estamos juntos há mais de um mês. Não achas que mereço ver? Tu até já deste nomes aos pentelhos do meu buraco do cú! E eu a ti não posso nem arredar a tanga pro lado.

    - Se estás assim tão insatisfeito, porque é que não me deixas? Olha, junta-te àquela!

    Apontou para Selva.

    - Tão bem um para o outro. O casal proteína! Melhor impossível!

    Foi ali que João Diogo viu pela primeira vez Selva. Com olhos de ver. Os seus músculos inchados, marcados na camisa justa. As mamas musculadas, de onde por vezes esguichava leite gordo da Parmalat, os dedos grossos pila de preto, os bíceps a brilhar, os gémeos a pulsar a cada passo, a cara de bicho mau que era capaz de matar alguém só com um sopro. E uma tímida ereção surgiu. Sim, porque o material de JD era salsicha nobre júnior all the way.

    - Eu nunca tinha reparado naquele pedaço de mau caminho… - Murmurou João Diogo – Ai que vontade de lhe saltar à espinha e de sentir os abdominais dela a roçar no meu prepúcio…

    Depois olhou para Suzette. E para Selva. E para Suzette. E para Selva. Foi naquele momento que desejou ser Soraia para poder olhar para as duas ao mesmo tempo.

    - O que se passa? Estás indeciso? – Perguntou Suzette – Não sou gaja de ficar com gajos que gostam de outras. Ou andas comigo ou vais ter com a ogre da Selva. Afinal de contas isto é um jogo e não estou para merdas.

    A relação de Suzette e João já não era a mesma há algum tempo. A tensão instalou-se com a paixão súbita de Suzette por Sandro, e o casal estava por um fio.

    Mas JD decidiu dar uma última oportunidade à traveca.

    - Quero-te a ti – Disse João Diogo – Mas com uma condição. Amanhã deixas-me comer-te a pachacha. Com faca e garfo e direito a molho.

    Suzette mordeu o lábio. Que outra opção tinha? Ela gostava de JD, não o queria perder.

    - Ok. Combinado.

    O que vai Suzette fazer para simular uma almôndega cabeluda? Nem ela sabia…

    ________

    No quarto lilás construíam-se planos. Zé estava a contar a Miguel Ângelo todos os seus segredos, incluindo o facto de ter uma coleção de matrioshkas na casa de Cascais. Zé sabia que o Delfim era demasiado ingénuo e passivo para se desbocar a quem quer que fosse. Era o aliado perfeito, a escrava, a submissa.

    Contou-lhe que foi o responsável pelo Cocktail envenenado, que sabia do comprimido tóxico, que forçou o enforcamento de Tó e que era o único que sabia o segredo de Suzette.

    - É esse o meu próximo passo. Já guardo o segredo há demasiado tempo – Disse Zé – Chegou a altura de o revelar ao João Diogo. Mal posso esperar pelas consequências da sua reação. Costumo sonhar com a Suzette estendida no chão da sala com a pila cortada e pendurada no teto!

    As duas bichonas riram em conjunto. Pareciam duas araras do Zoomarine.

    - Com que então a boazona da Suzette tem um par de tomates agrafados à cintura...

    - Nem imaginas querida. Parece a papada do senhor Augusto do lar da minha avó.

    - E o Concorrente Mistério é o *****… - Murmurou Miguel Ângelo – Nunca imaginei.

    - O ***** vai surpreender muito pessoal quando tirar o fato de látex. Mas até esse dia chegar, temos de ficar quietos. Ele é o queridinho da produção, se lhe tocamos, ficamos todas eletrocutadas, mulher. E com as camadas de laca que tenho no cabelo, começo logo a arder.

    - Tu conheces o *****? – Perguntou Miguel Ângelo.

    - Eu conheço toda a gente, rapariga. O ***** é um perigo. Olha ele ali, sentado no sofá como se nada fosse. Korror, até me arrepio.

    Soraia passou junto ao vidro da casa de banho, em direção à retrete. Ivo atrás.

    - Aquela deve andar de caganeira. Parva como é, aposto que comeu o Palmolive que eu deixei junto ao Poliban. Essa é outra que temos de atacar.

    Zé estalou os dedos e Miguel Ângelo pôs-se em sentido.

    - Submissa, vai-me buscar um copo de água à cozinha que a rainha tá seca que nem um bacalhau. Siga!

    Miguel Ângelo correu para a cozinha. E quando lá chegou, deparou-se com Rui e Jota, mortos, de mãos dadas e caras enfiadas dentro da sopa de legumes.

    Gritou como a menina que é e todos correram para ele, assustados.

    - O que é que aconteceu aqui? – Perguntou João Diogo – Mas isto agora é todos os dias?

    Suzette foi cheirar a sopa que Rui e Jota estavam a comer.

    - Pfff menina! Isto está mais azedo que o mijo da Nicole Kidman! É veneno puro! – Disse a transformista – Olha, menos dois!

    João e Selva carregaram os corpos de Rui e Jota para o monte de cadáveres no jardim. Dois abutres esfregavam as mãos no telhado. Ninguém pareceu muito incomodado com a morte dos dois concorrentes. Rui já tinha perdido todos os amigos na casa, e Jota não era propriamente a pessoa mais sociável da Casa da Fome.

    - Ainda por cima de mãos dadas – Disse Zé – Coisa maricas e démodé.

    Soraia e Ivo juntaram-se ao grupo. Vinham cabisbaixos e com caras preocupadas.

    - Olhem, o Rui e Jota, puf. Foram-se – Contou Suzette.

    - Pois… - Disse Ivo.

    Ficaram todos focados no casal maravilha da Casa da Fome. Alguma coisa se tinha passado.

    - O que é que aconteceu? O que se passa com vocês? – Perguntou João Diogo.

    Soraia empunhou uma coisa no ar e mostrou aos concorrentes, enquanto chorava. Ivo desfez-se em lágrimas e começou a dizer preces em criolo.

    - A Soraia está grávida - disse o Ivo.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jul 16 2017, 17:24

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    - Deve ter sido quando me coçaste o rabo com o polegar, ontem à noite – Disse Soraia – Aposto que foi assim que fiquei grávida.

    Ivo e Soraia estavam na cozinha, sozinhos e sentados à mesa, a tentar perceber como é que Soraia tinha emprenhado.

    - Não terá sido no dia em que cheguei e te espirrei sem querer para cima do ombro direito? – Sugeriu Ivo – Ou não terás engolido um pêlo púbico meu sem querer? Eu tenho queda de cabelo na pentelheira, até já pensei em fazer um transplante capilar. Ouvi dizer que o Tony Ramos é primeiro na lista de dadores.

    - Hmm… Acho que não – Disse Soraia – Aposto que foi quando me olhaste nos olhos hoje de manhã. É provável que tenha sido aí!

    Nem um nem outro sabiam como se engravidava alguém. Lançavam para o ar todo o tipo de teorias, cada uma mais estúpida que a anterior, mas nenhum se aproximava da verdade.

    - Bem, paciência! – Disse Ivo – Vou criar esse filho com todo o amor possível e dar-lhe tudo aquilo que ele precisar!

    - Ainda não percebeste que só uma pessoa vai sobreviver a este jogo? – Disse o Concorrente Mistério, que acabava de chegar à cozinha – E a avaliar pelo vosso grau de inteligência, inferior ao de um bolo rei do Minipreço, nenhum de vocês vai ser o vencedor.

    Ivo e Soraia ficaram paralisados. O Concorrente Mistério tinha falado pela primeira vez, trinta e sete dias após a sua entrada na Casa da Fome. A sua voz não era muito grossa, mas também não parecia abichanada. Falava assertivamente, com um sotaque ***** ligeiro, dando claras evidências de que se tratava de um habitante de *****.

    - Juro que houve alturas em que pensei que eras um robot – Disse Ivo – Porque é que nunca falas? Quem és tu afinal? Olá, eu sou o Ivo!

    Pegou na mão do Concorrente Mistério para o saudar e levou uma descarga eléctrica tão grande que se cagou e mijou até não ter mais nada para deitar cá para fora. Parecia que alguém o estava a espremer até ao tutano, como se faz aos pacotes de ketchup do Mcdonalds. Acabou estendido no meio do chão, envolto em bosta. Ui, se cheirava mal. Parecia que os quatro estômagos da Simara tinham cometido suicídio colectivo.

    - Olha, a outra é que tá grávida e é a este que lhe rebentam as águas – Disse o Concorrente Mistério – Vocês sabem perfeitamente que não me podem tocar.

    Soraia levantou-se e também quis cumprimentar o Concorrente Mistério, mas o mesmo afastou-se dela no momento em que a sua mão lhe ia tocar o peito.

    - Xô sua burra! És mesmo idiota. Não ouviste o que acabei de dizer? – Gritou o Concorrente Mistério – Se me tocas, acontece-te o mesmo!

    - Eu sei, eu sei! – Disse Soraia – Mas eu tenho andado com prisão de ventre e até dava jeito borrar-me toda!

    O Concorrente Mistério afastou-se e entrou para o Confessionário, local onde costumava passar grande parte do tempo. Só Zé Miguel e a sua escrava sabiam a identidade do concorrente que toda a gente queria conhecer. Quem era ele afinal? De que país? E porque razão era protegido pela produção daquela maneira? E quando iria Zé Miguel usar o seu grande trunfo?

    - Esfrega com mais força, sem piedade! – Gritava Zé – Vá que o pé de atleta só é exterminado com brutidade e força de braços!

    Zé estava no quarto, com a sua submissa, que naquele momento lhe tentava tirar o sarro dos dedos dos pés.

    - Mas senhor Coutinho, isto nunca acaba! Não será melhor banhar os pés em Calgonit e esperar que a efervescência dê cabo do tártaro? Já levei com duas ou três placas de pele seca na retina!

    Zé Miguel pegou no cinto Louis Vouitton e aplicou a sua força nas costas da escrava.

    - Calada sua lacraia! Trabalha de bico fechado ou coso uma renda de bilros na tua boca! – Gritou, grandioso – E a seguir vais fazer-me o buço, as axilas e as virilhas. Já pareço aquelas feministas que deixam crescer os pêlos dos sovacos porque acham inspirador.

    - Fazer a depilação com o quê, sua alteza? A Soraia barrou a cera que restava nas torradas porque pensava que era mel.

    - Se bem me lembro, o Passinhas costumava andar sempre com um Bikini Kit da Venus no bolso das calças, não fosse um pêlo rebelde brotar na perna assim de repente. Vai lá vasculhar na falecida – Ordenou Zé – Vá! Xô! Tá a andare!

    Outra chicoteada. Desta vez no lombo. Até se viu leite desnatado e azedo a escorrer pelo rabo abaixo da submissa. Parece que é daquelas que guarda a essência dos parceiros sexuais como souvenir.

    - Ai mulher, parece que uma lata da Robbialac te explodiu nas cuecas! – Disse Zé – Não me digas que és como os pombos. Também guardas a comida no papo?

    Trau. Chichote Louis Vouitton colecção Western 2014 a beliscar a nádega da submissa.

    - Desaparece antes que me irrite! – Gritou Zé.

    No alpendre, Suzette e João Diogo planeavam o coito. Não tardava.

    - Depois eu pego-te assim e trau, enfio lá para dentro como se fosse em busca de petróleo – Dizia João Diogo – O que achas princesa?

    Suzette dizia que sim a tudo, em pânico absoluto. Sabia que não podia escapar a João Diogo e ao desejo enorme que ele tinha que fizessem amor. E desta vez, não poderia enrolar a gaita em papel celofane e fingir, ao toque do mister esteróide, que era uma peúga velha enrolada. Desta vez ele queria ver. Queria ver a bigorna de moldar pau da traveca. E a pergunta era: Onde raio ia Suzette arranjar uma solução para esta situação?

    - Não queres mesmo adiar? Acho que estou com o período – Disse Suzette – Ainda ontem à noite bufei dois coágulos de sangue e parece-me que o corrimento hoje é tão forte quanto o Guadiana em época de temporais.

    - Estás com o período? Como é isso possível se não há pensos ou tampões aqui em casa? – Perguntou JD, desconfiado – Eu teria notado.

    - Pois… - Murmurou Suzette – Então nem queiras imaginar o que é que enfiei na xoxa para estancar a hemorragia. Digamos que a salada de pepino e tomate do almoço vai ter um toque especial hoje.

    - Óptimo, finalmente a produção decidiu enviar umas especiarias para a casa!

    Suzette revirou os olhos à burrice de JD.

    - Mas não vale a pena meu amor… não vamos adiar nada, e chega de inventar desculpas, tá bom? – Disse João – É hoje. É hoje que te vou comer a buracona como se não houvesse amanhã!

    - E provavelmente não vai haver… - Acrescentou Suzette.

    Desesperada, a traveca deixou a conversa a meio e correu a disfarçar o choro para o Confessionário. Estava sem soluções. E sem maneira de escapar a João Diogo. O que poderia ela fazer? O seu fim estava mesmo traçado.

    - É hoje… - Dizia Zé – De hoje não passa!

    Já a rapar a juba das axilas, Zé vislumbrava o dia fantástico que tinha planeado. E relembrava à sua escrava todos os passos do plano maquiavélico.

    - Vamos desmascarar a parva da Suzette sem dó nem piedade. Arrancar-lhe a pele falsa e revelar a pila que esconde atrás daqueles vestidos provocadores, dos quais, confesso, tenho um bocadinho de inveja. Puta desgraçada, aposto que é patrocinada pela loja da Cristina Ferreira – Dizia Zé Miguel – Vais começar por perguntar ao João Diogo como é que tem corrido a relação entre os dois, perguntando-lhe várias vezes como é o sexo.

    - Aí ele vai começar a descrever todas as relações sexuais que teve até hoje com a transformista. Como é gajo, vai-se vangloriar do seu caralho como se fosse um Óscar de melhor actor, dizendo que a penetrou até sentir a glande a roçar nos pulmões. Vai dizer que fez isto, aquilo e o outro, com o maior dos orgulhos por ter papado uma pachachona.

    Benzeram-se as duas bichas quando se falou em pachachas.

    - Credo, korror, como se isso fosse motivo de orgulho! – Gritou Zé Miguel – Mas as machas são assim. Nojentas!

    Escarrou na axila direita e ordenou a Miguel Ângelo que lhe aniquilasse a penugem.

    - Depois, quando ele tiver no seu estado máximo de macho-alfa, eu chego lá e começo a lançar a dúvida no ar. Tipo uma bufa mal cheirosa que polui o ambiente, tás a ver? – Disse Zé – Pergunto-lhe se ele acha que há alguma coisa estranha na Suzette, e ele vai acabar por revelar todas as inseguranças do seu relacionamento com ela.

    - E zás! – Gritou Miguel Ângelo.

    - Isso! Zás! – Acrescentou Zé – Revelo-lhe, sem qualquer tipo de misericórdia, que a Suzette tem escondida uma pila na saia rodada. Qual Rosa arredonda a saia. A Rosa afinal é um Alberto!

    Levantou-se, orgulhoso do plano.

    - Ele vai explodir de raiva e matar a travesti, que nem vai ter tempo de se defender! E com sorte, também se mata a ele próprio, enojado com a relação homossexual que teve sem saber. Vai ser divinal. Até fazia pipocas, mas a Soraia jogou o milho fora porque pensava que eram ervilhas podres.

    - Não tem medo que alguma coisa corra mal, senhor Coutinho? – Perguntou Miguel Ângelo.

    - Tenho – Revelou Zé – Mas depois de tantas coisas me correrem mal aqui dentro, acho que desta vez, vai correr tudo como planeei. E já mereço.

    _________

    Na cozinha, Ivo limpava a porcaria que tinha feito, enquanto Soraia massajava a barriga.

    - Agora, quando for fazer cocó, tenho que ter cuidado para não fazer muita força – Disse Soraia – Não vá o bebé sair sem querer. É que depois eu não sei como é que se volta a meter lá dentro.

    _________

    No alpendre, Miguel Ângelo e Zé já punham o plano em prática.

    - Então garanhão, como tem corrido a relação com a boazona da Suzette? – Perguntou Miguel Ângelo de rompante.

    JD não achou muita piada à conversa. Não conhecia o Delfim e não se sentia à vontade para partilhar coisas íntimas com ele. Mexeu-se no lugar e estalou os dedos.

    - Desanda daqui bicha mal vestida! – Ordenou – Sai do pé de mim antes que te enfie a cadeira pelo esófago abaixo!

    - Ias ficar surpreendido com a minha capacidade de engolir coisas! – Gritou Miguel Ângelo.

    - Xô cadela! – Gritou Zé, salvador da Pátria – Estás a importunar o meu amigo João Diogo! Fora daqui! Vai já para o quarto varrer os meus cabelos! Sim, porque aquilo ficou a parecer o salão da Anita aos Sábados à tarde.

    JD e Zé ficaram sozinhos no alpendre. Apesar de não simpatizar muito com Zé, JD já tinha falado várias vezes com ele sobre Suzette.

    - Então, pegando na conversa da passiva, como vão as coisas com a Miss Casa da Fome? – Disse Zé – Ele é mesmo lindo, não é?

    Zé fez uma pose avant-garde a simular que se tinha enganado. Mão na boca aberta, costas curvadas, rabo empinado.

    - Oops! Ela! – Disse.

    João Diogo franziu as sobrancelhas.

    - Desculpa amigo, fiquei atrapalhado! – Disse Zé, entre risinhos falsos e idiotas – É que há bocado snifei sem querer pó de talco que a submissa me passou nos tomates e fiquei meio confusa, sabes?

    - As coisas com a Suzette vão bem. Hoje ela vai finalmente abrir as pernas e deixar-me ver tudo – Revelou JD – Já ansiava por este momento. Confesso que às vezes até pensava que ela poderia ter os lábios vaginais do formato da boca da Oprah, e que por isso se sentisse envergonhada em me mostrar.

    - Ai não me digas… - Murmurou Zé – É hoje que vais ver finalmente a coisa dela? Ai mulher, tira fotos! Tira fotos que eu também quero ver!

    A poker face de João Diogo acalmou Zé.

    - Mas ó querido, tu não achas que há ali qualquer coisa de estranho? – Perguntou Zé – É que já fizeram o amor tantas vezes, sempre debaixo dos lençóis, no escuro, já te queixaste tantas vezes que a xoxa dela parece que está descaída, e quase só passado mais de um mês é que ela te deixa ver? Hmmm…

    João Diogo ficou afectado pela dúvida lançada por Zé Miguel.

    - Achas mesmo? – Perguntou JD.

    - Ainda ontem a vi coçar qualquer coisa no meio das pernas e levar a mão ao nariz para cheirar! – Sussurrou Zé Miguel – Não achas que… a Suzette… poderá ter ali… uma… prontos…

    João Diogo levantou-se, em pânico.

    - UMA PILA? – Gritou – A Suzette? Não!! Não é possível!

    Xeque-mate. Os olhos de Zé até brilharam.

    - Ai amiga, tem calma! – Dizia Zé, falsa – Ela contou-me tudo no início do programa e ameaçou-me desde então! Dizia que se eu contasse a alguém o seu segredo, ela jogava a minha coleção de pulseiras de diamantes para o lixo! E aquela porcaria ainda me custou uma nota preta nas feiras de Marraquexe!

    João Diogo começou a pontapear tudo à sua volta. Zé afastou-se, os restantes aproximaram-se do local, e Suzette apareceu, vinda do Confessionário.

    - Mas o que é que se passa aqui?? – Gritou a travesti, chocada.

    JD pegou Suzette pelos cabelos e atirou-a ao chão.

    - És um gajo! Um gajo! – Gritava JD – Ele contou-me tudo! Contou-me que não me deixas ver o que aí tens porque não tens aí nada! Aliás, tens mais do que eu queria que tivesses!

    - Eu não estou a perceber nada do que estás praí a dizer! – Gritava Suzette.

    João Diogo pisou as mamas de Suzette. O silicone da direita explodiu. Mas mesmo assim o mister esteróide não parou de agredir Suzette, que já estava toda esfolada no meio do chão.

    - Pára João! Por favor, deixa-me explicar! – Gritava a travesti – Deixa-me falar contigo!

    Zé sorria de orelha a orelha. Ele já nem se esforçava para esconder.

    - Falar comigo para quê? Não há nada a dizer! – Gritou JD.

    Suzette conseguiu levantar-se, cambaleando.

    - Tens uma pila! Uma pila! – Gritou João.

    Pegou na saia de Suzette, puxou-a para baixo e baixou-lhe as cuecas.

    - Uma pila! – Gritava, a apontar – Uma pila!

    Até que olhou com mais atenção e vislumbrou uma vagina. Sim. Não havia lá pila nenhuma. Nem escondida e atrelada ao rabo, nem colada à cintura, nem agrafada ao umbigo. Suzette tinha uma pachachinha.

    - Então mas… - Murmurou João Diogo – Não estou a perceber!

    Zé ficou estático. Depois ajoelhou-se junto a Suzette e começou a procurar a pila como se fosse a Pila Encantada. Era remexer nos bolsos de Suzette, no rabo, nas virilhas. Mas nada. Suzette era mesmo uma mulher!

    - Esse gajo disse-me que tu eras um homem! – Gritou João.

    Suzette voltou a vestir-se e esmurrou João Diogo.

    - E tu acreditas em tudo o que te dizem aqui dentro? – Gritou Suzette – Pensava que confiavas em mim.

    - Desculpa amor…

    Suzette empurrou João para longe dela, recusando o perdão.

    - Sai do pé de mim. Acabou tudo entre nós. Humilhaste-me como nunca tinha sido humilhada em toda a minha vida. E quase me mataste. E eu sempre pensei que tu nunca me irias fazer mal…

    Coxeou para dentro de casa e fechou-se quarto azul, onde começou a curar as feridas. João Diogo ficou inconsolável, sem saber como apagar a dor da culpa que nascia agora no seu peito. Tinha acabado de espancar a mulher que amava sem razão para tal.

    Zé apressou-se a defender-se, dizendo que caiu numa brincadeira armada por Suzette. Mas JD nem sequer quis fazer mal ao estilista. Estava revoltado consigo mesmo por ter desconfiado de Suzette. Acima de qualquer outra coisa, devia ter acreditado nas palavras dela. E pensava, desesperado, como poderia resolver este problema.

    Já Zé Miguel, correu escandalizado para o quarto azul, para tentar perceber a razão de todo este acontecimento bizarro.

    - Tu não me digas que durante este tempo todo foste uma mulher? – Perguntou Zé – O que se passou Suzette? O que aconteceu? Para onde foi a tua pila? Fizeste força para dentro e ela entrou-te pelo cú acima?

    Suzette limpava a boca ensanguentada aos lençóis.

    - Eu agora sou uma mulher – Disse, decidida – Fui ao confessionário pedir uma mudança de sexo radical, tipo fast-food. Que me cortassem a pila a sangue frio e me cozessem os colhões para dentro! Que se lixe! Eu queria era uma xoxa. E tinha de ser rápido.

    Cuspiu três ou quatro dentes para cima da cómoda.

    - Eles riram-se – Suzette riu-se também – Parece que a Selva tinha ido pedir o mesmo há horas atrás. Também queria mudar de sexo. Mas de gaja para gajo. Então juntou-se o útil ao agradável. ‘Tás mesmo a ver a cena, não ‘tás?

    Começou a besuntar as feridas com betadine.

    - Trocámos. A Selva deu-me a xoxa musculada e ficou com a minha pila. Assim somos felizes da maneira que sempre quisemos – Revelou Suzette – Cortei a gaita com um x-acto e colei-a com UHU à Selva. Quanto à vagina, ela arrancou os lábios com um alicate e eu agrafei-os no meio das pernas, depois de ter metido os colhões para dentro e os ter cozido para simular um clitóris. Finalmente aquelas aulas de tapetes de arraiolos que fiz na Universidade de Tempos Livres deram jeito.

    Zé nem dizia nada. Estava irritado por nada ter corrido como queria, e extremamente surpreendido com o que tinha acontecido no Confessionário mesmo nas suas barbas.

    - Bebemos uns quantos shots de Absinto Preto e um par de Super Bocks de estalo e ficámos anestesiadas. Doeu um bocadinho, confesso, mas agora finalmente já tenho aquilo que quero. Aquilo que sempre quis!

    Levantou-se e apontou para Zé.

    - E poderia ter sido tudo perfeito se tu… - Disse Suzette – Sua bicha nível 20, não te tivesses armado em queixinhas e fosses revelar o meu segredo ao João Diogo. Agora acabou-se. Não me volto a enrolar com um homem que me humilha daquela forma.

    Olhou-se ao espelho, penteando o cabelo.

    - É o fim da Suzette de antigamente – Disse – O início da nova Suzette.

    - Ai é? – Disse Zé – Pois boa sorte, amiga. Boa sorte com a tua nova vagina acoplada às virilhas. Vê lá não faças muita força a mijar não vá o lábio de cima descolar. Adeus.

    Saiu do quarto completamente irritado. Nada corria como queria. Nenhum dos seus planos. JD não matou Suzette, que agora era uma mulher, e apesar de estar irritado consigo mesmo e arrependido, não mostrava sinais de que se queria matar. Tudo acontecia ao contrário. Tudo.

    - BICHA PASSIVA!! – Gritou Zé – No quarto lilás. JÁ!

    Miguel Ângelo correu para o quarto. Foi chicoteada até as suas costelas pedirem perdão por crimes não cometidos, esbofeteada de todas as formas e pisada com saltos agulha nas partes mais sensíveis do corpo. Zé estava a descarregar a raiva na sua cadela de estimação.

    - Só não te mato agora porque me fazes falta! – Gritava a bicha rainha – O que vou eu fazer para acabar com aquela gentalha? Nada do que faço resulta! Nada! Absolutamente nada!

    - Se calhar é um sinal – Disse o Concorrente Mistério, que acabava de entrar no quarto das bichas – É um sinal de que tens que estar quieta, bicha nojenta, e deixar de armar planos maquiavélicos. Nunca tiveste jeito para essas coisas, admite.

    Zé começou a tremer. Era a primeira vez que ouvia a voz do Concorrente Mistério.

    - Este quarto cheira mesmo a bacalhau – Disse, enojado – Vocês não se sabem lavar por baixo?

    Zé continuava a tremer como uma gelatina da Royal. Tinha um medo terrível do Concorrente Mistério e do que ele lhe poderia fazer.

    - O que queres? – Perguntou Zé, nervoso – Eu nunca te fiz mal nenhum! E já sei quem és! Portanto não faças joguinhos comigo!

    O Concorrente Mistério riu-se.

    - Eu sei que tu sabes quem sou – Disse – Mas vais deixar de ser o único a saber.

    E despiu o fato de látex, revelando finalmente a sua identidade.

    - Agora sim, o jogo vai começar… – Disse.

    .
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jul 16 2017, 22:33

    .

    Zé estremeceu. Não estava à espera que o Concorrente Mistério tirasse a máscara tão rápido. Ficou apavorado ao pensar o que poderia ele fazer agora, sem o fato protetor e a identidade oculta. O que estaria ele a preparar?

    - Até consigo sentir o teu rabo a pulsar ao ritmo do coração acelerado – Disse o Concorrente Mistério – Já está no ar a essência da tua bufa nervosa, que escapou do teu cagueiro mal tirei a máscara. Estás com medo, bichinha?

    Aproximou-se de Zé. O estilista caiu da cama, cheio de nervos, e protegeu-se atrás da passiva escrava, que também tremia, apavorada. Pareciam duas zebras bebés com medo do leão. Não faltava muito para urinarem as Pradas e os Vuittons.

    - Tanto respeito que me têm, queridas… - Disse o Mistério – Tenham calma que se eu morder, aviso primeiro. Sabem que sou educado.

    Despiu o resto do fato e sentou-se na cama junto às zebras nervosas.

    - Vocês achavam que eu era um adereço, não é? Confessem! – Gritou – Que eu não tinha papel algum neste jogo, nesta casa. Que eu era apenas um abajur. Como este aqui.

    Segurou o candeeiro da mesa-de-cabeceira de Zé. E atirou-o com toda a força que tinha à parede onde se protegiam as mariconas. Elas gritaram fininho.

    - Candeeiros do IKEA. Onde é que isto já se viu? Gastam milhões em Nésques, Second Chances, Finais Nacionais e programas de entretenimento fútil, e depois compram candeeiros do IKEA para a casa mais famosa de Aporue. Só faltava dizerem que o papel higiénico no qual limpei o ás de copas durante 1 mês é reciclado e do Minipreço.

    Fixou o olhar nas câmaras.

    - Porque a minha merda é como ouro. Merece tratamento personalizado. Não merece é ser arredada do cú como se fosse um pedaço de bosta daqueles cavalos que puxam charretes. Quem é que pensam que eu sou, afinal?

    - E quem és tu, mesmo? – Disse Zé – Porque estás aqui? O que realmente fazes na Casa Da Fome? Qual é o teu papel aqui dentro?

    O Concorrente Mistério riu baixinho e ordenou a Zé que se voltasse a sentar, reduzindo-se à sua insignificância. O estilista obedeceu de imediato.

    - Eu sou um concorrente especial. Como sempre fui em todo o lado – Disse – Fui selecionado para representar o meu país na Casa da Fome. Como qualquer outro aqui dentro. Como tu representas MajHill, e ele o Reino Unido das Caganitas de Cabra.

    - Trufas – Corrigiu Miguel Ângelo.

    O Concorrente Mistério esbofeteou a bicha passiva com a parte de trás da mão. E continuou a explicação.

    - Mas a produção achou que eu seria demasiado forte para o jogo. Que eu ia entrar e começar a matar toda a gente como se fossem moscas. E tiveram medo de me deixar à vontade. Tiveram medo que a Casa da Fome não durasse sequer dois dias.

    Zé voltou a bufar de medo.

    - Então colocaram-me dentro do fato protetor de látex, e protegeram a minha identidade com a máscara. Ninguém me podia tocar, mas mais importante… - Disse, em tom de mistério – Eu não poderia tocar em ninguém. Porque se fosse responsável pela morte de alguém, seria imediatamente morto pela produção. Até ordem em contrário, eu teria de me manter secreto, misterioso. Teria de me manter dentro daquele fato terrível, que já cheirava a azedo de tanto suor. Teria de ser o Concorrente Mistério.

    Puxou a cesta com a única comida que restava na Casa da Fome e começou a trincar uma maçã. Zé explodiu de raiva. Mas manteve-se quieto.

    - Não foi fácil – Continuou o Concorrente Mistério – Tinha, todos os dias, uma vontade trepidante de vos matar a todos. E tive de me controlar por diversas ocasiões. Por isso é que desapareci várias vezes. Para poder despir o fato e descansar a minha mente cansada da vossa estupidez.

    Atirou a maçã ainda a meio para o fundo do quarto e sacou da banana.

    - Da vossa parvoíce. Meu Deus, como vocês são irritantes. Que vontade tão grande de vos desfazer em merda. Assim, olha, só com um dedo.

    Tocou na testa de Miguel Ângelo com a ponta do indicador. A submissa começou a chorar.

    - Mas estava em contrato que quando restassem apenas oito concorrentes, eu poderia retirar a máscara e fazer aquilo que bem me apetecesse. Como isto, por exemplo…

    Despiu as calças e começou a roçar os tomates na testa de Zé. O estilista começou a entrar em ebulição. Quase a explodir. Quase a rebentar de fúria.

    - Eu sei bem que odeias tomates peludos na tua cara – Disse o Concorrente Mistério – Aliás, eu sei tudo sobre ti. Tudo, Zézinho. Tudo aquilo que tu pensas que só tu sabes.

    Voltou a vestir-se e a deitar-se na cama junto às bichas medrosas.

    - Sei da porcaria que fazes lá fora e da porcaria que fizeste cá dentro – Revelou – Sei que foste o responsável pela morte da Ana, pela morte do Nuno e do Tó, e que tentaste matar a Soraia várias vezes. Sei que escondias o segredo da Suzette com a intenção de a prejudicar. Sei que sabias qual era o comprimido envenenado, e que tencionas matar aí a tua escrava mal ela não tenha mais utilidade…

    - Não oiças o que ele diz, submissa – Murmurou Zé – Mintirosa pá…

    - E sei de tudo o que se passou lá fora. Sei que roubaste as polaroides do teu ex-namorado a fazer fisting a uma galinha e que ameaçaste-o. Disseste-lhe que se ele não voltasse para ti, punhas as fotos no facebook. Ele acabou por ficar com uma sensitiva psiquiátrica e cortou os pulsos com um frasco de Chanel partido.

    Zé engoliu em seco.

    - Sei que para te vingares da tua madrasta, fazias panquecas com chantilly para ela todas as manhãs. Mas na verdade, o chantilly, era outra coisa que nós cá sabemos. E a coitada da dona Olga ficou com uma úlcera no estômago de tantos Zérmatozóides que engoliu.

    Zé tapou os ouvidos de Miguel Ângelo.

    - E que as tuas roupas não são Prada, nem Gucci nem Ralph Lauren. São da Santa Casa da Misericórdia de Vale da Rata. Tu é que cortas as etiquetas nos provadores das lojas e depois cozes nos teus trapos nojentos, cheios de pulgas, vê só.

    Zé começou a chorar, envergonhado.

    - E que não és estilista – Disse, a rir – És empregado de mesa num snack-bar da Reboleira. Part-Time! E ganhas uma miséria. A recibos verdes! Muitas vezes pagam-te com meia dúzia de pacotes de Ruffles fora do prazo e pastilhas da Gorila. Já para não falar que vives num T0 com a tua tia surda.

    - Chega! – Gritou Zé.

    - Qual chega qual quê. Quem manda aqui sou eu! – Disse o Concorrente Mistério, sereno, imponente e poderoso – Fica aí sentadinho antes que eu comece a distribuir chapadas.

    Zé voltou a sentar-se. Era incrível como o Concorrente Mistério conseguia dominar o ambiente à sua volta.

    - E o que vais fazer agora? Vais-me matar? É isso que queres? Então vamos lá para fora as duas para ver quem é a mais forte! – Disse Zé, a soluçar de medo.

    - Amiga, toda a gente sabe que sou eu a mais forte, não ouses sequer desafiar-me para uma luta. Sabes perfeitamente que vais perder. Ou não te recordas das lutas na lama que fizemos lá no nosso bairro? Eu ganhava sempre.

    Estalou os dedos e ordenou com gestos a Zé e Miguel que reunissem o resto dos concorrentes na sala. Ele estava prestes a revelar-se perante todos.

    Soraia passava por outro enjoo matinal, mas levou o balde da esfregona para o sofá, não fosse o diabo tecê-las. Ivo foi atrás, tal qual marido dedicado. Suzette, ainda envergonhada e traumatizada com a carga de porrada que tinha levado, sentou-se na ponta do sofá, bem longe de João Diogo, que chorava arrependido das suas terríveis ações. E Selva, com a sua pila nova, estava ao centro do sofá, coçando a micose no saco.

    Zé estava em pé, com a submissa ao lado. Tremia como nunca. Mas estavam todos tão concentrados nos seus próprios problemas, que ninguém notou no comportamento estranho do falso estilista.

    - Pessoal… - Murmurou – Pessoal! Oiçam-me!

    Quando conseguiu a atenção de todos, começou a relatar tudo, nervoso.

    - Nós já sabemos quem é o Concorrente Mistério – Disse – Ele está no quarto, e insistiu para que todos se reunissem, para ele se revelar.

    Abriu o olhar, lacrimejando.

    - Eu não sei o que vai ser de nós a partir de agora. Boa sorte a todos.

    Correu e sentou-se no sofá, paralisado. Nunca Zé se tinha comportado desta maneira. Os restantes ficaram assustados com esta mudança repentina. Quem quer que fosse o Concorrente Mistério, tinha provocado em Zé uma terrível reação, fazendo com que a sua verdadeira personalidade viesse ao de cima.

    E depois de segundos de suspense, eis que ele chega. Caminhando sereno e a comer outra peça de fruta. Olha para todos com ar de rei. Como se fosse o dono da casa. E os concorrentes a ficar como Zé: Mijados de medo, terrivelmente apavorados, e com receio até de respirar. Quem era afinal este homem? E porque tinha ele este poder tão grande sob as pessoas?

    - Olá – Disse o Concorrente Mistério – Creio que já todos me conhecem.

    Ninguém disse nada. Estavam todos petrificados no lugar. Tinham medo de fazer um movimento brusco. De dizer alguma coisa. De mexer os olhos. De fazer o que quer que fosse.

    - Quero que todos digam olá – Ordenou – Não sejam malcriadonas.

    Mas ninguém disse nada.

    - Só vou avisar mais uma vez…

    - Olá… - Disseram todos em conjunto.

    E ele sorriu. Poderoso. Era tudo dele.

    - Pois… sou mesmo eu – Disse. Sou eu o Concorrente Mistério. Sou eu o tal gajo do fato preto, que ninguém dava conta que existia. Mas agora todos sabem. Mas agora todos me temem. Agora, comigo em jogo, tudo vai mudar.

    Os corações acelerados ouviam-se ao longe.

    - Não sou uma visão. Não sou um pesadelo. Sou mesmo eu. Sou mesmo mesmo eu. Kiko, em carne e osso. Eu mesmo. E agora que finalmente me revelei, vou pôr ordem na casa. Ordem que há muito esta casa precisava.

    Passou perto de todos os concorrentes, analisando-os um a um. Puxou cabelos, pediu para abrir bocas, investigou bolsos. Parecia estar à procura de alguma coisa.

    E quando chegou perto de Ivo, parou.

    - A Casa da Fome tinha originalmente quinze concorrentes. Os dois que entraram a meio, já foram – Disse, pausadamente – Agora penso que é altura de aniquilar os três que chegaram à casa muito depois dos outros. Aqueles que atrasaram a minha revelação. Quando eu achava que poderia retirar a máscara, eis que entrava mais gente. E não achei piada nenhuma.

    Sacou de uma faca escondida no sapato e pôs junto ao pescoço do futuro papá.

    - Tem calma… - Disse Suzette – Kiko, por favor, pensa bem no que estás a fazer.

    - Eu estou a jogar. Não é para isso que aqui estamos?

    Cortou lentamente a pele de Ivo. O sangue começou escorrer pelo seu corpo. E mesmo a contorcer-se de dores, não fez nada. Porque sabia que ao mínimo movimento, Kiko o iria matar.

    - Eu jogo limpo. Direto. Não é como o Zé, que baralhou os cocktails vermelhos para matar a Ana. Que revelou o affair do Passinhas para matar o Nuno. Que influenciou a escolha de Tó para a forca. Que tentou matar alguém com o comprimido envenenado. Ou como o grupo do Resto de Aporue, que fez armadilhas ridículas para tentar matar as Estrelícias. Eu não jogo pelas costas. Eu faço tudo pela frente. Sem medos…

    E cortou o pescoço de Ivo com um movimento brusco, deixando-o morrer à sua frente.

    - Sem piedade – Concluiu.

    Ninguém se mexeu. Ivo acabou por morrer segundos depois, ao lado dos seus companheiros de casa, que nada fizeram para impedir a sua morte. Todos temiam Kiko, essa figura tão poderosa de Aporue, assassino profissional bastante conhecido em todo o Continente. Kiko já tinha sido responsável por várias mortes, mas nunca foi capturado pela polícia do Império Bipolar. Mais tarde, refugiou-se em Angelic, na casa do seu namorado, tendo lá ficado até à entrada na Casa da Fome. E quem ousava fazer frente a um criminoso profissional, já responsável por mais de uma centena de mortes? Quem ousava desafiar o concorrente mais perigoso da Casa da Fome? Ninguém.

    - Moscas – Disse – É o que vocês são. Moscas. Fáceis de matar. E estas moscas novas não têm lugar no jogo.

    Aproximou-se de Selva.

    - Bem, esta aqui não é uma mosca. É um besouro – Disse, a rir – Que coisa terrivelmente enorme. Não tem vergonha de ser tão bisonte, criatura?

    Selva pegou no braço de Kiko e tentou atirá-lo ao chão. Mas ele nem sequer se mexeu. E nem a força abismal de Selva foi suficiente para impedir Kiko. E ele, mais uma vez sem piedade, cravou a faca afiada no pescoço de Selva, num movimento tão rápido que não foi percetível aos olhos de ninguém.

    - Escrevam na minha campa que eu era um homem! Escrevam na minha campa que eu era um homem! – Foram as suas últimas palavras.

    Acabou estendida no chão, afogada na sua própria poça de sangue.

    Ele não tinha qualquer misericórdia. Em menos de 1 minuto matou dois concorrentes da Casa, à frente de todos os outros, que se mantinham sentados e quietos, cagados de medo, rezando a todos os santos para não serem os escolhidos. Mas o alvo de Kiko já tinha sido revelado: Os três concorrentes que entraram a meio do jogo, e que por consequência atrasaram a sua revelação. Kiko achava que eles não mereciam um lugar na casa. E queria matá-los e deixar assim a casa reduzida ao TOP 5, constituído pelos originais.

    E aproximou-se de Miguel Ângelo. Pronto a matá-lo.

    Nesta altura Soraia tentava acordar Ivo. “Acorda amor! Está a perder o espetáculo!”, dizia.

    Kiko riu maleficamente até perder o fôlego.

    - E só falta esta mitocôndria unicelular, não é? – Disse, com ar cansado – Esta nem mosca é. Nem mosquito. É daquelas mosquinhas da fruta, que gostam de ir escarafunchar nas bananas podres, tão a ver? É isso.

    Miguel Ângelo fez xixi pelo sofá todo.

    - Oh… e como será a vida do Zé Miguel na Casa da Fome a partir de hoje? Sem o seu único aliado, sem a sua escrava que ele tencionava usar como peão nos seus jogos doentios. E como vai ser a vida do Zé comigo cá dentro? O seu maior pesadelo?

    Matou Miguel Ângelo com um golpe na cabeça. A submissa caiu redonda em cima do peito de Zé, que afastou logo a carcaça para longe como se fosse uma imitação barata de uma mala Marc Jacó.

    - Estou curioso, confesso! – Disse Kiko – Estou curioso para saber como é que as coisas vão ser a partir de agora. Agora que a Suzette traveca já não tem o seu João Diogo para a proteger, agora que o Zé é a única bicha das Estrelícias resistente, e claramente, o jogador mais odiado da Casa, agora que a pobre da Soraia está grávida e sem o seu único amparo…

    - Ele disse o meu nome!! – Gritou Soraia, entusiasmada.

    - E agora que eu estou cá dentro. Agora que finalmente a Casa da Fome tem um concorrente à altura do seu nome.

    Jogou a faca ensanguentada para cima da mesa. Um claro sinal de que não precisava de qualquer objeto para matar quem quer que fosse.

    - Arrumem os mortos no quintal e limpem o sofá. Quero sentar-me.

    Todos se levantaram mal ouviram a ordem de Kiko. E todos começaram a fazer o que ele disse, dominados pelo seu imperialismo.

    E num segundo, tudo mudou. A Casa da Fome perdeu três habitantes em poucos momentos. E estava agora reduzida aos cinco últimos. Zé Miguel, Suzette, Kiko, João Diogo e Soraia. E com um claro favorito à vitória. Um concorrente que caiu na casa como uma bomba, dando início a uma nova era.

    A um novo… Império.

    .


    Última edição por Filip em Dom Jul 16 2017, 22:36, editado 1 vez(es)
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Dom Jul 16 2017, 22:35

    .

    A Casa da Fome era o autêntico Império Bipolar.

    Kiko no comando, majestoso, potente e invencível. E os restantes concorrentes submissos, todos a seus pés, a obedecer às suas ordens sem piscar os olhos, com medo de serem esquartejados por uma respiração mais alta que o costume. A casa tornou-se território do assassino profissional, que tomou conta dos outros quatro concorrentes como se fossem gatas da rua amestradas. E ninguém durante estes 40 dias de Império, ousou ir contra Kiko. Todos o obedeciam sem hesitar.

    O rei da Casa da Fome tornou Zé na sua escrava número um. Até lhe colocou uma coleira rosa com apontamentos beje, onde estavam presas letras em ouro, que formavam a palavra Cadela. Obrigava Zé a ficar o dia todo a seu lado, mas sempre a comportar-se como um cão. Zé tinha que deitar a língua de fora, mijar nos cantos, cheirar as paredes, e até snifar os rabos dos outros concorrentes, apesar de essa ser para si a tarefa menos complicada. Kiko tratava Zé como “Bichana”. E tinha um cinto Moshino colecção Primavera/Verão que usava como chicote nas costas do seu novo animal de estimação. “Trau! Menina má!”, Gritava ele quando Zé se punha a acocar a pulga à sua frente.

    JD era o seu empregado pessoal. Uma espécie de mordomo. Trazia o almoço, lanche e jantar a Kiko, mas era impedido de comer o que quer que fosse. A comida era cada vez menos na Casa da Fome, e Kiko só alimentava os seus súbditos ao final do dia, com os restos do seu jantar, cascas de fruta e os pacotes de leite, que Suzette, esfomeada, refogava em azeite e comia com abacate podre. Para Zé era ossos de galinha e com muita sorte. Soraia era a única a conseguir comer mais ou menos, pois todas as manhãs ia ao Confessionário encher-se de suplementos para o bebé continuar a crescer dentro de si. Tinha neste momento uma barriga enormíssima, apesar de estar grávida de apenas 1 mês.

    Mas andava drogada de tantos comprimidos, sempre toda tonta e com hemorragias terríveis no nariz. Suzette era o único apoio que a parva da peixe-espada tinha. A transformista, agora mulher a 100% (pois a pachacha já tinha sarado e parecia agora uma papaia sem caroços), começou a ter pena da parva da Soraia e a apoiá-la em tudo.

    Mas Suzette também não estava livre da malvadez de Kiko. O assassino, para além de ser um maquiavélico ser humano sem escrúpulos e coração, era ninfomaníaco, e estava montado na Suzette dia e noite, a experimentar a xoxinha virgem da boazona. Suzette, em 40 dias, foi violada mais de 200 vezes.

    - Eu não me importo assim muito, sabes – Dizia Suzette para Soraia – O Kiko, apesar de ser bichona até dizer chega, até sabe montar bem.

    - Agora não me apetece andar a cavalo, talvez depois – Murmurou Soraia, com a cabeça a cair para trás.

    - Ai mulher, não estou a falar de montar cavalos. Descansa mas é, a coitada dessa criança ainda não nasceu e já é sofrida.

    A única que conseguia escapar a Kiko foi Soraia. Não por piedade, mas porque Soraia estava tão zonza e sem energias, que não conseguia sequer mexer-se para obedecer a qualquer ordem que fosse. Então Kiko acabou por desistir de a dominar.

    Mas ao 40º dia de Império, tudo estava prestes a mudar.

    A fome era muita. A raiva acumulada. O ódio. A sede de vingança. O orgulho ferido. O desejo de recuperar o poder e a liberdade.

    João Diogo sentia-se pronto para fazer frente ao assassino. Sentia que tinha chegado o seu limite. Que não conseguia mais servi-lo e sorrir na sua cara. Obedecer às suas ordens. E suportar a fome. Como era difícil vê-lo comer à sua frente e não poder sequer cheirar. Não poder sentir a comida na sua boca.

    Era hora de fazer alguma coisa. De recuperar a sua autonomia e de fazer frente ao concorrente mais temido da casa. Era hora de o enfrentar.

    - É hoje – Disse para Suzette – É hoje. É hoje, é hoje…

    Os seus olhos encarnados de fúria saltavam das órbitas, fazendo inveja aos da Soraia. JD parecia louco, a tremer, a sorrir descontrolado, a fixar o olhar no quarto lilás.

    - Porque estás a falar comigo? Pensei que não querias mais nada entre nós – Lançou Suzette.

    JD apertou a mão ao braço de Suzette.

    - É altura de deixar essas merdas para trás. Preciso da vossa ajuda para dar cabo daquele gajo. É hoje, carago. É hoje que ele vai para o monte do jardim.

    Suzette ficou assustada com o comportamento de João.

    - Mas tu estás maluco? Tens a noção de que estás a falar de um assassino profissional? De uma pessoa que já matou outras centenas? De um ser invencível?

    - Ninguém é invencível.

    - Ele é! – Gritou Suzette – Vais acabar morto, João. Tu sabes disso.

    - Então e o que sugeres? Deixar as coisas rolar? Deixar que ele tome conta de nós até ao dia em que se fartar e nos matar a todos?

    - Pode ser que se canse, sei lá. E nessa altura podemos investir, com ele mais fraco.

    - Estás a ficar louca. É por estares a conviver tanto com a Soraia, só pode.

    - Olha! Só para que saibas, a Soraia é uma pessoa excelente! Ela foi uma das melhores pessoas que eu conheci aqui na Quinta das Celebridades! – Gritou Suzette.

    JD apertou o braço de Suzette e largou-o bruscamente. Seguiu para a cozinha ainda mais enervado do que antes. Estava tudo de patas para o ar. A Casa da Fome tinha chegado ao seu ponto de ruptura. Até Suzette tinha perdido a sobriedade e estava prestes a ficar como Soraia. Não se podia esperar mais. JD sabia que tinha de agir agora.

    Hoje. Naquele preciso momento.

    Pegou na maior faca que encontrou e começou a caminhar em direcção ao quarto. Kiko estava a dormir a sesta, com Zé ao seu lado de língua de fora, a ganir baixinho. Mas a Bichana não era uma cadela fiel. Se desse conta de JD a tentar matar Kiko, não ia dizer nada. Zé odiava o Kiko muito mais que todos os outros juntos.

    Suzette ainda tentou parar João Diogo. Mas foi impossível. Ele estava decidido a terminar de uma vez por todas o Império de Kiko. Decidido a por um ponto final neste capítulo da Casa da Fome.

    Mas a Bicha Lee acordou.

    - Alto e para o baile.

    Pegou no pulso de JD e torceu-o até o deslocar.

    - Ai puta que agora vou ter que ir ao ortopedista!

    Deu uma estalada ao mister esteroide que acabou estendido no chão com a bochecha ferida e o pulso todo torcido. Parecia um maricas com a mão caidinha.

    - Ias-me matar, é? – Disse Kiko – Deves pensar que eu sou parva. Os esteroides foderam-te as feromonas e consigo cheirar-te a mais de cinquenta quilómetros de distância. E a faca está suja do refogado e tresanda a cebola.

    - Já chega! Estamos todos fartos de ser teus criados! – Gritou JD, a chorar.

    - Ai estão? Não me parece.

    Olhou para Zé.

    - Ó Bichana, tás farta do dono, tás?

    Zé começou a abanar o rabo e a lamber as pernas de Kiko.

    - Vês? Aqui a cadelinha adora-me.

    Mas Zé estava do lado dos fracos e oprimidos. Saltou para Kiko mal ele se virou e mordeu-lhe o pescoço, como um Rotweiller chei’da raiva.

    Kiko caiu no chão, deu uma cambalhota em cima de Zé e atirou-o contra os vidros. Zé acabou na casa de banho, todo ensanguentado, com o chuveiro enfiado no meio dos olhos. Depois fugiu para o quarto azul.

    - Por tua causa a cadela vai ter que levar pontos. E o veterinário hoje em dia é caríssimo.

    Deu um pontapé na nuca de JD, que acabou por desmaiar.

    - Esta vou queimá-la viva. Há meses que não como um bom churrasco – Murmurou.

    Pegou JD e colocou-o às costas, como se fosse um pedaço de porco.

    Soraia e Suzette entraram em pânico mal viram que o mister esteroide estava desmaiado e pronto a ser queimado vivo por Kiko. Não podiam fazer nada para o salvar.

    Kiko deitou fogo a um dos vasos do jardim com um isqueiro que tinha guardado no bolso dos calções. E preparou-se para lançar para lá para dentro o corpo de João Diogo.

    Que acordou e inverteu a situação. Kiko tinha acabado de cair no vaso em chamas.

    - Deves pensar que és o único espertinho aqui dentro!

    Kiko levantou-se e correu para a piscina. Tinha várias queimaduras por todo o corpo, mas não sucumbia à dor. Mal apagou o fogo das suas roupas, lançou-se para JD, que naquela altura já tinha fugido para o telhado tal não era o medo que lhe subiu pelo rabo acima.

    - Ai merda que eu não estava à espera que tu sobrevivesses! – Gritava JD em pânico – Soraia! Suzette! Zé! Ajudem-me!

    Mas ninguém saiu em ajuda de JD. E Kiko já estava a escalar as paredes da Casa da Fome, pronto a arrancar a pele a João.

    - Olha, João! Uma caixa de Nitro-Tech 3000 mesmo aí ao teu lado! – Gritou Kiko.

    JD começou a olhar à sua volta, curioso.

    - Onde?! Onde?! – Dizia.

    E trau. Kiko empurrou JD, que caiu perto da piscina. Era o fim do mister esteroide.

    Mas Kiko, ao tentar descer, escorregou num cocó de pombo e também caiu.

    - Ai! Morreram os dois? – Gritou Suzette.

    Soraia e Suzette saíram para perceber se estavam os dois mortos. Mas um deles resistiu à queda.

    - Ainda não é desta que se vêm livres de mim – Disse Kiko.

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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Seg Jul 17 2017, 21:34

    .


    Ao 40º dia, o Império de Kiko caiu do telhado com ele. Os dois, sem forças, sucumbiam aos poucos à força da ferida que a mármore junto à piscina tinha provocado no abdómen do assassino profissional. Restavam-lhe algumas horas.

    Após matar João, Kiko acabou por escorregar também ele do telhado da Casa da Fome, tendo caído desamparado. Apesar da queda aparatosa, conseguiu sobreviver, mas com mazelas demasiado profundas para resistir durante mais tempo. Passou os últimos dois dias a espernear de dores no quarto lilás, à espera da morte. E os restantes, Zé Miguel, Suzette e Soraia, no quarto azul. Chocados, desnorteados, traumatizados. E esfomeados. E também eles, à espera da morte.

    De vez em quando, Soraia era chamada ao confessionário, para lhe ser dada a injeção de suplementos, que mantinha o seu bebé vivo. Suzette e Zé ainda tentaram entrar no quarto lilás para roubar alguma da comida que Kiko escondia debaixo da cama, mas ele, apesar das dores, mantinha-se de arma em punho, deitado junto ao móvel, pronto a matar quem se atrevesse a entrar naquele quarto para roubar o pouco que lhe restava. E queria manter-se impiedoso até ao seu último fôlego.

    Todos sabiam que a Casa da Fome estava prestes a terminar. Uma questão de dias. E esta era a altura ideal para decidirem o seu futuro.

    Zé tinha finalmente a hipótese de vencer o concurso. Com Kiko já despachado, sobrava Soraia e Suzette, duas adversárias claramente mais fracas que o estilista. Soraia, por sua vez, estava demasiado afetada pela gravidez, que a consumia, e não conseguia sequer pensar direito (nada que seja estranho da parte dela). Suzette estava sempre compenetrada nos seus pensamentos, parecendo esconder uma estratégia. Iria ela atacar?

    - A semi-falecida enfiou a última pera da casa no cú – murmurou Zé – Ela sabe bem que eu adoro fruta fresca, fez de propósito.

    Zé, Suzette e Soraia estavam no quarto azul, na cama mais longe da porta, à espera do passar da noite. Tinham receio de sair do quarto e encontrar alguma coisa no escuro da sala. Então mantinham-se quietos durante toda a noite, e de dia dormiam por turnos.

    - Era pêra-rocha? – Perguntou Suzette – Gosto muito de pêra-rocha.

    Olharam um para o outro. Que conversa descabida.

    - O que se passa connosco, Suzette? – Perguntou Zé - Passámos o último mês como escravos daquela morsa, e agora que estamos finalmente livres, enclausuramo-nos a nós próprios no quarto azul? Ainda por cima, no quarto das machas? Que tresanda a sovaco mal lavado e after-shave de marca branca?

    Agarrou a peitaça de Suzette.

    - Temos que nos fazer à vida! Vamos salvar-nos, as duas!

    Suzette olhou para Soraia, que contava as estrelas do céu dentro do quarto.

    - E esta aqui? Jogamos para o ecoponto? – Sussurra Suzette.

    - Piadas com o ecoponto sem o Tó na casa não têm graça nenhuma… - Lança Zé – Epá, essa macaca do Rei Leão é metê-la dentro da banheira com água a ferver e dizer que é para fazer cozido para ela comer! Vais ver que ela até aguenta a dor a pensar que vai encher a pança. Quando dá por ela tá morta.

    - Eu não sou assim, como tu. Frio. Não sou capaz de lhe fazer isso.

    - Então queres o quê? Vamos deixar que ela ganhe? – Gritou Zé.

    - Cinco mil trezentas e vinte e nove! – Grita Soraia.

    Suzette respirou fundo.

    - E mesmo que concordasse em matá-la? O que iria mudar no jogo? – Disse a transexual – Só um sobrevive. Só um de nós poderia vencer. E se isto é tudo uma estratégia tua para me deixar a sós contigo, e depois, zás. Fazes-me a folha?

    Zé começou a suar. Parecia aqueles tempos em que cavalgava.

    - Epá, nem sei… - Disse – Podemos… não sei… lançar à sorte. Cara ou coroa. Para decidir quem sobrevive. Ou então morremos as duas juntas, como manas siamesas.

    - Eu conheço-te bem, Zé. Eu sei perfeitamente aquilo que queres – Disse Suzette – O Kiko já está arrumado, a Soraia é um alvo fácil, e estás pronto para me matar também. Mas eu não vou deixar que a Casa da Fome seja ganha por uma bicha como tu. Ainda se fosse uma de alto gabarito! Agora, tu? Que vestes roupa dos ciganos e dizes que é Veste Couture? Nunca!

    Pegou em Soraia e arrastou-a lá para fora.

    - Vinte e dois, vinte e cinco, vinte e vinte, vinte e dezanove… - Contava Soraia.

    - Fica sozinho a apodrecer no quarto azul. Eu vou construir um forte com as almofadas do sofá e ficar na sala até o Kiko sucumbir. E nem te atrevas a meter-te comigo. Eu atiro-te com Cif especial limpeza de fogões mesmo pra retina. É pior que gás-pimenta, aviso já!

    Zé nem teve forças para argumentar contra Suzette. Estava debilitado. Todas as suas estratégias dentro da Casa da Fome tinham fracassado. E mais uma vez, foi traído pelo destino. Estava outra vez sozinho, sem saber o que fazer.

    Na realidade, Zé nunca quis matar ninguém. Todas as artimanhas que pensou foram para que alguém morresse sem ter que sujar as suas próprias mãos. Porque Zé, na verdade, era um cobarde. Não tinha coragem para sujar as luvas de sangue. E nem mesmo agora, na recta final, tinha tomates para se mexer e acabar com a vida de alguém. Criar as Estrelícias foi o início do plano. Ia movê-las como peões e fazer com que obedecessem às suas ordens. Mas falhou. Falhou sempre. E tudo o que conseguiu dentro da Casa, foi sem querer. E nunca foi nada demais.
    Sentia-se envergonhado. Com nojo de si próprio. Com nojo da sua prestação e da pessoa que se tinha tornado para sobreviver. Caiu no chão, num pranto sem fim, cravando as unhas no tapete e mordendo a colcha da cama. Que dor. Que dor no peito. Terrível. Que agonia. Zé tinha chegado ao seu limite.

    Após longos minutos de choro, quis-se levantar. Tentar derramar as últimas lágrimas perante Suzette e pedir abrigo, atenção e amizade. Zé, sozinho, não era ninguém. Não se sentia capaz de jogar a Casa da Fome a solo. E pela primeira vez, estava a ser sincero. Ele só queria mesmo um ombro amigo. Só queria companhia. Não tinha planos maquiavélicos pensados. Não tinha rasteiras prontas. Não queria enganar ninguém.

    Pfff. Até parece! Bicha maléfica nunca deixa de ser ruim!

    É claro que Zé tinha um plano. E o mais mortífero até agora. E um plano que finalmente o iria colocar à frente da luta. Ele ia, finalmente, sujar as suas mãos.

    Era simples: Ir à sala, estrangular Suzette e depois atirar Soraia à piscina com meia dúzia de cabeças de ex-concorrentes atadas aos pés. Que se foda o bebé. Ele queria ganhar.

    Enquanto Zé se preparava para o seu plano, Kiko morria no quarto lilás. As suas últimas palavras foram: “A todos desejo apenas que sejam felizes”. Borrou as peras depois de falecer e morreu ereto. Fiel a si próprio.

    No quarto azul, Zé aprumava-se. Limpou as lágrimas, abotoou o corpete Dolce Gabanna, calçou os tacões cristal da Prada e ajeitou a capeline Ana Salazar, caminhando glorioso até à sala.

    Mas escorregou numa “nhanha” logo à saída do quarto e bateu com a cabeça na mesa-de-cabeceira de Rafael, de onde saltaram dois pares de dildos metálicos, dildos esses que bateram nos projectores do tecto, que se incendiaram e acabaram por cair, atingindo a cama da falecida Ana, onde vários produtos de higiene entraram em combustão, provocando uma explosão no quarto que rachou os vidros, vidros que caíram na cama de Zé, perfurando o colchão e rasgando o que lá estava em cima: O páreo de fios de ouro revestido a cristais Swarovski, coleção 2015 de Michael Kors. A peça favorita de Zé Miguel. Pronto, tá tudo fodido.

    Ao ver o sucedido, Zé não aguentou. Desmaiou de mão na testa e bateu com a nuca na ponta da cama, aplicando uma cabeçada tão forte que foi suficiente para o matar.

    E morreu. Pode-se dizer que de desgosto. Fiel a si próprio.

    Na sala, Suzette não tinha mãos a medir. A “nhanha” em que Zé escorregou, tratava-se nada mais nada menos do que as “águas” de Soraia, que tinha acabado de entrar em trabalho de parto. Levou de rojo a grávida até à cozinha, fugindo do incêndio que a pouco e pouco ia consumindo a Casa da Fome.

    Irá o jogo terminar sem concorrentes?

    .
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Seg Jul 17 2017, 21:35

    .

    O fogo consumiu o quarto azul em pouco tempo. E já caminhava feroz para o lilás, pronto a transformar em cinzas o palco das Estrelícias na Casa da Fome. Seguia-se a sala, o jardim, a cozinha, o confessionário. A casa mais famosa de Aporue ardia como se estivesse coberta de gasolina do chão ao teto. E o fogo, impiedoso, era invencível.

    Suzette arrastou Soraia pelos cabelos até à sala. Não a conseguiu puxar pelos braços ou até pelas pernas, pois Soraia, com as dores, encolheu-se numa bola, gemendo a cada contração. Suzette e Soraia choravam descontroladamente, uma por dores, a outra por desespero. As duas perdidas no fumo, sem norte. O que iriam elas fazer para escapar vivas?

    Quando chegou à cozinha, Suzette pegou em Soraia e colocou-a em cima da maior mesa que encontrou. A força de homem que ainda tinha dentro de si foi crucial para não se deixar abater durante toda esta crítica situação. Afastou tudo à sua volta, rasgou o casaco que vestia, foi buscar água, tesouras e facas. Estava pronta para fazer o parto.

    Só depois se apercebeu de que poderia engendrar um plano para apagar o fogo e assim salvar a pele tanto a ela, como a Soraia e ao bebé. Apesar das chamas serem ferozes e intimidantes, não perdia nada em tentar arranjar forma de as combater.

    Deixou então Soraia sozinha na mesa a gritar com dores e pôs-se em frente ao lavatório da cozinha a pensar. O que poderia ela fazer para pôr fim às chamas que corriam apressadas para a cozinha? Que insistiam em não dar tréguas? O que poderia estar à sua mão capaz de lutar contra um inimigo tão poderoso?

    A mangueira do jardim. Era perfeito! Suzette lembrou-se dela pois Zé costumava usá-la para fazer enemas de água com cloro todas as terças-feiras.

    Correu logo pronta a pegar na mangueira. Por sorte, era suficientemente grande para chegar aos quartos. Mesmo se não conseguisse apagar todo o fogo, poderia pelo menos extinguir parte dele, e ganhar tempo para fazer o parto em segurança. Esticou a mangueira até ao hall. As chamas já lá estavam. Como corriam depressa em direção à cozinha! E abriu a torneira.

    Mas não saiu água.

    Abanou a mangueira, esticou-a novamente, abriu e fechou a torneira vezes sem conta. Parecia um filme porno. Suzette, de mamas plus size, com a roupa rasgada, toda suada, a pegar numa mangueira enorme e a fazer malabarismo com ela. Bastava um sopro de ar mais forte numa pilinha erecta e era ejaculação garantida.

    Enquanto isso, Soraia gritava palavras esquisitas para o ar. Uma mistura de hebraico com linguagem de galinha africana. As dores do parto estavam a dar cabo dela. A dar-lhe alucinações. A consumi-la. Coitada da parva da peixe-espada.

    Suzette não se rendeu. Pontapeou a torneira, desesperada. Mas não saía nada. Parecia um velhote de 60 e tal anos a tentar mijar às 7 da manhã. Nem uma pinguinha.
    Só depois de vários minutos de tentativas frustradas, a trans decidiu abortar o plano. Era claro que a produção tinha desligado a água. Queriam que hoje fosse o fim da Casa da Fome. Queriam que hoje fosse o último dia do reality show mais famoso de Aporue.

    Enervada, pegou na mangueira e atirou-a contra os vidros do jardim.

    - Vocês querem sangue, não é? – Gritou.

    Correu para a cozinha. Tinha mesmo de fazer o parto, pois Soraia já estava a espumar da boca e tinha os olhos inchados e vermelhos. Mais do que o normal.

    - Soraia! – Gritava Suzette – Soraia! Soraia!

    Mas ela não dizia nada. Só se contorcia.

    - Vou começar por ver a dilatação! – Gritou Suzette – Estás-me a ouvir?

    - Eu não gosto com cera… - Disse Soraia.

    - Não é depilação! É dilatação! Basicamente, vou-te enfiar a mão na xoxa e ver se já podes começar a fazer força, tá bom?

    Suzette nem esperou pela resposta da Soraia. Pôs-lhe a saia para cima, arredou a cueca para o lado e preparou-se para fazer o teste. Só que a vagina de Soraia era… bizarra.

    - Ai credo que tu tens um lábio para a esquerda e outro para a direita. E eu pensava que só tinhas os olhos trocados! – Disse Suzette.

    O fogo aproximava-se cada vez mais. Era crucial ser rápida. Barrou a mão em Matinal Magra e começou a enfiá-la dentro de Soraia.

    - Ai que isto não entra.

    Empurrou com mais força. Mas a mão não entrava. E o fogo, aterrador, a consumir o hall. A destruir a casa. E a derreter os ferros que seguravam os projetores de luz, que caíram em simultâneo perto da mesa onde Suzette fazia o parto a Soraia.

    Suzette acabou por cair da cadeira após ser atingida por alguns vidros. Percebeu que restavam apenas alguns minutos. Alguns minutos para a Casa da Fome ser reduzida a cinzas.

    Então, pegou em Soraia ao colo e fugiu para a piscina. Nada melhor que um parto debaixo de água. Para além disso, o jardim era a única parte da Casa que ainda se mantinha segura das chamas. Mas não por muito tempo.

    - Vem ao colinho da Suzette, vem – Disse para Soraia.

    Mas a peixe-espada não se queria mexer. E Suzette depressa percebeu que seria impossível apanhá-la ao colo: As mamas XXL tornavam essa tarefa impossível.

    Então, voltou a arrojar Soraia pelo chão. Era a única forma.

    - Tenho frio! – Gritava Soraia.

    A casa a arder e ela com frio. Todo um sentido…

    Depois de bater com a cabeça de Soraia em tudo o que era lado, Suzette chegou finalmente ao jardim. E ficou de queixo caído com o que reparou.

    Os corpos de todos os concorrentes tinham desaparecido. A pilha de mortos que se foi criando ao longo dos últimos meses, num canto do jardim, desapareceu por completo. Não restava absolutamente nada. Apenas vestígios de sangue e alguns objetos pessoais, espalhados na relva seca. E a piscina estava vazia. Completamente vazia.

    - Mas que jogo é que estão a fazer comigo? – Gritou Suzette para as câmaras.

    Entrou em absoluto desespero. Mas mesmo assim, não quis desistir.

    A soluçar de dor, de raiva, e de agonia, arrastou o corpo de Soraia até à piscina, desceu as escadas e pouso-a mesmo no meio. Estava pronta para fazer o parto a Soraia no centro da piscina da Casa da Fome. E depois disso… esperar pela piedade da produção.

    - Vamos Soraia! Tens que colaborar comigo! Vamos pôr essa criança o mais rapidamente possível cá fora! – Gritou Suzette.

    Voltou a colocar a mão dentro de Soraia para ver quantos centímetros estava ela dilatada. Mas era incrivelmente difícil penetrá-la. Parecia o rabo de um babuíno com prisão de ventre.

    - Fechadinha… - Murmurou Daniel Suzette – Dois dedos!

    Soraia mexia a cabeça para todos os lados, sorrindo. Estava alucinada. Parecia que tinha comido o stock todo de Cogumelos do Tempo. O cabelo pintado de loiro platinado e era cópia do Roberto Leal.

    - Que se lixe! – Gritou Suzette – Faz força! Pode ser que ele consiga passar por aí! Como é filho do Ivo, é anão, de certeza! Cabe em qualquer lugar!

    - Força? Fazer força? – Perguntou Soraia.

    O fogo depressa tomou conta da cozinha. E corria para o jardim.

    - Sim! Força! Faz força! – Pediu Suzette, em desespero.

    - Mas para quê? Deixa-me estar quieta! – Disse Soraia.

    Suzette esbofeteou a peixe-espada.

    - Tens um bebé dentro de ti que quer nascer. Tens de fazer força para ele sair!

    - Como é que faço força? Há tipo receita para isso? – Perguntou Soraia – A minha especialidade é cataplana de marisco, agora Força eu nunca fiz. Leva que especiarias?

    - Leva o Açafrão do Vai-te Foder e Funcho-te a cara toda se não deixas de ser estúpida!

    Voltou a esbofetear Soraia, que perdeu imediatamente os sentidos.

    - Ai fodasse, matei-a, pronto!

    Suzette pegou no pescoço de Soraia para verificar o seu batimento. Estava viva.

    Percebeu logo que só tinha uma última opção: Fazer uma cesariana improvisada. Suzette era especialista em operações a sangue frio, portanto, não haveria de ser muito difícil fazer um parto depois de ter feito uma operação de mudança de sexo a si própria no Confessionário.

    Pegou na faca e nas tesouras que trouxe da cozinha e preparou-se psicologicamente para aquilo que ia fazer. A sua prioridade era salvar o bebé. Soraia estava em segundo plano.

    E o fogo tinha chegado ao jardim. Depressa tomou conta das espreguiçadeiras, da relva, dos vasos, da tenda de masturbação de Jota. Era incrível como a Casa da Fome ardia tão rapidamente, quase como se o chão estivesse coberto de alguma matéria inflamável…

    - Fica inconsciente minha querida, que isto é capaz de doer… - Disse Suzette.

    A esta altura, tudo ardia. Menos a piscina. O único lugar seguro. Mas o fumo era tanto que até a própria da trans já estava tonta e prestes a desmaiar.

    - Só mais um bocadinho… só mais um bocadinho… - Murmurava para si própria.

    Rasgou o casaco de Soraia e puxou a camisola dela para cima, para chegar à barriga.

    Pegou na faca e fez um pequeno corte. Mas não saiu sangue algum.

    Suzette ficou confusa. Porque razão Soraia não sangrava?

    Continuou a cortar e nada aconteceu. Nada de sangue. Nada de nada.

    - O que é que se está a passar? – Perguntava, incrédula – O que é isto?!

    Perfurou a barriga com a tesoura, com a faca, com tudo o que tinha à mão. E apercebeu-se, para seu espanto, que se tratava de uma barriga falsa, de silicone, presa ao abdómen de Soraia por um tecido. Soraia nunca tinha estado grávida.

    Suzette levantou-se, pasmada, de mão na boca, olhar confuso. E ficou a olhar para a barriga de Soraia, sem saber o que pensar e o que achar do que tinha acabado de descobrir.

    Jogou a tesoura para o fogo e começou a lacrimejar, apavorada.

    - Mas… - Murmurava – O que se passa? O que é isso? Porquê?!

    A resposta de Soraia foi a sua mão enrolada à volta o tornozelo de Suzette, puxando-o num movimento rápido. Suzette caiu desamparada na piscina.

    Soraia levantou-se depois, rasgou o tecido que prendia a barriga falsa e atirou-a para o fogo. Aproveitando-se da sua posição e da posição de Suzette, Soraia pisou de imediato o pescoço da trans, sem lhe dar sequer hipótese de reagir ao tombo. No seu pé concentrou toda a sua força. Até o quebrar.

    Matando-a.

    - Acabou – Disse.

    De imediato, a produção acionou o alarme de incêndio e depressa o fogo foi extinguido. Não restava nada da Casa da Fome. O quarto azul das machas. O quarto lilás das Estrelícias. As roupas, os eletrodomésticos. Os sofás, as cadeiras, os móveis. Não restava ninguém. Só Soraia.

    Mas que Soraia era esta? Quem era Soraia afinal?

    - Esta é a VOZ – Ouviu-se - Soraia, ao Confessionário.

    Soraia caminhou pelas cinzas até ao Confessionário. Lentamente, sorrindo. Saboreando a sua vitória. Após quase três meses dentro da Casa da Fome, Soraia tinha sido a única a resistir. Era a única sobrevivente. Era a vencedora.

    Pouco restava do Confessionário. Só o sofá, meio chamuscado, a câmara por detrás ainda intacta e o microfone partido no chão. Soraia sentou-se. Com o sorriso estampado. Com o doce sabor do primeiro prémio na ponta da língua. Mas quem era ela?

    - Parabéns Soraia – Disse a VOZ – Ganhou a Casa da Fome.

    - Obrigado, VOZ – Respondeu.

    - 20 Concorrentes viveram nos meus domínios. 82 Dias se passaram desde a vossa entrada na Casa. E foi você a resistente. A sobrevivente. A vencedora do jogo mais mortífero que alguma vez Aporue viu.

    - Eu sei – Disse Soraia – Eu sei…

    - Mas como deve calcular, a VOZ está intrigada com o que acabou de acontecer.

    - Eu também ficaria, VOZ.

    - Quem é você, Soraia?

    Soraia abriu ainda mais o sorriso. Ajeitou-se no lugar, coçou a cabeça. E fixou os olhos na câmara.

    - Sou eu. Agora sim, sou eu – Respondeu.

    O silêncio tomou conta do que restava do Confessionário.

    - Hoje não morre só a Suzette. Hoje morre também a Soraia – Disse a rapariga.

    Levantou-se, pronta a sair pela porta do jardim rumo à liberdade.

    Soraia estava finalmente livre. Estava viva. Era altura de deixar a Casa da Fome e partir. Talvez para sempre. Deixando naquela piscina, junto ao cadáver de Suzette, a Sorah. Partindo da Casa como Soraia. De prémio na mão. De cabeça erguida. Ela mesma.

    - Só mais uma coisa, Soraia – Pediu a VOZ.

    O ar voltou a ficar consumido por um ambiente tenso. Um silêncio misterioso.

    - Está uma mala debaixo do sofá. Leve-a consigo – Ordenou a VOZ – Saia da casa com a mala e fique com ela até alguém a vir buscar. Guarde-a bem. Porque o que ela contém é único e insubstituível. E muito valioso.

    Soraia não questionou a VOZ. Pegou na mala, fez uma vénia à câmara e prendeu o cabelo. Estava prontíssima para sair da casa. Estava prontíssima para pôr um ponto final na Casa da Fome.

    E lá foi. De passo curto. Descansado. Olhando as divisões, esboçando um sorriso de satisfação. E de nostalgia. E um último adeus num acenar tímido com a mão esquerda. Porque a direita segurava a mala misteriosa. E ela lá balançou ao seu lado…

    A porta do jardim destrancou. Soraia olhou pela última vez aquela que foi a sua casa durante quase três meses. Aquela que foi a casa do amor, das intrigas, da diversão, da parvoíce, da vida e da morte. Aquela que foi a Casa da Fome. E que estava agora reduzida a cinzas. Desfeita, perdida. Existente apenas na sua memória.

    E saiu.

    Mas deixou a porta aberta.

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    Filip
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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

    Mensagem por Filip em Seg Jul 17 2017, 21:40

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    Re: ⌽ A CASA DA FOME

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